Entrevistas

Amélia Greier: “Quis transformar o apagamento em matéria literária”

Em entrevista para a revista O Odisseu, Amélia Greier, autora do romance “O peso da inexistência”, fala como transformou os tensionamentos advindos no neoliberalismo em literatura. 

Foto: Divulgação.


O que você responde quando te perguntam “Quem é você?”. Algo que me chama atenção há um tempo é que geralmente respondemos a essa pergunta com as nossas profissões: eu sou jornalista, ou escritor ou estudante. É como se a nossa vida se limitasse ao modo como servimos ao capitalismo, sem qualquer subjetividade. Essa ausência de pessoalidade característica deste momento em que vivemos se transformou em matéria literária nas mãos da escritora Amélia Greier. No romance “O peso da inexistência”, uma mulher dona de casa se percebe assombrada com a necessidade de preencher um formulário no qual nenhuma das categorias realmente a contemplavam. 

Em um estilo clariceano, Greier utiliza esse trivial para despertar uma epifania, um rompimento com a realidade a partir desse hábito tão trivial que é preencher um formulário. O livro então parte para uma complexa crítica para o neoliberalismo e as noções de utilidade que a nossa geração utiliza. Tudo isso sem abrir mão de trabalhar aspectos estéticos e literários que fizeram a autora vencer o Segundo Concurso Podletras. Na entrevista, Amélia fala de como foi trabalhar linguagem e crítica na construção do romance.

A escritora Amélia Greier, autora de “O Peso da Inexistência” (Divulgação).

“Quando estruturei a história, percebi que a linguagem precisava ser simples para que o livro fosse acessível às mulheres que vivem ou reconhecem essa realidade.”, diz Amélia Greier

Seu livro me tocou profundamente e me levou a pensar sobre como, atualmente, a vida de todos nós está resumida aos dados que precisamos preencher, o que fica ainda mais explícito na vivência de uma mulher. Mas fiquei curioso para saber como essa história se apresentou para você. Pode nos contar um pouco?

Essa história nasceu da observação do cotidiano de mulheres próximas e das inquietações pessoais que surgiram quando eu me casei e me tornei mãe. Percebi que existe uma cultura de não considerar o trabalho doméstico como um trabalho: era comum ouvir que determinada mulher “não trabalhava”, embora ela passasse os dias cuidando da casa e da família. E as próprias mulheres (eu, inclusive) reproduziam essas falas, motivadas por um sentimento de insuficiência, de inexistir em sua própria vida, justamente por dedicar seus dias à existência da família. Daí surgiu a vontade de transformar essa experiência de apagamento em matéria literária.

Outra grande inspiração foi a percepção incômoda de que, atualmente, para existir, é preciso caber em títulos sociais, rankings e categorias de todos os tipos, que pouco dão conta da complexidade humana. É como se o “viver moderno” fosse, necessariamente, um simples ato de cumprir expectativas, demandas financeiras, tarefas e objetivos; como se nossas vidas fossem um produto e nós, como empresários, tivéssemos a árdua tarefa de fazê-la “dar certo” de acordo com os indicadores econômicos vigentes.

Paradoxalmente, enfrentamos mudanças econômicas que  liquidam gradativamente o mundo tal qual conhecíamos: os empregos não têm mais estabilidade, logo, perderam a capacidade de gerar identidade e pertencimento; a financeirização reduz o valor do trabalho e os monopólios eliminam as possibilidades meritocráticas. Nesse contexto, surge a sensação de fracasso e de “inexistência”: a percepção de que essa existência puramente material já não faz mais sentido, portanto, precisamos ser mais do que metas alcançadas. 

Ao levantar esse tema, você dialoga muito com muitos debates filosóficos, mas também políticos, bem contemporâneos. Um deles é a invisibilidade do trabalho doméstico que impede que mulheres trabalhem, algo que a literatura já abordou algumas vezes. Pensando no célebre livro “Um teto todo seu”, de Virginia Woolf, em que ela afirma que as mulheres precisam de ter um teto próprio e algum dinheiro para conseguir escrever. O ensaio foi escrito há mais de 100 anos, mas será que hoje as mulheres já têm essa liberdade para escrever diante dos desafios? A partir da sua própria experiência, o que você pode dizer?

