
Marcio Junqueira: “O meu lugar enquanto uma bicha preta artista, é propôr narrativas que saiam desse lugar da violência”
Em entrevista para a revista O Odisseu, Marcio Junqueira, poeta e artista visual baiano, conta sobre o seu projeto artístico “Diário de Pegação”, que imortaliza em arte momentos de afeto entre homens negros.
Foto: Divulgação.
Durante o verão de 2025 para 2026, era possível encontrar, sempre às segundas-feiras, o poeta e artista visual Marcio Junqueira colando lambe-lambes em diferentes lugares da cidade de Salvador. Trata-se, como ele mesmo me contou em entrevista, de um gesto de encerramento de um projeto artístico que o acompanhou durante mais de 10 anos. Os desenhos ilustrados nos lambe são de autoria de Marcio e retratam cenas de intimidade: homens negros em momentos sexuais. São os desenhos do “Diário de Pegação”, série que nasceu despretenciosamente e que se tornou sua pesquisa de doutorado.
Marcio me contou em entrevista que o primeiro desenho surgiu quando ele viajou para a exibição de uma vídeo-performance sua, lá em 2014, na cidade de Vitória da Conquista. Após ter dois encontros na cidade, ele pensou em imortalizar aquele momento, só que estava sem o seu diário.
“Eu escrevo diários desde os 11 anos e é um hábito que eu mantenho até hoje. Mas nessa viagem eu não levei meu diário e lá eu vivi duas histórias, tive dois envolvimentos com dois garotos e eu voltei com muita vontade de elaborar aquilo que eu vivi. Então eu peguei as passagens e fiz dois desenhos, um desenho para cada história e eu pensei que talvez pudesse ser um díptico, até que eu mostrei para uma amiga minha e ela disse ‘isso pode ser uma série’. E eu entendi que ali tinha, de fato, um procedimento, pensando a passagem enquanto um signo poético de transitoriedade e que sugere algo passageiro (literalmente) e passei alguns anos fazendo aqueles desenhos”.
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Entretanto, não foi ali que se deu de fato o projeto enquanto uma pesquisa. Marcio estava na residência artística em Sacatar, na Ilha de Itaparica, quando recebeu a visita dos amigos Alex Simões e João Manuel de Oliveira. Foi João, que se tornaria depois co-orientador de Marcio, quem percebeu o procedimento do artista e o encorajou a transformar aquilo em uma série com propósito.
“João começou a me instigar muito sobre aquilo ali, brincando que eu estava fazendo uma etnografia do Grindr e que tinha muita semelhança com o trabalho da Nam Goldin, que era um processo de autoficção e que também eu desenvolvia ali uma perspectiva de pensar a sexualidade a partir da subjetividade negra. Então, para mim, de fato, ali começaram os Diários de Pegação, porque foi ali que eu comecei a pensar enquanto pesquisa, enquanto algo sério. E então, também por insistência de João, eu inscrevo, em 2019, a pesquisa enquanto um projeto de doutorado.“

A cidade enquanto espaço musográfico
Foram 11 anos desde o primeiro desenho que deu origem ao diário de pegação até a defesa da tese de doutorado em artes visuais na Universidade Federal da Bahia. Ao terminar, Marcio sentiu que era a hora de finalizar o ciclo. A escolha dos lambe-lambes aconteceu naturalmente. Marcio já havia trabalhado com o material e pensava em ampliar os desenhos.
“O diário para mim, sempre foi pensado para a página, já que o livro é o meu suporte favorito. Mas após a exposição individual em Luanda (a convite do Instituto Guimarães Rosa) e após outras exposições — eu também fiquei em exposição no Museu de Arte da Bahia — eu fiquei muito instigado a pensar essa dimensão da parede. É um outro tipo de escrita, esse desenho ampliado, são modos distintos. Há uma escala diferente quando você sai da página para a parede. Eu acabei a série em 2024 durante a residência da FAAP, mas eu não tinha me tocado que eu tinha terminado a série. Nesse movimento meu de fechar a série e entender que eu estava fechando essa pesquisa de 11 anos, eu senti necessidade de fazer um gesto de fechamento da série. Um gesto para mim e não para outros, pensando que agora eu vou me esvaziar e pensar outras coisas. Então eu pensei em colar 7 lambes na rua, pensando 7 como um número cabalístico — 7 é o número de Exú, que abre caminhos — e imaginei 7 lugares na cidade de Salvador que tivessem associação com os desenhos e com as pessoas que aparecem nos desenhos também. Mas eu também pensei muitas outras coisas a partir desse gesto.“
Os lugares, como conta Marcio, foram escolhidos por motivações pessoais. Nos confidenciou: “Em Ondina, o desenho está no lugar em que a pessoa desenhada passa para comprar cigarros e eu queria que ele visse”, mas os demais “somente eu e algumas pessoas têm a chave de interpretação”. A ação de distribuir as artes levou o artista a novas epifanias sobre seu próprio fazer artístico e sobre a série que agora terminava.
