Crítica

Nos labirintos do judiciário brasileiro: Sobre ‘Cláudia Vera feliz natal’, de Mariana Salomão Carrara

Cláudia Vera Feliz Natal confirma, mais uma vez, a consistência da obra de Mariana Salomão Carrara e sua capacidade de surpreender o leitor.

Foto: Davi Boaventura para a revista O Odisseu.


I

O filósofo italiano Giorgio Agamben, num dos ensaios-fragmentos que compõem o livro Ideia de Prosa (Autêntica, 2016), dedica um de seus textos ao tema da justiça. Nele, o autor dialoga com toda uma teoria sobre a vida nua e o Homo Sacer, conceitos que não cabem aqui e para os quais não há espaço suficiente para uma explicação detalhada. Agamben chama atenção para um aspecto: o ato da linguagem faz a justiça. Ou seja, o juiz performa o seu papel em um fórum e, ao tomar sua decisão, recorre a uma linguagem que necessariamente remete a séculos de léxico jurídico.

O juiz é uma figura que ronda o imaginário coletivo, aquele em quem a justiça parece se materializar e, consequentemente, muda alguma vida após sua decisão. Portanto, como aponta o filósofo italiano, a ideia de justiça perpassa a memória e o esquecimento, num movimento em que crimes soterrados pela engrenagem burocrática retornam à memória no dia do julgamento. Ampliando a discussão, podemos pensar também no tempo extravagante do serviço judiciário ou na persistência de leis anacrônicas, nem sempre questionadas por advogados, promotores e juízes.

É justamente desse cenário, marcado pelos meandros do Direito, que parte o mais recente romance de Mariana Salomão Carrara, autora paulista vencedora de dois Prêmios São Paulo de Literatura, na categoria Romance, em 2023 e 2025, com Não fosse as sílabas do sábado (Todavia, 2022) e A árvore mais sozinha do mundo (Todavia, 2024). A autora escreveu também outros romances e livros voltados às infâncias. Cláudia Vera Feliz Natal (Todavia, 2026) gira em torno de um juiz em seus primeiros anos de serviço público, marcados por andanças nas comarcas no interior do Mato Grosso. 

A narrativa se inicia com a escrita de um relatório destinado aos seus superiores, no qual presta contas por ter excedido os prazos de um caso ocorrido na cidade de Cláudia. Para isso, o narrador-personagem faz um percurso desde o início da carreira, começando em Feliz Natal, depois sendo transferido para a comarca de Vera e, por fim, para Cláudia, onde se depara com um caso cheio de camadas que motiva toda a narrativa.

Antes de lidar com o caso central, o romance contextualiza os julgados mais importantes realizados pelo personagem, bem como sua relação com os colegas de repartição, advogados, promotores e outros servidores, denominados Dúzios e Dúzias. Ao escrever aos seus superiores, o personagem procura demonstrar que o trabalho e um julgamento justo sempre foram pauta de sua atuação profissional, embora ele mesmo se questione sobre seu lugar como juiz. Para além da descrição dessas relações, Carrara investe em uma sequência de forte caráter subjetivo. Afinal, o texto dirigido aos superiores é construído em primeira pessoa, revelando ao leitor a complexidade de uma vida marcada por mudanças constantes, pela solidão de estar distante da mãe e pelas tentativas de construir amizades e formar uma família.

A importância da linguagem em Cláudia Vera Feliz Natal

II

Agamben, ao abordar a justiça e sua relação com a linguagem, destaca que, sem ela, não existiriam o ato de julgar a lei que o embasa e o consequente veredicto. A linguagem também é importante para o romance construído por Carrara, pois seu cerne está no choque entre linguagens: a objetividade da linguagem jurídica em contraponto à subjetividade da justificativa em primeira pessoa elaborada pelo juiz. Se, num primeiro momento, isso pode ser uma dificuldade para o leitor, em virtude do peso do juridiquês, aos poucos a narrativa torna essa linguagem familiar.

Assim, vencidos esses prolegômenos, creio estar preparado para adentrar no detalhamento do caso que ensejou a presente representação, por excesso de prazo, lamentavelmente não arquivada de pronto, instado que foi este magistrado a fornecer sua defesa preliminar. Para que Vossa Excelência compreenda a complexidade da questão, passo, desde já, a resumir o processo. (p. 180)

Logo, o leitor percebe que está diante de um romance que aglutina, o tempo todo, as esferas privada e pública, instâncias que se complementam. A vivência do personagem principal afeta tanto sua vida em casa quanto suas relações com os demais servidores. São muitos os exemplos dessa relação tênue. Desde decisões que desagradam a alguns colegas – um dos muitos Dúzios e Dúzias que surgem ao longo das mudanças de comarca – até situações corriqueiras, como o fato de dormir no trabalho por não haver ar-condicionado em sua casa.

