Flipelô 2026

Essa história só eu poderia escrever: novas vozes na tapeçaria literária brasileira

A mesa de abertura da Casa Odisseu no sábado (08/08) contou com Mariana Paiva, Lara Tironi e S. Ganeff e reafirma o grande momento da Literatura contemporânea nacional. 

Foto: Denni Sales (O Odisseu).


Sábado de sol, calor e uma grande mesa para iniciar os trabalhos no último dia da Casa Odisseu na FLIPELÔ. Mediada por Carol Antunes, editora da revista O Odisseu, Mariana Paiva (Minhas meninas, P55, 2025), Lara Tironi (Vapor de dendê não tem cor, Patuá, 2026) e S. Ganeff (Pague após o resultado, Urutau, 2026; Entrelinhas, Labrador, 2025) debateram, em um encontro marcado pela leveza apesar dos temas sensíveis em suas obras, a originalidade de seus projetos literários e a capacidade da Literatura em dar voz às mulheres apagadas no cânone, dentro e fora do universo das letras. 

“Escrever é um jeito de cicatrizar as coisas”, diz Mariana Paiva em mesa na Casa Odisseu, na Flipelô

Mariana Paiva, escritora, em mesa na Casa Odisseu (Denni Sales/ O Odisseu)

“Quem está ficando de fora?”, questiona Mariana não apenas através da posição de leitora com a produção consolidada da Literatura, mas especialmente em relação ao seu processo criativo. Ao elaborar sobre as mulheres invisibilizadas, a autora reforça o interesse na busca pela compreensão sobre o que passa no íntimo dessas personagens na dinâmica familiar, tragédias cotidianas e momentos de ternura diante as possibilidades inerentes à escrita. “Escrever é um jeito de cicatrizar as coisas (…) dar materialidade ao que a gente sente”, reforça ao apresentar “outra possibilidade de representação fora do cânone branco” e a possibilidade, “da pessoa que escreve no mundo (…) de representar na escrita um final distinto da realidade” imposta pela sociedade. Contar essas histórias sem ter medo da dor é “libertador” e “revolucionário para pensarmos sobre as nossas próprias histórias”. 

“A Literatura tem um grande poder ao achar tanta beleza em tanta tragédia”, diz Lara Tironi

Lara Tironi, escritora, em mesa na Casa Odisseu durante a FLIPELÔ (Denni Sales/ O Odisseu).

A respeito do enredo do seu festejado lançamento pela Editora Patuá, Lara é contundente: “O livro me escolheu”. Nascido de um incômodo após um episódio de racismo estrutural em Salvador, a autora soteropolitana destacou a possibilidade, através na Literatura, de “fazer justiça com as próprias mãos” com as histórias retratadas e os temas centrais na narrativa, fortemente ligados “não só à liberdade reprodutiva, mas justiça reprodutiva” às mulheres brasileiras vulneráveis. Utilizando-se da memória como recurso narrativo, em meio ao “deslumbramento de uma Salvador (dos anos 1950) que se perdeu”, Lara reforçou os laços de sua escrita com João Ubaldo Ribeiro, sua grande referência, e no uso do tempo e da construção do léxico dos narrados como forma de conectar leitor com a obra. “A Literatura tem um grande poder ao achar tanta beleza em tanta tragédia”, enfatizou. 

“Enxergo a literatura mais como um tecido”, diz S. Ganeff

S. Ganeff na Casa Odisseu (Denni Sales/ O Odisseu).

Nesse mesmo tom segue Sophia Ganeff, vencedora do Prêmio LOBA 2025 e finalista do Prêmio Jabuti em 2023. “Existe um pouco de nós, tanto no vivido quanto no imaginado, que 

só a gente poderia escrever”, reforçou no tocante ao seu processo criativo, impactado com as incongruências do sistema de Justiça, e a cumplicidade do leitor com o texto. Especialmente em Entrelinhas, além da técnica empregada na própria reprodução gráfica no formato do texto em comunhão com o título, a autora buscou dar voz aos incômodos universais com o Direito. “Enxergo a literatura mais como um tecido. Eu imagino uma tapeçaria que você vai montando fiozinho por fiozinho e vai formando uma obra bonita”, concluiu.  

Essas histórias só poderiam ser contadas na Casa Odisseu. 

A Casa Odisseu ocorreu durante todos os dias da Flipelô, de 05 a 09 de agosto, de forma gratuita.