Crítica

Um elogio ao não-dito

Nos romances Mundos de uma noite só e Piscinas Russas, romances irmãos de Renata Belmonte, um estilo inconfundível se anuncia a partir de ambivalências.

Por Andréa Pato.

Foto: Luiza Sigulem (Reprodução).


Com Renata, aprendi que não se pode escolher ser artista. Ou se é, ou não. Assisti-la sendo invadida pela arte, atormentada pelos seus personagens, — aos quais descreve quase como espíritos que a acompanham — e padecer de uma espécie de puerpério violento após parir cada um de seus livros, tem sido para mim uma experiência das mais interessantes. Não é algo que se planeja ou se deseja. Acontece. À revelia de um pai empresário que a quer produtiva, uma mãe elegante que a quer bem-vestida e de um marido presente que a quer disponível. Mas, principalmente, à revelia de duas crianças que a querem Mãe. A escrita deixa seu corpo indisponível para tais presenças que se fazem urgentes, a culpa materna se soma aos dramas dos personagens que a acompanham e a divisão subjetiva vira uma cratera. Bonito de ver como, apesar de seus romances não serem autobiográficos, é possível reconhecer seus sentimentos tão humanos em cada um dos seus personagens. Mas não é exatamente essa a beleza da literatura? Reconhecer em personagens narrados por outro toda nossa humanidade, ambivalência, sujeira e beleza sendo desvelados e, assim, perceber que não estamos solitários nessa existência? Há algo de universal naquilo que sentimos tão intimamente. 

A Psicanálise se ocupa de colocar luz sobre essa divisão subjetiva. Sobre o fato de que o sujeito está sempre se debatendo com várias cenas dentro de si e estas costumam ser, inclusive, contraditórias umas com as outras. Toda obra de Renata é marcada por um desvelamento literário da divisão subjetiva que habita todos nós. Seus personagens são complexos e imersos em ambivalências, desejos e identificações que se opõem entre si e que, por isso, tornam-se angustiantes de serem sustentados. Cito aqui uma passagem que retrata a divisão:  

“Porque se supor uma equação estável e se aferrar a uma identidade nos impede de fabular, construir outras circunstâncias de si (…) Não, a outra mulher, a que morava dentro dela, a que escrevia, não chegou a mencionar em palavras, mas pensou que um infarto não seria mesmo uma má ideia de todo, pois uma doença física viraria protagonista da situação e a livraria por certo tempo daquela vergonha que sentia.” (pg 143, Piscinas Russas)

Mundos de uma noite só, de Renata Belmonte/ TusQuets (Republicação), 2026/ 352 pp.

“As personagens de Renata enfrentam batalhas íntimas e longas na tentativa de apaziguamento entre essas duas funções que se pretendem, ambas, absolutas.” – Andréa Pato

A vergonha à qual esta personagem se refere é a vergonha de escrever, de ser tomada intensamente por esta outra cena que lhe impede de ser uma mãe e esposa mais “adequada”. Dentre as divisões que se lê na obra, a mais evidente e central é aquela que se passa entre a Mãe e a Mulher. Equação das mais difíceis fazer habitar, no mesmo corpo, uma mãe e uma mulher. Uma que cuida e provê para o outro e a outra que tem seu próprio desejo lhe direcionando sempre para outro lugar, distante, singular. Equalizá-las implica a perda de um pedaço de uma e da outra. As personagens de Renata enfrentam batalhas íntimas e longas na tentativa de apaziguamento entre essas duas funções que se pretendem, ambas, absolutas. 

A escritora não tem disponibilidade emocional para se ocupar das demandas cotidianas das crianças. As demandas cotidianas das crianças não podem esperar o tempo de um livro sendo escrito. No meio disso, um corpo humano habitado pelas duas funções — e outras mais —, dividido, culpado, tentando apaziguar o que for possível. 

O que já se pressentia no seu primeiro romance, o Mundos de uma noite só, foi sedimentado no segundo livro, o Piscinas Russas: a consolidação de um estilo singular.