Em sua justificativa, o juiz não deixa passar despercebido o contexto em que vive. Estamos diante de um servidor público em constante deslocamento por lugares onde a assistência ao cidadão ocorre de maneira precária, cidades pequenas marcadas pela forte presença do agronegócio. Sendo assim, existe no romance um propósito de descortinar um lado menos glamouroso da vida jurídica, distanciando-se da imagem idealizada da magistratura. São muitas as sensações de calor, os questionamentos sobre suas decisões, sobre a própria profissão e o medo da morte que comparecem no cotidiano do personagem: “Eu não sabia que tipo de juiz eu era, às vezes me questionava se era mesmo juiz.” (p. 71)

Assim, Mato Grosso, com seus 142 municípios, entre os quais três são o foco da narrativa, é mapeado pelas engrenagens jurídicas que o romance aborda, deslocando o olhar para geografias outras, fora dos grandes centros urbanos. As cidades onde o juiz atua dão nome ao romance, e cada uma apresenta demandas e dinâmicas próprias. Em Feliz Natal, ele faz amizade com o Dúzio II; em Cláudia, enfrenta um conflito envolvendo a retirada da imagem de Cristo do local de trabalho. Esse percurso pelas cidades, marcado por desafios profissionais, pela distância da mãe e, posteriormente, pela tentativa de construir uma família, dialoga com os labirintos e as etapas tão demoradas e inconsistentes do serviço judiciário, em que tudo parece muito burocrático – até mesmo fazer amizades.

– Você não vai tentar voltar pra São Paulo? 
Tinha isso, prestar a prova de novo na minha terra, onde eu pertenço, mas eu pertenço? Expliquei que sou um cara calado, não tenho tantos amigos assim, se eu fosse promovido para as cidades maiores já estaria bom, estaria bom? 
– Nossas mães vão envelhecer… No mínimo tem isso, elas vão precisar de nós. (p. 47)

Desse modo, os julgamentos longos, as decisões pensadas e os dilemas éticos estão costurados à própria construção do juiz, sempre com uma confiança abalada e uma vida em que parece incapaz de decidir por si mesmo, como se o trabalho exaurisse sua capacidade de escolha na vida particular. Ao final do romance, já casado e com um filho, o personagem vê novamente sua vida espelhada no trabalho ao julgar um caso envolvendo duas amigas que disputam a guarda de uma criança concebida por inseminação caseira. Esse é justamente o caso que motiva a escrita do relatório e que só passa a ocupar o centro da narrativa nas últimas 40 páginas, surgindo relativamente tarde quando se considera o romance como um todo. Posteriormente, seu casamento chega ao fim, e ele passa a visitar o filho em outro estado, após a esposa – também juíza – mudar para Minas Gerais.

Por fim, uma característica do juiz narrador-personagem perpassa toda a narrativa: a solidão produzida pelos deslocamentos, pelas mudanças de vida e por relações frequentemente limitadas ao ambiente de trabalho na repartição pública. É um sentimento que sempre volta ao texto e que, mesmo quando não aparece de forma explícita – como no período em que está casado e tem um filho –, permanece como uma atmosfera de instabilidade, sugerindo que o futuro é incerto e que algo está sempre prestes a desmoronar, como de fato acontece. Essa experiência, comum a muitos servidores públicos que vivem longe de sua terra natal, é apresentada ao leitor de maneira muito sensível. O romance constrói, assim, um belo contraste entre uma escrita que denuncia a solidão de um personagem cercado de pessoas e um trabalho exercido em contato direto com a população.

[…] e pode ser também que eu caísse na tentação de falar sobre solidão, sobre a nossa solidão, sem saber quem seria o nós em nossa solidão, ou sabendo e escamoteando o fato de que estaria me referindo à solidão do homem das grandes capitais, mas especificamente dos juristas, dos homens servidores do alto escalão do funcionalismo público do Judiciário das comarcas de primeira entrância no interior do país e ele seguiria com léxico polêmico e pouca ou nenhuma solidão […]. (p. 33)

Aqui, uma parte do nacional se revela pelas demandas do Judiciário. A autora transforma essas demandas em matéria literária por meio de uma linguagem inventiva e pungente, construindo um juiz profundamente humano, pleno de dúvidas, deslocamentos e solidão. Cláudia Vera Feliz Natal confirma, mais uma vez, a consistência da obra de Mariana Salomão Carrara e sua capacidade de surpreender o leitor.

Cláudia Vera Feliz Natal, de Mariana Salomão Carrara/ Todavia, 2026/ 254 pp.