Poesia

Praia Esgarçada Alegria: 3 poemas de André Santa Rosa

Leia com exclusividade na O Odisseu 3 poemas do poeta alagoano André Santa Rosa presentes na plaquete Praia Esgarçada Alegria (Círculo de Poemas, 2026). Plaquete será lançada nesta quarta-feira (26/8) na Livraria Ponta de Lança em São Paulo.

Foto: Divulgação.


1. (fragmento um)

O artista moderno Mário de Andrade quando esteve em Maceió, em 1928, 
reconheceu a cidade como uma pequena garça 
que repousa na praia prestes 
a fazer o seu primeiro voo

Foi ao comércio: pouco movimento, 
cidade pequena

Cabe em minhas mãos, 
agora, uma fotografia

Posso ver a praia da Avenida da Paz do tempo de Mário,
onde qualquer deslocamento se desmancha no ar
e o horizonte manso precede 
o bater de asas

É quase possível sentir 
a felicidade desalinhada que 
descansa na imagem

Hoje, corre um arroio nesta praia 
conhecido como Riacho Salgadinho
outro ponto de partida da nossa modernidade
que vai arrastando em si o curso do tempo

Quando criança voltando pra casa
seu cheiro me deixava enjoado no banco de trás do carro

Nesta fotografia 
vejo um canto
que já não existe mais
Por onde Mário observou 
espantado em esplendor
onde minha mãe dera os seus primeiros passos

Esta praia, segundo ele,
tinha um verde de envergonhar os pintores: 
um verde que pintura alguma jamais terá

Não parece natural
essa esgarçada alegria


7. 
o começo em nova tentativa: 

Emily Dickinson veio ao Brasil
deixou a maré molhar seus sapatos
Escreveu alguns versos sobre isso 
e distraída pensou na imortalidade

Antes disso, 
alguém pisou 
neste pedaço de terra
e o invocou alagadiço 
embora pudesse nomeá-lo 
da forma como quisesse 

Um dia qualquer 
enterrei meus pés na maré
em verdade não se os tirei
Nunca cometi este engano
de usar sapatos na praia,
mas já olhei o mar e pensei 
sempre sempre sempre


5. 
Seu rosto é 
a minha igrejinha

quando te estendo a mão 
para o sol suplantar

Leio nas ranhuras da tez,
traço explícito das rochas em sínteses,

a cor do cobre e de seu manto 
para nos secar 


André Santa Rosa nasceu em 1999, em Maceió. É autor do livro retratos de ruínas & outros fantasmas comuns (Urutau, 2022), além de ter poemas publicados em diversas revistas literárias, como a Cult. Atuou como crítico no jornal literário Suplemento Pernambuco e, atualmente, trabalha no Theatro Municipal de São Paulo.


Praia esgarçada alegria, do jovem poeta alagoano André Santa Rosa, é um longo poema sobre pessoas desaparecidas e lugares que não existem mais. Ou talvez seja melhor dizer: sobre a memória que não se completa, como o voo de uma praia que tem forma de garça ou a história de corpos lançados de aviões no meio do mar. Nessa atmosfera, os fantasmas vagam: Mário de Andrade numa praia em Maceió, uma vítima da ditadura militar no prédio do antigo DOI-Codi, a estátua de Graciliano Ramos entre turistas, “os primeiros Caetés/ […] espalhados entre/ a ilha de Itamaracá/ e o rio São Francisco”. – Fósforo/Círculo de Poemas, 2026, 65pp.


Lançamento de Praia Esgarçada Alegria, de André Santa Rosa, em São Paulo-SP

Nesta quarta-feira, 26/8, André Santa Rosa lança a plaquete Praia Esgarçada Alegria na Livraria Ponta de Lança (Rua Aureliano Coutinho, 26/ Vila Buarque, São Paulo). Além da sessão de autógrafos, o lançamento também terá um bate-papo entre Santa Rosa e Schneider Carpeggiani.