A obra da autora sempre foi marcada por traços notáveis de profundidade, uma quantidade imensa de personagens densos e ambivalentes e muitas camadas de referências, mas o que se vê neste último livro é algo raro. A impressão que se tem, ao lê-lo, é que se está diante de algo novo, a radicalização de um estilo que já se intuía nos contos e no romance anterior. Ao ler Renata Belmonte já se sabe que se está lendo Renata Belmonte. E isso é grandioso para um artista. 

Outro traço que se repete em toda a obra de Renata é o protagonismo que se dá à herança dos não-ditos. Ela traz sempre uma transmissão inconsciente de estilos, modos de adoecer, histórias e mal-estares. O que se entende disso é que tudo que existe reivindica existência. Se o fato não pode ser olhado de forma consciente, por ser demasiado traumático ou um segredo familiar, vai se repetir no sistema de forma inconsciente. Temos então personagens que não se conheceram ou souberam das tragédias dos seus antepassados, repetindo modos de sofrimento ou padecendo de incômodos sem nome, que parecem estar ligados a algo que se intui estar ali, mas que não recebeu uma nomeação que tornasse possível seu desvelamento. A angústia vem então ocupar esse vazio deixado pela falta de simbolização.

“As limitações que o patriarcado impõe sobre as mulheres aparecem de forma indissociável da construção subjetiva de cada personagem, numa dança entre a força e singularidade de cada uma e uma certa submissão aos papéis confinantes que a sociedade oferece às mulheres” – Andréa Pato

Ainda nessa direção, quero pontuar a linda construção que é feita a respeito dos pactos de lealdade, que geram culpas e penitências e todos os seus desdobramentos na vida íntima de cada personagem. A protagonista do Piscinas Russas, por exemplo, se engaja em pequenas penitências tentando expiar a culpa de não ter sido capaz de salvar a mãe da infelicidade e do suicídio, assim como Aida jura lealdade cega e eterna ao amor que ela traiu. O drama enfrentado por Tereza por não se permitir avançar na vida para além da mãe morta. Temas humanos que coexistem com tantos outros elementos, dando densidade e coerência aos personagens. 

Também interessante é o modo ao mesmo tempo central e sutil com que a autora trata a questão do feminino. As limitações que o patriarcado impõe sobre as mulheres aparecem de forma indissociável da construção subjetiva de cada personagem, numa dança entre a força e singularidade de cada uma e uma certa submissão aos papéis confinantes que a sociedade oferece às mulheres. Assim, vemos artistas arrojadas e brilhantes que morrem de medo de serem abandonadas pelo marido, mulheres altivas e inteligentes que se esforçam para disfarçar seu modo com uma suavidade “feminina” para que sua fala se torne mais palatável e mães que são ao mesmo tempo escritoras e vivem esta “outra cena” como algo imperdoável para o que se esperava de uma mulher. Sempre mulheres que, em nome de um amor, ou de se sentirem amadas, perderam as próprias medidas e renunciaram às suas individualidades. 

Por fim, falar um pouco do lugar ocupado pela Arte nestes livros que são, em si, grandes obras de arte. Em Piscinas Russas, a Arte aparece como a única saída possível para um artista e cada uma das 3 exposições de Malena são construídas como culminância de um processo emocional devastador, que pôde ser atravessado por ela. A primeira exposição, Hiraeth, elabora o luto pelo suicídio da mãe, a segunda, chamada Ravissement, expressa a superação de uma depressão pós-parto e, talvez, do seu contato com a maternidade em si. Já a exposição “Piscinas Russas”, que perpassa toda a história, amarra a descoberta do segredo da sua família. 

No Mundos de uma noite só, é a escrita que se mostra como a saída para salvar-se de adoecer, em uma vida marcada por silêncios e angústias.  Quanta beleza há em se pensar que um artista pode parecer alguém que está à deriva, vivendo em horror com sua intensidade, até que encontra um espaço de produção, cria as condições de existir enquanto artista e, então, aquilo que se assemelhava à loucura se revela ser o que realmente era: a matéria prima para o seu trabalho.

Piscinas Russas, de Renata Belmonte/ Editora Tusquets, 2025/ 352 pp.

Andréa Pato é psicanalista, especialista em Teoria da Clínica Psicanalítica pela UFBA e em Transtornos Alimentares e Obesidade pela USP. Atende em consultório particular na cidade de Salvador. Andréa é também cunhada de Renata Belmonte.