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“Penso primeiro na imagem”: Literatura e Orixalidade nas obras de Edsoleda Santos

No dia 1º de agosto, houve um lançamento em dose dupla: do livro sobre Iansã e do box, numa comemoração a uma trajetória de arte e de vida atreladas à ancestralidade. Aproveitando o ensejo desse lançamento, entrevistei Edsoleda Santos numa conversa por telefone de quase uma hora.

Foto: Divulgação.


A literatura está atrelada às expressões culturais e, quando abordamos as literaturas que mesclam a religião de matriz africana em seu labor literário, existem ótimos exemplos no Brasil. O professor Henrique Freitas denomina essas literaturas de “literatura-terreiro”, que tem em seu bojo uma descentralização de um modo canônico de fazer literário. O romance, o conto, a poesia e, nesse caso, a literatura para as infâncias ficam carregados de elementos das comunidades-terreiro das religiões de matrizes africanas e de marcas da oralidade, por meio das quais o conhecimento é transmitido nessas religiões.

Edsoleda Santos, 87 anos, escritora e artista visual da Bahia, mestre em Artes pela UFBA, produz pesquisas e obras sobre a relação entre artes e orixás desde a década de 1980. Pesquisou Oxum no mestrado e criou figurinos para o grupo Odundê. Sua trajetória ganha outros tons quando dá início a seu projeto literário mais ambicioso, fruto de um pedido de um dos editores da Editora Solisluna, Enéas Guerra: passar histórias orais para a narrativa infantil sobre os Orixás. Atualmente, a coleção conta com 12 livros, todos utilizando a técnica do bico de pena e aquarela. O volume mais recente é sobre Iansã, divindade das tempestades e do vento, cujo título é Oiá-Iansã: Epa Heyi! (Solisluna Editora, 2026). Em comemoração à coleção, foi lançado também um box com todos os títulos da coleção, reunindo obras que estavam esgotadas no mercado editorial. 

Assim, no dia 1º de agosto, houve um lançamento em dose dupla: do livro sobre Iansã e do box, numa comemoração a uma trajetória de arte e de vida atreladas à ancestralidade. Como explica a própria autora, este legado começa com o contato com sua bisavó, que veio da África e era de origem iorubá. Foi ela quem começou a transmitir o conhecimento sobre o cuidado com os Orixás e a natureza como fonte primordial de atenção  sobre si e sobre a coletividade, afinal, essas divindades são forças da natureza. 

Aproveitando o ensejo desse lançamento, entrevistei Edsoleda Santos numa conversa por telefone de quase uma hora, durante a qual a autora rememorou o passado e sua produção artística, falou de como a literatura e as narrativas são representadas nesses livros para as infâncias surgem e dos seus projetos futuros. Entre risos e rememorações, passeei com a autora por sua vida e por seu modus operandi de produzir arte. Uma entrevista carregada de ventos e borboletas. 

“Os livros que escrevo e ilustro são importantes para qualquer criança em formação, porque são ensinamentos caros para a educação e para a história do povo negro”, diz Edsoleda Santos

Douglas Sacramento: Por estar diante de uma artista plástica negra, com mais de 80 anos de idade e que ainda está na ativa, não poderia começar a entrevista sem essa pergunta: quando surgiu sua relação com as artes e com a ancestralidade, que resultou em colocar em imagem as narrativas recolhidas sobre os Orixás? Como foi o processo de profissionalização ao juntar essas duas instâncias? 

Edsoleda Santos: A questão da religião de matriz africana começa com minha infância, com minha avó. Ela não me catequizou. Ela celebrava a natureza, que era morada dos encantados. Ela morava próximo ao Dique do Tororó e, ali mesmo, ela saudava, em outras línguas, as águas. Ela me levava para ver. Na casa dela tinha uma cachoeira em homenagem a Oxum, um pé de laranja.

Após a morte dela, eu me aproximei do meu tio, que tinha um cargo num terreiro de Angola. Ele me ajudou muito com a mãe de santo dele sobre a ancestralidade. Ela, a mãe de santo que jogou búzios pela primeira vez para mim, dizia que não poderia cuidar de mim como deveria, mas havia uma herança ancestral deixada por minha avó. Dizia que, mais cedo ou mais tarde, eu iria encontrar minha missão de vida.

Quando fiquei grávida, comecei a ter sonhos. Contei isso para meu amigo e artista plástico Paulo Rufino, que trabalha com o tema da ancestralidade. Ele me ajudou muito com esse conhecimento que chegava para mim e com o qual eu não sabia lidar direito. Mas aí, veja bem, eu não fui buscar as coisas, elas aconteceram naturalmente.