Conversando com Tiê, ume amigue da Dança, elu me fez pensar que a exposição que eu queria tanto, quando eu voltei de Luanda e não consegui realizar no Brasil, estava sendo feita na rua e ao instalar esses trabalhos na rua, eu estava devolvendo essas histórias para a cidade — já que a maioria das histórias aconteceram em Salvador — e eu estava propondo a cidade como um espaço museográfico.”
Essa proposta do museu enquanto cidade não tirava, obviamente, o caráter efêmero de colar uma arte na rua. Marcio conta que uma das artes, a que foi colada no Rio Vermelho, não ficou nem 24h no local. No lugar, só ficou tristeza e tinta fresca. “‘Pintaram tudo de cinza’, literalmente, como na canção de Marisa Monte.“
Em outros lugares, no entanto, não houve uma simples remoção. Marcio compartilhou nas redes sociais um ataque que uma das artes sofreu. O desenho que estava na região dos Barris, em Salvador, foi vilipendiado com “requintes de crueldade”. Com objetos cortantes, arrancaram o rosto e os detalhes da arte, chegando inclusive a escavar a parede. “Foi como se a violência que não pôde ser dada diretamente aos gays fosse dada na pintura”, me contou. O artista também enfatizou como aquela violência o atingiu pessoalmente em sua subjetividade enquanto homem gay e negro.
“Eu já estava esperando que as pessoas tentassem tirar o desenho, mas ali as pessoas escavaram. Então aquele desenho, aqueles dois corpos negros masculinos naquele abraço sexual, atormentou aquelas pessoas. E por isso, para mim, aqueles ataques falam mais sobre as pessoas do que sobre mim. De todo modo, a gente se sente atacado, frágil, com esse tipo de ataque. Porque é como se a existência de uma bicha preta não pudesse ser tolerada. Eu me senti inseguro: não em relação ao meu trabalho, mas à minha existência. Se as pessoas não violentam um trabalho com aquela violência, imagina o que poderia acontecer comigo ao beijar alguém na rua.“
Apesar da violência, Marcio reafirma o seu compromisso com uma arte livre de censuras ou moralismos e diz categoricamente: não vou parar.

Esse compromisso é também parte do projeto artístico e intelectual de Marcio que apresenta ao público a possibilidade de olhar o corpo do homem negro a partir de perspectivas que escapam do paradigma colonial.
“Historicamente, esse corpo masculino negro sempre foi visto como um corpo para o trabalho, como para levar carga ou servir. E eu acho que ainda hoje ainda tem dificuldades em enxergar homens negros como pessoas que têm afetividade, subjetividade, que tem desejos e que tem fragilidades. Então para mim, enquanto homem negro, falar do meu desejo, do meu tesão, do meu sonho, é muito importante. E também é se colocar num lugar de vulnerabilidade”.
“Na minha vida, eu nunca imaginei que eu iria trabalhar com erotismo”, diz Marcio Junqueira
Quando perguntei a Marcio sobre essa nova onda de conservadorismo que tem proposto uma nova censura moral, sobretudo aos conteúdos eróticos e ao erotismo homomasculino, o artista fala que as ondas conservadoras são sazonais, uma resposta aos momentos de avanço dos direitos humanos. Também falou que nunca pensou que iria trabalhar com erotismo em sua produção artística.
” Na minha vida, eu nunca imaginei que eu iria trabalhar com erotismo. Até porque eu não me considero uma pessoa super erótica, eu sou erótico normal, como todo mundo, mas sendo mais discreto. Só que às vezes os temas se impõem também porque eles precisam ser falados para você se entender, compreender a sua subjetividade. O erotismo para mim foi assim: foi necessário que eu passasse por ali. Se a gente pensa as narrativas associadas a homens negros no cinema e na literatura, vemos que é um desastre. A minha proposta enquanto uma bicha preta artista, é propôr narrativas que saiam desse lugar da violência.”

