
Possibilidades outras de narrar o país: veja como foi a mesa de abertura da Casa Odisseu na Flipelô!
A mesa de abertura da Casa Odisseu na 10ª Flipelô, de título “Escrever um país”, foi marcada pelo encontro entre Danichi Hausen Mizoguchi, Leandro Colling e Octávio Santiago, em torno das múltiplas formas de construir uma narrativa sobre o Brasil.
Fotos: Denni Sales (O Odisseu).
A construção da nação perpassa a narrativa. Essa assertiva está presente em inúmeros livros sobre o tema, pois, seu caráter imaginário, que precisa ser retroalimentado para que haja minimamente um sentimento de união, está posto desde o processo de colonização. Assim, por meio de elementos, símbolos, do hino nacional e, claro, dos livros, o Brasil constitui uma narrativa oficial para construção do país.
Contudo, quando paramos para pensar quem está no foco dessa história oficial e quais sujeitos estão nas margens da nação, silenciados e não validados, percebemos que narrar o Brasil é se inserir num campo de batalha. Questionamentos importantes surgem: quem está no centro? Como desestabilizar, rasurar e reelaborar essa centralidade por meio de sujeitos que vivem nas margens? Essas e outras discussões marcaram a mesa de abertura da Casa Odisseu na Flipelô deste ano, realizada no dia 06/08, às 13:30hs. Ewerton Ulysses Cardoso, editor-chefe da Revista O Odisseu, mediou a conversa e o tensionamento em torno do tema da mesa.
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A primeira leva de perguntas girou em torno da questão identitária, num contexto atual no qual estudar e falar sobre e com grupos minoritários garante ao sujeito o rótulo de identitarista. Pensando nessa nomenclatura e na sua atual pesquisa, Leandro Colling explanou como a esquerda passou a propagar esse discurso, que, segundo ele, surgiu nos EUA durante o primeiro mandato de Donald Trump. Para o pesquisador, essa leva de intelectuais que compactua com esses discursos “diz que agora somos ultraidentitários, nós somos identitaristas”. Há, portanto, um “hiperessencialismo identitário”, que pode ser observado na forma como as publicações sobre o tema ganharam espaço nas editoras.
O pesquisador, posteriormente, retomou o tema para falar sobre o papel do intelectual no contemporâneo e sobre como os corpos que não estão na hegemonia sofrem repressões, inclusive no âmbito literário. Logo, à medida que esses grupos ganham voz e espaço, há um questionamento dos grandes autores e dos valores que lhes são atribuídos. Mas o pesquisador não fica apenas nesse lugar, ele também leva a discussão para o âmbito universitário, um espaço igualmente marcado por disputas.
“Quem se define como centro, busca logo definir quem é a periferia”

Na mesma esteira da discussão, Ewerton Ulysses Cardoso apontou a centralidade da cultura, observando que, no Brasil, existe uma proliferação discursiva segundo a qual esse centro estaria nas regiões Sul e Sudeste. Para o pesquisador Octávio Santiago, esse discurso de valorização dessas regiões traz consequências para as demais partes do país, ou seja, estabelecendo uma divisão entre “um país que supostamente dá certo, e ali estaria o país que supostamente não dá certo, que somos nós”.
Ao direcionar perguntas a Danichi Hausen Mizoguchi, o que chama a atenção do mediador é a forma como o autor escreve suas protagonistas femininas no romance Eterna Fantasia (Dublinense, 2025) e como narrar a alteridade se constitui na sua obra. O escritor declara: “Minha questão é lidar com a alteridade. Não sei se tem como fazer trabalho artístico tão transparente sobre si, sem abordar o outro”. Portanto, mesmo sendo uma pergunta constante na literatura, o escritor afirma que existe uma necessidade de mobilizar esses centros com um olhar para as margens. Para além do personagem que aparece no decorrer das páginas de forma acessória, o autor pontua que há um jogo entre “decoração e transmutação” ao narrar o outro.
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Mizoguchi ressalta que a escrita literária é esse espaço do encontro e da possibilidade de compreender outras formas de estar no mundo. Como pontua o escritor: “o trabalho de presença no mundo é um trabalho com o outro.”
No cenário atual, em que falar sobre o outro se tornou um tema espinhoso e cercado de críticas, a mesa da Odisseu fricciona novas formas de narrar um país que é múltiplo. Logo, sujeitos e suas maneiras plurais de compreender o Brasil ganham espaço no cenário nacional, mas, em paralelo, persistem discursos que buscam continuar silenciando e diminuindo as pautas desses grupos, aqui representados por mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIAPN+, entre outros.
A Casa Odisseu acontece durante todos os dias da Flipelô, de 05 a 09 de agosto, de forma gratuita. A programação detalhada, assim como as datas e horários das mesas da Casa Odisseu, pode ser consultada no Instagram da Revista Odisseu, assim como no site da Flipelô.

