Poesia

O Fim da Conversa: 3 poemas de Matheus Peleteiro

Leia com exclusividade na revista O Odisseu, 3 poemas do novo livro de Matheus Peleteiro, “O fim da conversa”, que sai pela editora P55.

Foto: Divulgação.


O FIM

Nasce-se da palavra,
do primeiro choro,
do primeiro chamado,
do primeiro grito.
O mundo só começa
quando alguém responde.

Cresce-se a partir do contato,
da voz que encontra outra voz,
da fala que chama outra fala,
do sopro que prolonga outro sopro.

O fim vem da mesma maneira,
quando se rompe o diálogo,
quando se retrai a atenção,
quando a palavra se perde
sem ouvido que a acolha.

Assim é a morte:
um corpo imerso em silêncios,
uma sílaba desfeita no ar.
Um rosto que já não fala
porque ninguém o escuta.

E assim se morre:
não no cansaço da carne,
mas no exílio da fala.
No sepulcro da conversa.

DÁDIVA

Uma jaqueta de algodão
pode existir por mais de um século,
mesmo podendo ser destruída
por simples movimentos
praticados com uma tesoura.

Fotografias e cédulas podem durar anos, 
ainda que possam ser rasgadas em atos de fúria 
ou desfeitas por um derramamento de água.

Pessoas são capazes de viver por décadas,
embora um mero esbarrão
quando duas ou mais delas se
encontram no alto, possa dar fim 
a uma vida inteira em segundos.

Não é fascinante a 
capacidade humana
de não destruir?

CONTRAFLUXO

Acompanhar a rigidez dos seus atributos 
cedendo ao peso, seus dentes amarelando
feito paredes encardidas, rugas aparecendo 
em suas mãos, em seus dedos, em sua testa,
as olheiras de seus olhos originando o charme 
que muitos abdicam com toxinas botulínicas,
o grisalho dos seus cabelos te dando o ar de
intelectual que sempre desejou. Saber que 
o amor permaneceu fazendo um percurso 
contrário ao que o tempo faz à carne:
mantendo-nos firmes como edifícios.


O fim da conversa é dividido em cinco partes: “Meu irrisório revide”, “Pintando a minha aldeia”, “Palavras em minha boca”, “Timeline” e “O fim da conversa”. De um lado, os poemas esmiúçam o egoísmo impulsionado pelas redes sociais e o esvaziamento das relações; do outro, resgatam a teimosia em manter o otimismo como ferramenta essencial para o sustento da vida.

Entre os questionamentos sobre o ofício e a própria razão de existir da poesia, Peleteiro compartilha os bastidores da criação e os reflexos de sua trajetória como tradutor e organizador.  Ele aponta para o papel essencial do gênero:

“Por que escrever poesia? Por que traduzir poesia? Por que publicar poesia? Nos últimos anos, me refiz essas perguntas algumas vezes, enquanto organizava, traduzia e publicava a poesia de poetas que admiro e valorizo. As respostas quase sempre chegaram num lugar próximo ao debate sobre a utilidade da poesia. E à ideia de que a poesia é a valorização do inútil, mas do inútil imprescindível, mais ou menos como diz Manoel de Barros”.


Escritor, editor, advogado e tradutor, Matheus Peleteiro atua de forma expressiva nos bastidores da literatura: é curador da coleção Poesia55 (dedicada a poetas estrangeiros inéditos no Brasil), editor do selo Pepita, da Editora ÊCOA, e criador do 1Lero Podcast, voltado para entrevistas com expoentes da literatura atual.