Sem dúvida, nesses 100 anos, houve muitos avanços: mulheres conquistaram direito ao voto na maioria dos países, ocuparam espaços na política, na ciência e na arte, e alcançaram uma autonomia que, para muitas mulheres do início do século XX, era praticamente impensável. Entretanto, ainda acho que Um Teto Todo Seu continua profundamente atual.

Primeiramente, devido ao recorte de classe. É sempre importante lembrar que essas conquistas se concentram em mulheres da elite e da classe média, a realidade das mulheres das classes mais baixas ainda é o trabalho doméstico, os trabalhos de cuidado com a família e a informalidade. Elas ainda carecem, portanto, das condições materiais para desenvolver talentos e existir como sujeito de suas vidas. 

Além disso, mesmo após um século, ainda se espera que mulheres cumpram os mesmos papéis sociais do passado (cuidar dos filhos, organizar a rotina da família, entre outros). Então, aquelas que conquistaram independência financeira desempenham uma dupla (ou até mesmo tripla) jornada; enfrentam a contradição de ter “um teto todo seu”, mas sequer ter tempo para desfrutá-lo ou usá-lo em benefício próprio. Para piorar, o avanço do neoliberalismo nos últimos anos trouxe insegurança econômica, perda de direitos básicos e precarização do trabalho, uma tríade perversa que impede que as mulheres mais pobres ascendam, empobrece as mulheres que já se estabeleceram financeiramente e tira de ambas qualquer possibilidade de ter um tempo livre. Por isso, acredito que as barreiras apontadas por Virginia mudaram de forma, mas ainda estão aí.

Na minha própria experiência, escrever sempre significou disputar tempo com as inúmeras demandas cotidianas de uma jornada dupla. Então, além das condições básicas citadas no ensaio, creio que na modernidade também precisamos de algum tempo livre.

Algo que eu gostei muito foi da forma simples como você escreve o texto, algo que reflete a própria personagem. Como foi para você encontrar a linguagem adequada para tratar deste tema?

Quando estruturei a história, percebi que a linguagem precisava ser simples para que o livro fosse acessível às mulheres que vivem ou reconhecem essa realidade. Além disso, a linguagem precisava ser coerente com a própria protagonista, que não tem tempo para abstrações e enxerga o mundo a partir da concretude de suas tarefas domésticas. 

Também quis construir uma estética que transmitisse a experiência do cansaço e da sobrecarga: repetições, descrições, listas intermináveis de afazeres, uma narrativa que acumula palavras, mas não sai do lugar. Além disso, a narradora é nomeada apenas por locuções adjetivas e complementos nominais, que evidenciam sua existência apenas como utilidade e função. Queria que o leitor experimentasse, pela forma do texto, o incômodo do apagamento.

O modo como essa personagem descobre um enorme “problema” a partir de um evento “simples” do cotidiano, me lembrou muito a literatura de Clarice Lispector, como no conto “Amor” e no romance “A Paixão Segundo G.H”. Clarice é uma inspiração para você?

Sem dúvida! Para mim, Clarice é uma influência incontornável na linguagem, no estilo e  nos temas. Para esse livro, confesso que me inspirei mais na precariedade emocional e material presente em “A Hora da Estrela” do que nas obras mencionadas. Porém, reconheço que há referências (mesmo que não intencionais): como feito por Clarice em Amor, eu uso o trivial como gatilho de uma crise existencial; e como em A Paixão Segundo G.H, minha protagonista enfrenta a busca pela subjetividade, o dilema de ser um eco dos códigos sociais e o choque que ocorre quando a engrenagem social deixa de funcionar.

Amélia Greier: Eu não chamaria o livro de uma “obra feminista clássica”

A propósito, você poderia falar um pouco das suas inspirações literárias?

Minha grande inspiração literária é a Lygia Fagundes Telles; as obras dela estruturaram o meu gosto literário e, de certa forma, ensinaram-me a escrever. Sempre me encantei com o talento da Lygia de transformar o ínfimo em matéria para narrativas, e a partir disso  construir todo um universo emocional. Essa atenção ao detalhe mudou totalmente a minha forma de olhar para o cotidiano.

