
Entre brisas e ventanias na literatura de corpo presente de Luciany Aparecida: “Não tenho melindre nenhum em escrever com o mistério”
No quarto dia do Melanina Acentuada – ano VIII, a programação da tarde foi dedicada à escrita do texto dramático da escritora baiana Luciany Aparecida e ao seu projeto estético, marcado pela relação entre Literatura e História, documento e arquivo, além dos múltiplos gêneros literários.
Fotos: Laboratório Z.
Um dos principais nomes da literatura negro-brasileira contemporânea, a escritora, natural do Vale do Jequiriçá, transita entre múltiplos gêneros: romance, conto, poesia e dramaturgia. Vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura com Mata Doce e finalista do Prêmio Jabuti na categoria Romance pela mesma obra, Luciany Aparecida foi destaque da programação da tarde do quarto dia (31/08) do Melanina Acentuada – Ano VIII.
Conhecida por criar e escrever sob diferentes assinaturas estéticas, a escritora já publicou textos sob nomes como Ruth Ducaso, Margô Paraíso e Antônio Peixoto, além de assinar com o próprio nome. Numa entrevista concedida à escritora Nathallia Protazio, em 2021, comentou: “[…] realizo, com as assinaturas, uma criação teatral contracolonial. E não um heterônimo marcador da tradição pessoana”. Segundo ela, há uma relação das assinaturas com a teatralidade, uma “performance de linguagem”. Contudo, nos últimos anos, passou a publicar como Luciany Aparecida, movimento iniciado durante a pandemia, quando foi uma das selecionadas na primeira edição do programa Dramaturgias em Processo, do Teatro da Universidade de São Paulo, em 2021. Dessa experiência surgiu a publicação do texto teatral Joanna Mina, que aglutina com o projeto estético da autora, principalmente essa relação literatura e experimentação da linguagem.
O texto dramático gira em torno de uma das facetas mais marcantes de seu projeto literário: fabular criticamente, em diálogo com Saidiya Hartman, arquivos de mulheres negras e LGBT+, que têm seu passado reescrito, fabulado e retirado dos escombros da historiografia brasileira, responsável por silenciá-las e matá-las de forma física e simbólica. A protagonista é construída a partir de um mosaico de mulheres do Brasil Colônia, cujas trajetórias chegaram à autora por meio de suas inúmeras pesquisas em arquivos. Ao comentar esse processo, Luciany Aparecida afirmou que escreve com “o desejo de que a história oficial desse conta dessas histórias”, relegadas ao silenciamento e apagamento.
A programação teve início às 15hs, com a leitura dos dois primeiros atos da peça, realizada por estudantes da Escola de Teatro da UFBA. Em seguida, às 16hs, a autora participou de uma Entrevista Pública ao lado de Tom Borges, na qual abordou aspectos do processo de criação da obra e sobre as relações entre literatura e história.
Ao ser questionada sobre a escrita do texto dramático, Luciany Aparecida destacou que, mesmo utilizando personagens históricos, “o agora é agora, a dramaturgia está no absoluto agora”. Para ela, não há diluição entre o estético e o político. Mesmo recebendo críticas por abordar questões raciais e LGBT+ em narrativas ambientadas no Brasil colonial, rebateu: “Não é contemporâneo nossos corpos buscarem liberdade”. Para a escritora, é possível fazer esse diálogo sem cair no anacronismo.
Ao utilizar documentos esquecidos pela historiografia, Luciany Aparecida afirmou tentar reverter esse apagamento e concluiu de forma enfática: “Não é porque a gente não leu que não existiu!”

Em outro momento da conversa, a escritora também falou sobre o viés do mistério em sua obra, de como se deixa afetar e traçar novos caminhos a partir dos sonhos e de como seu corpo, enquanto autora, está em comunhão com o mundo. Como pontuou: “Toda arte é isso, tem que se dispor a estar no mundo.” Isso não deixa de lado o que há de sobrenatural e ancestral, como sintetiza na frase: “Não tenho melindre nenhum em escrever com o mistério”. A escritora ainda comentou sobre seu processo criativo e a relação com o próprio desejo de criação: “Quando o corpo pede pulsão de vida, nunca digo não para arte”.
Na parte final do encontro, Luciany Aparecida respondeu a perguntas sobre a literatura contemporânea, sua relação com esse cenário e com a historiografia da teoria dramática nos dias atuais, sem deixar de lado o retorno à sua terra e às histórias de seus familiares, que corroboram seu vínculo ancestral com o interior da Bahia e com os mais velhos.
O festival, que segue até o dia 3 de agosto, em Salvador, reafirma seu papel como espaço de encontro, circulação artística e valorização de diferentes vozes.
Para mais informações e acesso ao cronograma completo, com locais e horários das atividades, consulte o Instagram do evento @melaninaacentuada.

