Crítica Poesia

Uma estranha na casa – resenha de Nossa Vingança é o Amor, de Cristina Peri Rossi

Nossa Vingança é o Amor inaugura a poesia da autora uruguaia no Brasil e constrói a reunião de poemas desde o seu título, extraído da própria obra.

Capa: Matias Nieto/Getty Images/Reprodução


Ao partir, o que permanece?

No horizonte de uma viagem, interpretar a direção dos ventos parece vital. Ao atravessar fronteiras, pouco importa o transporte; convém estar a par do que o espera no limite. Para além das aparências, desvios de rota fazem parte natural do projeto, sabemos. Onde embarcar, onde aportar. O viajante, nas escolhas, esconde consigo muito da origem, inclusive sua vontade de ficar. Para onde vamos, porém, quando não nos é autorizado o retorno? Ir, mas sem alternativas, sem direito a protestos, privado de endereços. Uma qualificada prisão às avessas, cujo contraste contribui na sua função punitiva. Ver-se entregue ao lado de fora, sem teto ou chão, desterrado. Prática política secular, cuja particularidade, no século XX, se ampliou ao contexto latino-americano.

No Uruguai, não foi diferente. “Quinze dias de mar e de incerteza” é a passagem do poema intitulado “A Viagem” e também representa a história de uma correspondente viva que, não por acaso, foi galardoada em 2021 pelo Prêmio Miguel de Cervantes – atualmente, o maior reconhecimento literário da língua espanhola.

Nascida em Montevidéu, em 1941, Cristina Peri Rossi, aos 29 anos, se vê diretamente censurada pelo regime civil-militar uruguaio e parte para Barcelona, Espanha, onde vive até hoje. Embora tenha publicado mais de 40 livros desde 1971, apenas em 2025 recebemos em língua portuguesa a compilação de sua obra poética, coletando desde os seus primeiros (1971) até os últimos lançamentos (2024), com a inclusão dos textos no idioma original, mérito virtuoso dos organizadores e tradutores Ayelén Medail e Cide Piquet, por meio da Editora 34.

Nossa Vingança é o Amor inaugura a poesia de Cristina no Brasil e constrói a reunião de poemas desde o seu título, extraído da própria obra. Quem irá negar a excelência da proposta? Para equilibrar os pontos, elegância na vingança: amar. Amor será, nesta antologia, uma das bandeiras mais insistentes. A temática, em quatrocentas páginas, aponta as portas fechadas da história no Ocidente e denuncia a cada linha a competência da autoria no ofício de revelar e conduzir conceitos. Não temos aqui uma escritora desavisada das lógicas de poder e domínio que atravessam os marcadores sociais de gênero, sexualidade, origem e trabalho. A precariedade da vida de alguns desponta explícita nas relações internas da cidade – garçons, professores, vendedores, imigrantes. Relatos comuns se projetam, na voz de Peri Rossi, como eloquentes protestos.

Em “Estado de Exílio”, um lavador de pratos morando em um quarto do oitavo andar sem instalações sanitárias era um matemático uruguaio que nunca quis viajar à Europa, no poema “XIV”.

Lúcida, a delicada declaração de medo ao sofrimento, vinda de um assassino-torturador deliberado, ironiza o paradoxo entre o cruel e a doce humanidade no poema “XXI”:

“[…]
Não comia peixe
porque uma vez tinha se engasgado com uma espinha
e doeu.

Em “Diáspora”, o nome do último soldado norte-americano abatido em combate na guerra do Vietnã é posto ao lado de uma pergunta importante: qual o nome do último soldado vietnamita morto? Não foi divulgado. A complacência com o silêncio é o mote. Ainda que não o saibamos, ele possui um nome e lembrá-lo seria um gesto oposto aos fatos conformados e que nos confundem. Lembrar será o contraponto possível aos valores difundidos de uma classe dominante de um país hegemônico tão pouco sensível à vida, avessa às aparências. Com isso, descobrimos que a memória sobre o real também é um espaço de disputa entre nós e constatamos que a guerra segue desigual.

