Flipelô 2026

O que a ficção pode fazer hoje? Mesa com Bethânia Pires Amaro, Guilherme Boldrin e Breno Botelho reflete sobre o poder da ficção em tempos de ruptura

Com a casa cheia, a mesa O que a ficção pode fazer hoje? na sexta-feira, 7, trouxe importantes reflexões sobre o exercício da ficção em tempos caóticos.

Foto: Denni Sales (O Odisseu).


A terceira mesa da programação da Casa Odisseu na Flipelô deixou o espaço da Biblioteca Zeca de Magalhães, no CRIA, completamente lotado. Além de todas as cadeiras preenchidas, muitos ficaram de pé do lado de fora da biblioteca e se aglomerando do lado de fora da biblioteca para ouvir três ficcionistas incríveis. Bethânia Pires Amaro, autora de Ressalga, Breno Botelho, autor de Pilares e Guilherme Boldrin, autor de O Cuidado dos Sonhos, refletiram sobre os caminhos possíveis da ficção na mesa mediada pelo escritor e poeta Matheus Peleteiro.

Os caminhos da ficção na contemporaneidade

Da esquerda para a direita, Guilherme Boldrin, Breno Botelho, Bethânia Pires Amaro e Matheus Peleiteiro na mesa O que a ficção pode fazer hoje? na Casa Odisseu na Flipelô (Denni Sales/ O Odisseu).

Os três ficcionistas convidados possuem uma trajetória marcada pela inventividade dentro da escrita ficcional. Em Pilares, de Breno Botelho, a força da ficção se mostra de maneira radical, na construção de um país e de uma identidade nacional ficcional e que, de alguma maneira, reflete a própria identidade do Brasil. Já em O Cuidado dos sonhos, de Guilherme Boldrin, a força da ficção se mostra através da criação de mundos novos, no exercício da fabulação que convoca o sonho e o imaginário para seus contos extraordinários. Em Ressalga, Bethânia Pires Amaro, autora vencedora dos prêmios Jabuti e APCA, o documento histórico serve como aparato para recriar a vida de personagens historicamente silenciados.

“A tensão entre a ficção e a realidade me interessa muito”, diz Bethânia Pires Amaro na mesa “O que a ficção pode fazer hoje”

Bethânia Pires Amaro, autora de Ressalga (Denni Sales/ O Odisseu).

Um dos nomes mais proeminentes desta geração de ficcionistas, Bethânia Pires Amaro vem se destacando desde a sua estreia, o premiado O Ninho, livro de contos vencedor do Prêmio Sesc e dos prêmios Jabuti e APCA. Se o primeiro livro foi marcado pela inventividade com a linguagem e a força do conto, no seu primeiro romance Ressalga, Bethânia Pires Amaro busca recontar a história de mulheres prostitutas na Ladeira da Montanha, em Salvador, reunindo documentos históricos como aparato para pensar a ficção. Na mesa da Casa Odisseu, ela contou como esse tensionamento entre realidade e ficção foi algo que sempre a interessou.

“A literatura é um pouco cuidar dos sonhos”, diz Guilherme Boldrin em mesa na Casa Odisseu

O escritor Guilherme Boldrin em mesa na Casa Odisseu (Denni Sales/ O Odisseu).

Autor do emblemático livro de contos O Cuidado dos Sonhos, obra que reúne influência do realismo mágico latino-americano, mas também da fantasia de escritores asiáticos como Haruki Murakami, Han Kang e Can Xue, Guilherme Boldrin aproveitou para falar como a experiência da escrita ficcional, para ele, parte da própria manipulação da realidade entre aquilo que existe e aquilo que poderia existir. O autor aproveitou para falar de suas experiências enquanto leitor e de como isso reverbera em seu texto.

“Tudo é passivel de literatura”, diz Breno Botelho para audiência da Casa Odisseu

O escritor Breno Botelho na mesa O que a ficção pode fazer hoje? (Denni Sales/ O Odisseu).

Num ato de ficção radical, Breno Botelho utilizou elementos da história do Brasil e de outros países ex-colônias de Portugal para construir um país e uma nação que reflete a história do Brasil. O autor aproveitou a oportunidade na Casa Odisseu para falar que a escrita ficcional é possível para todos e que não existe tema melhor ou pior quando se trata de ficção, enfatizando que todos os caminhos são viáveis quando se trata da escrita inventiva.