Na década de 1980, mesmo você achando que eu tinha conhecimento, eu trabalhava na UFBA como designer gráfica e figurinista. Depois veio a proposta do Odundê de criar os figurinos com a professora Conceição Castro, que criou e coreografou o grupo. Na conversa, ela fez uma proposta: criar um figurino sobre os Orixás, mas não sendo as roupas sagradas do terreiro; a ideia era que a energia do Orixá passasse pela roupa.

O primeiro livro que pesquisei foi o de Pierre Verger, e compreendi o apagamento histórico dessa cultura e das narrativas, das mitologias. Já que o que se conta é que esses povos vieram para cá como selvagens e sem conhecimento, e eles tinham um monte de ensinamentos para dar. Comecei a ler sobre esses conhecimentos, rezas e invocações, Orikis de tradição iorubá. Fiquei encantada com as imagens que saíam dali; no momento em que eu lia, eu via cores e formas. 

Coincidentemente, foi nesse período que vi o primeiro livro sobre mitologias do Enéas Guerra, um dos editores da Solisluna. Fiquei encantada e comprei o livro. Aí nasceu o sonho: quero fazer livros assim.

Nos anos 1990, com o mestrado da Escola de Belas Artes, trabalhava na universidade, mas estava afastada da vida acadêmica. Passei em primeiro lugar na seleção. Meu tema de pesquisa foi sobre o Orixá Oxum. Aí comecei a trabalhar, pesquisar, criar instalações e mudar de técnicas, mas sempre voltada para as técnicas aquosas, numa relação com minha avó, que celebrava muito as águas. Ela influenciou minha formação como pessoa e profissional. 

DS: Pensando nessa sua trajetória, quando a ancestralidade se transformou em mote para o seu labor criativo? 

ES: Tudo começa na década de 1980, quando comecei meus estudos no mestrado na UFBA. Comecei a focar no tema, entendendo que houve um apagamento histórico, e só vim a tomar consciência disso com a pesquisa, lendo antropólogos e etnógrafos. Nesse período, estava fazendo um trabalho, criando figurinos para um grupo de dança daqui de Salvador, o Odundê. Trabalhei dez anos no grupo, criando os figurinos e, a partir disso, comecei a estudar. 

Mesmo tendo algum conhecimento, foi na convivência com minha bisavó, que me passou sabedorias ancestrais, que comecei a entender melhor essas tradições. Ela era filha de escravizado e tinha um conhecimento muito grande das tradições jeje-nagô aqui na Bahia. Minha bisavó, que viveu no século XIX, está associada à vinda dos escravizados oriundos da Nigéria, do Togo e do Daomé. 

DS: Entendendo que seus livros para as infâncias têm esse diálogo com o ensino étnico-racial, pautado nas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, como a senhora enxerga o uso dos seus livros em sala de aula?

ES: Quando eu trabalho esses livros e essas histórias, eu sempre observo os ensinamentos que estão ali, pois todas elas têm ensinamentos mostrando o quanto essa cultura é filosófica e o quanto ela influenciou a natureza e a cultura, que são nossas bases. Nós somos natureza e estamos na natureza. Essa mitologia busca a harmonização de nós, seres humanos, com o universo circundante, que possui água, ar, fogo e nós também, que possuímos esses elementos dentro da gente.

Portanto, é essencial que a criança compreenda desde cedo a importância de preservar a natureza. O primeiro livro que fiz foi sobre Oxum. A história parte de uma tradição que até hoje é celebrada em África, em uma festa relacionada à fundação de uma cidade, reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Imaterial da Humanidade. Aproveitando esse gancho de criação da cidade e a relação com Oxum, cuja narrativa surfa com o desaparecimento da filha do líder da cidade após mergulhar no rio. Ao retornar, ela está vestida como uma divindade, como Oxum, e ali há um pacto entre os humanos e o rio, dando abundância àquele povo. 

Então, trago a história e coloco a menina que desaparece no rio em contato com Oxum, e a divindade ensina tudo o que uma filha de Oxum deve saber: as ervas sagradas, a ligação do Orixá com Ossain, a importância da mesa e de agradecer o alimento, a menstruação e a fertilidade. Há um cuidado de si como ensinamento de Oxum para os leitores. Os livros que escrevo e ilustro são importantes para qualquer criança em formação, porque são ensinamentos caros para a educação e para a história do povo negro.

