Entrevistas

‘Estamos interessadas em perspectivas que desestabilizam universalismos’ diz Ana Cecília Impellizieri Martins, editora da Bazar do Tempo

Bazar do Tempo completa 10 anos e reafirma compromisso com um feminismo plural, inclusivo e que tensiona o senso comum. 

Foto: Ana Alexandrino (Divulgação).


Comecei minha conversa com Ana Cecília Impellizieri Martins, editora da Bazar do Tempo, falando justamente de como o catálogo da Bazar (para os mais íntimos) está presente na vida acadêmica brasileira hoje. Digo isso especialmente enquanto um pesquisador em literatura que utiliza “Perder a mãe”, de Saidiya Hartman (tradução de José Luiz Pereira da Costa) como referência para minha pesquisa sobre migração, diáspora e transnacionalidade. Semelhantemente, estou cada vez mais próximo da teoria de Édouard Glissant, graças às novas traduções da Bazar e da coleção coordenada pela professora Ana Kiffer (PUC-Rio). 

Aqui não há espaço para dúvidas: o catálogo da Bazar do Tempo está cada vez mais presente na universidade brasileira. Nos cursos de filosofia, letras, sociologia e história já é muito difícil escapar de pelo menos uma tradução da editora, o que claramente é um sinal de que estamos diante de publicações que dizem respeito à realidade brasileira e que despertam debates incontornáveis para a apreensão dos nossos tempos. Sobre isso, Ana Cecília diz:

“A chegada dessas autoras às universidades é uma realização, a confirmação de uma aposta certa. A sensação que temos é que quando esses livros chegam, eles encontram um campo que já estava, de alguma forma, preparado para eles — ou precisando deles. E é muito significativo ver como passam a circular em cursos, pesquisas e debates, não como referências distantes, mas como instrumentos vivos de reflexão.”

A palavra “aposta” parece ser precisa nesse contexto e Ana Cecília tem cada vez mais enfatizado que o seu trabalho à frente da Bazar do Tempo é resultado de um olhar atento aos debates (dentro e fora do Brasil), criando assim uma ponte entre aquilo que está sendo produzido enquanto literatura e teoria e o grande público leitor brasileiro. Entretanto, o mérito não é exclusivo de Ana Cecília (como ela mesma enfatiza). Trata-se de uma curadoria feita de forma coletiva e que é resultado de uma equipe plural e com interesses bem diferentes. 

“A curadoria da Bazar do Tempo nasce muito de encontros — com livros, com autoras e com debates que sentimos que ainda não chegaram com a força que poderiam ao Brasil. No caso de obras como ‘Perder a mãe’, da Saidiya Hartman, ou os trabalhos da Rita Segato e da Dionne Brand, havia uma percepção muito clara de que eram pensamentos fundamentais para ler o presente brasileiro.”

O resultado é surpreendente. Me lembro, por exemplo, da posse de Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra na Academia Brasileira de Letras, em que a obra “Perder a Mãe” foi citada no discurso de recepção feito pela também imortal Lilia Schwarcz. A obra está esgotada nas grandes varejistas digitais, mas segue circulando como um instrumento para pensar a produção artística de pessoas negras na contemporaneidade. 

Por um feminismo plural

Retorno à palavra aposta que nos é bem cara para pensar a Bazar do Tempo. Digo isso porque a editora também não se esquiva de assumir riscos, tampouco de atrair críticas. Pelo contrário, fica explícito na fala de Ana Cecília que o tensionamento é visto como uma possibilidade de produzir sentidos. Mais do que nunca, isso se torna mais real agora, especialmente esta semana, quando a editora sofreu uma série de ataques de uma vertente do feminismo por conta de uma programação em comemoração aos 10 anos da editora. 

Ao anunciar uma mesa-encontro entre Rita Segato (uma das grandes pensadoras do feminismo latino-americano) e a drag queen Rita Von Hunty (persona artística do comunicador Guilherme Terreri Lima Pereira), choveram comentários que criticaram a escolha de um homem para a programação. Este é mais um episódio da retomada da vertente do feminismo radical (como é popularmente chamado) que vem se fortalecendo, sobretudo após a notícia da deputada Érika Hilton à frente da Comissão das Mulheres na Câmara dos Deputados. As críticas, entretanto, não intimidam a editora que deixa o espaço aberto para a discordância.

Neste cenário, Ana Cecília reafirma o compromisso que a Bazar tem, desde a sua fundação, com uma ideia de feminismo que rejeita um olhar único sobre a questão das mulheres na sociedade e sobre a luta contra o patriarcado. 

Ana Cecília Impellizieri Martins, editora da Bazar do Tempo. Por Ana Alexandrino (Divulgação).

“Desde o início, a Bazar do Tempo se orienta por feminismos que são, antes de tudo, plurais, críticos e situados. Ao longo desses dez anos, esse compromisso se aprofundou e se tornou mais nítido: estamos interessadas em perspectivas que desestabilizam universalismos e que colocam no centro as experiências marcadas por raça, território, classe e colonialidade. Podemos também dizer que é um feminismo de alianças, seguindo as autoras que publicamos, como Rita Segato, Heloísa Teixeira, Donna Haraway, entre outras. […] Mais do que seguir uma corrente específica, a Bazar se entende como um espaço de circulação de feminismos que se interrogam continuamente, que se deixam atravessar por outras lutas e que mantêm um compromisso radical com o desejo de transformação por meio do pensamento.”

Novidades no catálogo

Outro fator que faz total diferença quando pensamos no trabalho da Bazar do Tempo, é justamente a abertura para novas ideias e projetos. Um dos mais recentes e mais bem sucedidos é a abertura para obras de ficção de autoras brasileiras. O primeiro romance brasileiro publicado pela editora “No Muro da Nossa Casa”, da já citada Ana Kiffer, foi publicado apenas oito anos após a fundação da editora. O livro foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e entrou em diversas listas de melhores livros de 2024. Este ano, a Bazar do Tempo volta com mais uma publicação de uma autora brasileira. Clarisse Escorel, já conhecida como uma de nossas ótimas cronistas, estreia no romance com “O amor na sala escura”.

Para Ana Cecília, a entrada desta ficção brasileira foi um “desdobramento natural” do projeto da editora e do aquecimento do mercado literário brasileiro com o advento das festas e feiras literárias. Quanto à escolha das publicações e das autoras, também há uma orientação.

Tanto Ana Kiffer quanto a Clarisse Escorel trabalham com zonas de tensão entre o íntimo e o político, entre memória, corpo e linguagem, questões que dialogam diretamente com o restante do catálogo. O que podemos esperar é uma presença ainda cuidadosa e criteriosa nesse campo, incorporando, de maneira consistente, obras que estejam em sintonia com o que a Bazar do Tempo vem construindo ao longo desses anos — textos que, de diferentes maneiras, também pensam o nosso tempo.

A Bazar do Tempo segue com programação de 10 anos da editora neste finzinho do mês de março, com outro encontro de Rita Segato e Rita Von Hunty, dessa vez no Rio de Janeiro, hoje (25/03) às 19h na Estação NET Gávea e Janela Gávea. Também no Rio de Janeiro, desta vez na Livraria Travessa (às 17h), haverá o lançamento de “Crítica e rebeldia – Heloisa Buarque de Hollanda no Jornal do Brasil (1980-2005), org. André Botelho e Caroline Tresoldi”, justamente no fim de semana em que se completa 1 ano da partida de Heloísa Teixeira.