Entrevistas

‘Não tenho medo nem vergonha de dizer que eu escrevo sobre esperança’, diz Jaciara Maria que lança ‘Daqui até o sol’

Em ‘Daqui até o sol’, a escritora potiguar Jaciara Maria imagina um futuro de reencontro dos seres humanos com sua própria humanidade.

Fotos: Divulgação.


Num futuro relativamente próximo, o verão de altas temperaturas de 2038, e em uma paisagem bastante conhecida para o leitor brasileiro, o Rio de Janeiro, acontece essa história de alienígenas. Em “Daqui até o sol”, que sai pela Editora Mondru, Jaciara Maria desloca o gênero fantasia para as terras brasileiras e imagina um futuro em que a humanidade está ameaçada pela presença alienígena dos najooren. É nesse contexto que o professor universitário Ravi Cicco conhece e o alienígena agênero Garo Sun. A partir de então, lemos uma história de relação entre essas duas personagens, em uma odisseia na qual semelhanças e diferenças entre os humanos e os najooren são abordadas.

A premissa ousada de Jaciara é apenas um ponto de partida para o desenvolvimento de um ensaio/reflexão sobre a nossa própria humanidade, sobre os limites de nossa ética e sobre um futuro próximo em que será necessário se reconectar com nossa essência para reverter o caminho de auto-destruição que causamos. Como ela mesma me contou em depoimento, trata-se de um exercício de esperança:

Muitos pensam que a ficção científica é um gênero para prever desastres. Que a única solução a ser colocada no papel é a da aniquilação total. É por isso que o gênero, principalmente nos audiovisual, é quase por completo apocalíptico e sempre, sempre capitalista. Esperança não vende, mas desespero sim. Desespero e caos vendem rápido e vendem muito, por isso que é mais fácil escrever sobre o mundo já destruído, sobre o mundo que, no final, não tem salvação. A ficção científica precisa, novamente, abordar no campo da literatura e das artes em geral a possibilidade da vitória sobre um futuro obscuro. A ficção científica precisa ser um farol, para quando o mundo se tornar sombrio e alguém pensar em não continuar nele, desvie o olhar para a capa de um livro de ficção científica que fale de um final com esperança para a humanidade, e essa pessoa decida viver mais um dia. Um dia a mais faz toda a diferença, acredite. No mundo em que vivemos hoje a arte não é mais item de luxo, ela é essencial. E fazer arte também. O mundo precisa da minha, da sua, da nossa arte agora mais do que nunca. Não tenho medo nem vergonha de dizer que eu escrevo sobre esperança. Minha ficção científica é sobre esperança, de fato, e é também sobre questões consideradas difíceis, como ageneridade, críticas ao capitalismo e a crise climática. A verdadeira vergonha estaria em escrever sobre um mundo onde desistimos de lutar, onde nos entregamos ao medo como único modo de saber como lidar com o luto de um sistema que está em declínio. Minha opinião, então e de maneira muito clara, é que preciso escrever mais como escrevíamos quando éramos crianças e nos perguntavam na escola o que queríamos ser quando crescer. O que você quer que o mundo seja daqui a cinco anos? Responda não com a amargura de um adulto, mas com a esperança de uma criança que mal pode esperar para crescer mais uns centímetros. Nossa literatura deveria se basear nisso, nessa esperança infantil que pode parecer boba, mas que dentro de um livro vale mais do que qualquer história de final com olhar cínico e cruel sobre o mundo. É preciso nos imaginar tanto atravessando o rio quando nos banhando nele. – Jaciara Maria em depoimento à revista O Odisseu.

Entre referências diversas

Para construir uma história de ficção científica cituada no Brasil, Jaciara Maria trouxe como muitas de ruas referências autores da ficção mundial, sobretudo da especulação científica, como Ursula K. Le Guin, mas também evoca referências bem brasileiras, como é o caso de Conceição Evaristo. Perguntei a ela como se deram essas referências e ela conta que não se limita a pensar a literatura dentro das caixinhas dos gêneros.

