Crônica

Previsão do tempo

Talvez a maior crueldade seja esta ilusão de atraso. A gente olha pela janela e sempre encontra alguém que parece estar mais perto da chegada. 

Fotografia de Rinko Kawauchi, da série “Cui Cui”, 2005. (Reprodução).


Outro dia cometi um erro gravíssimo. Abri o Instagram durante o café da manhã. Eu poderia ter lido um livro. Poderia ter contemplado a minha existência na Terra. Poderia ter visto as notícias dos jornais. Poderia simplesmente ter tomado meu Activia na paz do Senhor, olhando para a parede como faziam nossos antepassados antes do Wi-Fi. Mas não. Resolvi fazer um tour guiado pela vida alheia às sete e quinze da manhã. Enfim, erros da geração.

A primeira foto era de uma amiga de vestido branco, mão esticada para a câmera, como quem exibe um troféu que ainda não sabe que um dia pode enferrujar. O anel brilhava tanto que, por um segundo, achei que um segundo Sol tinha nascido dentro do meu celular. Noivou. A foto seguinte era de um amigo em frente à Torre Eiffel, mochila nas costas, sorriso de quem está comendo um croissant bom demais pelos próximos meses. Intercâmbio. Fui para os stories, porque aparentemente gosto de sofrer em formatos variados: a foto clássica com o diploma erguido, jaleco e estetoscópio no pescoço (essa menina estava um ano abaixo do meu na escola, e já se formou em medicina). Crachá de primeiro emprego, plástico tão novo que ainda reflete o flash. Uma mesa de escritório com um post-it de boas-vindas escrito por alguém que ela ainda não conhece direito. Uma praia numa terça-feira qualquer, com aquela legenda clássica que resume uma existência inteira em três emojis.

Fechei o aplicativo. Fiquei olhando o meu leite com Nescau girar dentro do micro-ondas. É. Complicado. Quando foi que a vida virou essa bagunça, né? Estava tudo tão bem, quando foi que começou a dar errado? A vida inteira a gente faz tudo tão certinho, tão todo mundo na mesma. Quase como uma fila. Durante anos, crescemos acreditando que o tempo era coletivo. Quase todo mundo aprende a escrever junto, na mesma idade. Quase todo mundo aprende a tabuada no mesmo ano escolar. Quase todo mundo começa a colar depois de Bhaskara. Até mesmo as atividades extracurriculares, quase todo mundo faz mais ou menos a mesma coisa… Ninguém faz aulas avançadas de pintura a dedo com traços renascentistas estereotipados. Quase todo mundo fica numa mesmice igualitária para sempre. O vestibular vem ao mesmo tempo para todo mundo, o resultado do ENEM sai ao mesmo tempo para todo mundo…

“Provavelmente é assim mesmo que a maior parte da vida das pessoas acontece, sem story, sem legenda, sem ninguém do outro lado da fila para ver.” – S. Ganeff

É. Acho que é mais ou menos aí que deixa de ser igual. Quando, justamente, a gente pode deixar de ser igual a todo mundo, não é? É com a liberdade que a vida da gente sai dos trilhos. E, sem trilhos, sem um caminho predestinado, a gente é livre para ir para onde quiser, ou ficar parado. Um virou médico. Outro resolveu abrir uma empresa. Uma amiga escolhe o buffet do casamento, enquanto a outra ainda escolhe o curso da faculdade. Tem quem faça doutorado. Tem quem faça terapia. Tem quem faça malas. Tem quem desfaça. Tem quem não faça nada. Tem quem descubra o amor. Tem quem descubra que o amor acabou. Tem quem compre apartamento. Tem quem volte para o quarto de infância. Tem quem largue um emprego estável para escrever livros, numa decisão que qualquer planilha do Excel classificaria como profundamente irresponsável. E assim será pelo resto de nossas vidas.

Pelo resto de nossas vidas… loucura, não é? Pensar que só no começo vivemos igual a todo mundo, no mesmo tempo que todo mundo; depois, pela eternidade de uma vida inteira, somos livres o bastante para fazermos o que bem entendemos, vivermos no nosso próprio tempo. Só meu, só seu. De ninguém mais. Parece até errado pensar assim, não parece? Arrepia as pelugens do coração flertar com a ideia de que a vida adulta chega com tanto livre-arbítrio que a gente nunca teve infância para aprender a usar. Para aprender a ser. Não tem certo ou errado, não tem caminho, não tem nada além de nós mesmos e nossas escolhas de vida. 

Talvez a maior crueldade seja esta ilusão de atraso. A gente olha pela janela e sempre encontra alguém que parece estar mais perto da chegada. O que quase nunca enxergamos é que cada um está viajando para um destino diferente. Passei muito tempo olhando para a vida dos outros como quem assiste a uma corrida. Até perceber que ninguém estava correndo na mesma pista. Enquanto eu media quilômetros, alguém atravessava um oceano. Enquanto outro escalava uma montanha, havia quem simplesmente tentasse, naquela manhã, sair da cama. Vitórias e vitórias. Nenhuma delas cabe no mesmo pódio, e, talvez, seja exatamente por isso que nenhuma precise de aplausos alheios para valer.

Fiquei ali mais um pouco, parada na cozinha, sem vontade de fazer mais nada além do que já estava fazendo, que era o nada. O micro-ondas apitou três vezes e eu não atendi de primeira, como quando um telefone toca e a gente demora de propósito, só para sentir que ainda tem escolha sobre alguma coisa. Peguei a caneca. Estava quente demais num lado e morna no outro. O prato do micro-ondas nunca gira igual, mas era isso que eu tinha na mão naquela manhã de terça-feira, e não uma torre em Paris, nem um anel, nem um diploma. 

Muito honestamente, não sei o que a vida vai fazer de mim. Só sei que pretendo fazer o melhor dela. Não sei se vou comprar apartamento, não sei quando vou pegar o meu diploma, não sei quando vou conseguir o que eu mais quero. A única certeza mesmo é que o leite com Nescau estava bom, mesmo morno, e que ninguém tirou foto daquilo. Provavelmente é assim mesmo que a maior parte da vida das pessoas acontece, sem story, sem legenda, sem ninguém do outro lado da fila para ver. E talvez seja exatamente aí que a vida aconteça de verdade: não na fila, não na foto, mas nesse instante quieto e sem plateia em que a gente escolhe, sozinha, tomar o gole mesmo assim.