“A escolha do Orixá que vou desenhar não tem nenhuma lógica. Ele surge de modo natural”

DS: Os livros estavam esgotados, uma perda para a literatura baiana, e agora retornam ao mercado editorial pela Editora Solisluna, que lançou o livro mais recente e uma caixa com todos os volumes da coleção. A senhora, em algum momento, achou que os livros não voltariam para o mercado editorial? Como enxerga esse hiato entre os lançamentos e, posteriormente, as tiragens esgotadas na sua carreira como escritora? 

ES: Eu vou lhe dizer: para mim, o relançamento dos livros é uma bênção e um prêmio dos Orixás, porque, devido a essa minha ligação com essa ancestralidade desde a minha bisavó, eu acho que fiz uma caminhada. Sem me preocupar com nada, se iria vender ou não vender os livros, a coisa iria acontecendo para mim, e eu fazia tudo com o maior prazer.

Eu entendo que os Orixás me permitiram entrar nesse espaço sagrado para interpretar não só a história, mas os arquétipos deles. Então, cada livro feito e cada resposta do público e do povo de axé era uma vitória para mim, pois sabia que estava no caminho certo.

Aí foram acabando os livros e veio a falta de dinheiro, pois os livros são caros para fazer impressão. São pequenas lutas, mas eu sempre achava que estava no caminho certo e que os Orixás estavam aceitando meu trabalho e permitindo. Como Mãe Stella de Oxóssi, que sempre dizia para continuar e acreditava no meu trabalho.

Então, quando me inscreveram no edital pela Lei Aldir Blanc, eu achei que aquela seria uma oportunidade e fiquei aguardando com esperança da aprovação. Tivemos uma boa avaliação e os livros estão sendo novamente publicados.

Aí entra a Editora Solisluna, lançando a caixa com os 12 títulos. Para mim, a Solisluna é um prêmio, pois conseguiram mostrar ao público o meu trabalho como realmente ele é, com minhas aquarelas e as texturas delicadas próprias do bico de pena. Como também vejo a aprovação no edital federal como outro prêmio. 

DS: No mais recente livro, que acabou de ser lançado no dia 1 de agosto de 2026, o foco é Iansã, Orixá dos ventos – ora búfalo, ora borboleta. Como se deu o processo de produção deste livro?

ES: Assim, a escolha do Orixá que vou desenhar não tem nenhuma lógica. Ele surge de modo natural, como foi no livro sobre Oxum. Queria falar de mim e de minha avó, e também tinha muita informação interessante para as infâncias e juventudes. Depois surgiram outros e mais outros. As pessoas pedem e eu interpreto os sinais que aparecem para mim e me conduzem para a escolha do próximo Orixá, como Iansã, que já tinha aparecido no livro Ibejis, mas não tinha, até então, um livro próprio.

Mas, como fui fazendo e publicando os outros, as pessoas me pediam um livro sobre a Orixá dos ventos, que interpreto como sinal. Eu escolhi uma história que acho muito bonita, na qual a Orixá veste a pele do búfalo e desenvolve essa energia de força e poder, das tempestades. Uma figura guerreira e feminista. Li a história e achei bonita, e comecei a construir o livro, pois primeiro nasce a imagem. 

Eu sou muito da narrativa visual, por ser uma mulher da época do rádio. Como não tinha televisão, eu criava as imagens. A imagem e a imaginação são muito fortes para mim. Vou criando a partir das imagens que surgem.

A história vai para a editora e ficam os espaços nas páginas para eu criar os desenhos. Então, utilizei o arquétipo da Orixá Iansã, a que desbrava e que está guerreando. Quando ela é mulher, ela é mulher; quando ela é búfalo, é búfalo. 

Usei a transparência da aquarela para pensar a transmutação da Orixá em animal e usei as cores características de Iansã e Ogum. Também fiz uso de um Oriki que aprendi com as mais velhas: “Iansã é leopardo fêmea que come pimenta crua”. Coloquei os olhos do leopardo em Iansã para mostrar essa face guerreira.

DS: Por último, quais os planos para o futuro? Pensa em produzir mais algum livro voltado para as infâncias? 

ES: Publicar novos livros! Não posso dizer o nome do livro, mas já tem um Orixá que estou construindo e em processo de finalização. E o público já me pede outro Orixá. Existem ainda esses outros Orixás que precisam aparecer, e isso vai continuar no futuro. 

Oiá-Iansã, de Edsoleda Santos/ Editora Solisluna, 2026/ 36pp.

Coleção Histórias dos Orixás, 12 livros de Edsoleda Santos
Editora Solisluna, 2026