Nunca me restringi a ler apenas um gênero literário. Acredito que qualquer coisa que nós lemos, de Jane Austen a Conceição Evaristo, nos faz acumular conhecimento que acaba por nos acompanhar na nossa escrita. A Jane Austen me toca no parâmetro do romance, mas também das personagens femininas incrivelmente bem construídas, bem delineadas em ser mais do que a sociedade da época esperava que fossem, como a Elizabeth Bennet de ‘Orgulho e Preconceito’ e Emma Woodhouse, de ‘Emma’. Suas personagens também tem uma relação intrínseca com suas famílias, o que também tento trazer para as minhas personagens, que apesar de secundárias em Daqui até o Sol, brilham à sua própria maneira, como a Raíla, irmã do protagonista Ravi que acaba por se torna uma personagem essencial para a trama. Conceição Evaristo chegou um pouco tarde em minha vida, mas ainda assim teve uma influência imensa nesse trabalho. Ela foi, provavelmente, a escritora que mais me aproximou da vivência negra na literatura e do quanto continua importante para mim, como pessoa também negra, continuar a escrever literatura que meus ancestrais possam se ver nas páginas. É basicamente o que eu faço: escrever literatura que meus ancestrais possam se ver nas páginas. A Conceição me lembra, também, que sucesso é relativo, que pode chegar em diferentes momentos da vida de uma pessoa, e que está tudo bem não se comparar com outros escritores. Estamos sempre em evolução, e minha escrita de um ano atrás, quando terminei Daqui até o Sol, não será a mesma de daqui a dez anos. Conceição Evaristo também escreve sobre pessoas que poderiam ser tão reais quanto qualquer um de nós, e apesar de eu escrever ficção científica, eu escrevo sobre histórias que poderiam acontecer com seu vizinho, com seu colega de trabalho e até mesmo com você. Quanto à Ursula K. Le Guin, ela está e sempre esteve muito presente em toda ficção científica que eu desejo criar para este mundo. Minhas histórias não são tão parecidas quanto as delas, escrevo mais sobre mundos que se convergem em uma brasilidade de esperança quase utópica, mas a Ursula K. Le Guin me fez perceber que temos pensamentos muito parecidos, principalmente sobre raças alienígenas serem âgeneros — em A Mão Esquerda da Escuridão, de Le Guin, eles não são agêneros o tempo todo como os najooren, os alienígenas de Daqui até o Sol, mas foi uma descoberta feliz que fiz ao ler enquanto trabalhava nessa história. Me fez pensar que, assim como as personagens de Jane Austen, Le Guin também era uma mulher muito a frente do seu tempo, e isso me inspira e sempre inspirou minha escrita tremendamente. No final, as três autoras são um conjunto de áreas da minha vida que se integraram para formar essa obra tão importante pra mim. 

Para mim, isso mostra o quanto a ficção brasileira constrói caminhos que são únicos. Por meio de todas essas referências, a autora conseguiu costurar uma história autêntica, tal qual a nossa literatura. Ademais, é preciso dizer o quanto a ficção científica brasileira tem demonstrado ser um espaço de criatividade que não se limita a copiar os grandes livros reconhecidos internacionalmente. Pelo contrário, autores e autoras como Jaciara Maria estão descobrindo seus próprios caminhos autorais nessa literatura. Sobre o espaço da ficção científica no Brasil, Jaciara diz:

Acredito que há muito para se escrever de ficção científica no Brasil, de autorias brasileiras incríveis como o Denys Schmitt, que li recentemente. O que é difícil de ter é espaço para esses autores publicarem algo dentro do independente ou, pior ainda, dentro das grandes editoras consolidadas do Brasil. Só recentemente a Editora Aleph irá começar a publicar autores nacionais de ficção científica, o que me deixou muito feliz. Quanto mais espaço a ficção científica ocupar, todos ganhamos. Acredito que quando se compara com o gênero da fantasia, por exemplo, que é um gênero incrivelmente consolidado no Brasil, a ficção científica fica bem atrás. Ainda estamos a passos de bebê de conseguir nosso lugar ao sol, e cada autoria que consegue ser publicada é uma vitória para o gênero. Dito isso, espero que mais autorias se arrisquem na ficção científica, pois é um gênero extremamente prazeroso de se escrever, especialmente quando se pode colocar seus personagens numa espaçonave a qualquer momento que você quiser. É um gênero de possibilidades infinitas, esperando para ser explorado. Realmente torço que mais autorias brilhem este ano e espero que os leitores deem uma chance ao meu livro também, ‘Daqui até o Sol’, que tenta trazer a ficção científica para dentro do Brasil num futuro bem próximo e é meu romance de estreia. 

O livro “Daqui até o sol” já está sendo impresso e está disponível para venda no site da editora. Clique na imagem do livro abaixo e faça o seu pedido.

Daqui até o sol, de Jaciara Maria
Editora Mondru, 2025