Sem desviar a atenção das faltas da História, Cristina reconhece o amor como o dom decisivo. Assume seu desconforto na forçada dependência da mulher e a solidão dos dissidentes. Recusa, por isso, o convencional das condutas e reivindica seu espaço, celebrando o direito ao prazer do sexo, ofendendo justa e livremente o seu algoz e propondo, enfim, uma releitura dos fatos desde as primeiras caravelas empreendidas ao mar da América.

Fato é que a leitura, ao alcançar o ponto final de um poema, promove a consciência de uma posição crítica evidente do autor. Em boa parte, pode-se dizer, no sentido de aproximar-se de sua própria identidade, como quando, assombrado pela triste progressão e desfecho de suas relações pessoais, pergunta sem respostas, no poema “Solidão”, por que levava uma vida emocional tão complicada aos sessenta anos. O interlocutor não poderia experimentar o mal-estar sem efeitos. Intensificada pela primeira pessoa, a leitura se realiza, muitas vezes, como uma carta aberta, um convite influente a encontrar-se habitando a sua própria perplexidade e inquietação. Arriscando uma hipótese, o poema conclui:

“[…]
que tudo neste mundo acontece para se fazer filmes ou literatura, ainda que sejam filmes ruins e literatura ruim.

Pergunto: um bom filme será a contrapartida de uma vida ruim de quem o produz?

A escritora não adquire, porém, com sua vocação disruptiva, tom de simples propaganda ao confronto, mas sim uma composição de respostas autênticas aos impasses da máquina do mundo.

São versos concisos e livres, escritos ágeis, nítidos como quem argumenta, movimento sofisticado de uma intelectual segura de seu escopo. Boa parte do repertório se dedica com regularidade ao prazer, à experiência da margem social, às misérias econômicas, às violências do Estado, aos descompassos entre o público e o privado e ao sentimento constante de estranheza, alienação e abandono, possíveis sequelas do deslocamento forçado — uma interpretação adicional motivada pelo reconhecimento biográfico.

Por outro lado, pensar no amor como estratégia de resistência e combate não é exatamente uma sugestão recente, mas milenar, quando lembrada em Antígona (c. 442 a.C.), de Sófocles, o trecho do coro:

Eros, invencível na batalha, Eros que arruína os poderosos […]”

O que apenas demonstra e confirma a densidade e lucidez preservadas na escolha do título. Coincidem ainda com precisão alguns temas referenciados na obra com o presente processo histórico das grandes reparações sociais, intensamente em curso. É notável o potencial ponto de contato com realizações artísticas recentes, como a rica produção cinematográfica iraniana Foi Apenas um Acidente (2025), cujos personagens tocam os extremos entre vingança, justiça e perdão ao seu possível torturador; as montagens brasileiras Lady tempestade (2024) e Prima Facie (2024), dirigidas por Yara de Novaes, nas quais perguntam e propagam nas salas de teatro o arbítrio estatal e judicial em violação aos direitos humanos; bem como Conceição Evaristo, Rosa Monteiro, Carla Madeira, Nona Fernández, Aline Bei, Gioconda Belli. Literaturas das quais se pode resgatar o balanço entre memória e justiça sob agudas perspectivas identitárias.

Não podemos, portanto, negar que na trincheira do debate estão a postos cineastas e atrizes do cotidiano, professores e poetas, tantos outros trabalhadores da palavra. Sensíveis referenciais cujos textos distinguem a cor e o timbre da dor de um indivíduo ou de um povo. E devemos reconhecer sem medo que está, pelo porte de Cristina, robustecida a amorosa linha de defesa.

Afinal, que grande responsabilidade assume a arte de revolver, renovar e nos presentear com o novo mundo ou o seu velho mundo roubado, talvez um retorno.

Nossa vingança é o amor: antologia poética (1971-2024). Cristina Peri Rossi. Tradução de Ayelén Medail, Cide Piquet. Editora 34, 2025, 400 pp.

Porque assim se verifica o lugar que ocupa uma leitura relevante: ler como quem volta para casa.


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Patrick Rosa é estudante de literatura, arte e linguagens. Graduando em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Lê e escreve como quem ouve canções.