Como já mencionei, também me inspiro em Clarice Lispector e Virginia Woolf. Acho admirável a maneira como ambas exploram o fluxo de consciência em suas obras. Inclusive, considero Sra. Dalloway o meu livro favorito, justamente por trazer esse enlace lindíssimo entre o íntimo e o social. 

Você recebeu uma medalha de uma academia feminina de letras, a Academia Mineira Feminina de Letras, além de participar do movimento Mulherio das Letras. Acho incrível essa movimentação no entorno da publicação de mulheres no Brasil. Por outro lado, existe uma grande discussão em torno do termo “literatura feminina”, com muitas autoras defendendo que não existe um modo de escrever próprio de uma mulher. Sendo uma escritora que escreve também sobre temas relacionados às mulheres, você acredita em “literatura feminina”?

Eu concordo. Como a linguagem e a criatividade não têm gênero, eu não acredito em “literatura feminina” como uma classificação estética. Penso que não existe um modo de escrever característico de uma mulher, visto que existem autoras que escrevem sobre os mesmos temas (e usando os mesmos estilos) que os homens. 

O que existe, sim, é o contexto social em que o gênero condiciona papéis sociais (administrar o lar, a família e a vida dos filhos, por exemplo) e eles moldam a trajetória profissional e a subjetividade da mulher. A partir dessas vivências, o olhar sobre determinados temas se torna diferente, e é natural que isso apareça no trabalho com a linguagem. Portanto, trata-se de uma perspectiva que aparece na obra de algumas autoras, não uma “essência feminina” na forma de escrever.

Sobre os movimentos femininos citados, eles não definem um fazer literário típico das mulheres, apenas viabilizam e ampliam espaço, circulação e reconhecimento para autoras que tiveram sua produção invisibilizada por muito tempo. 

A capa traz uma pintura que ilustra esse “peso” também citado no livro. É muito comum que a gente acredite que as conquistas do feminismo trouxeram mais “leveza” para as mulheres, mas ainda há muito peso. O que você pensa sobre isso?

Eu penso que o feminismo abriu muitas portas, mas não retirou totalmente o peso estrutural que recai sobre as mulheres. É fato que hoje temos mais autonomia, direitos e possibilidades do que há décadas, mas não houve alterações nos papéis e expectativas sociais. Então, existe simultaneamente a liberdade (para estudar, trabalhar e ocupar espaços) e a responsabilidade total pela organização da vida doméstica. É como se a autonomia tivesse ampliado o nosso campo de ação sem redistribuir o peso. 

A propósito, você chamaria o seu livro de uma obra “feminista”?

Eu não chamaria o livro de uma “obra feminista clássica”, aquela que defende uma tese ou ilustra conceitos de maneira panfletária. Também penso que ele não tem elementos suficientes para ser classificado como obra política e militante. Porém, ele aborda temas que o feminismo historicamente problematiza e oferece uma narrativa que leva o leitor a vivenciar, por meio da linguagem, a sobrecarga materna e o apagamento feminino. Então, eu diria que o feminismo presente nele é mais por consequência do que por intenção. 

Com “O peso da inexistência”, você estreia no romance, mas você também tem uma obra infanto-juvenil. Quais os principais desafios referentes ao romance que você consegue enxergar?

Eu diria que, no romance, a construção dos personagens, da narrativa e da  linguagem é muito mais ampla. Diferente da escrita descritiva, direta e imagética, típica das obras infantis, o romance pede uma linguagem mais elaborada e  sugestiva. Então, um dos desafios que encontrei foi a mudança do padrão narrativo.

Outro grande desafio foi encontrar a linguagem adequada para construir a experiência da sobrecarga. Precisava demonstrar a densidade do tema sem comprometer a fluidez da leitura; precisava ser sensível, sem cair no melodrama. Produzir esse equilíbrio foi muito desafiador. 

O que os seus leitores podem esperar em relação a um novo projeto literário?

Os leitores podem esperar romances psicológicos, com temas existenciais e questões contemporâneas, sempre com linguagem trabalhada de acordo com o tema. No momento, estou trabalhando em dois projetos: uma história que explora a forma como a expectativa do fim transforma nossa maneira de viver e outra sobre reificação — a redução da complexidade humana a papéis, utilidades e expectativas sociais. Ambos ainda estão no início, mas creio que finalizarei até o fim do ano que vem.

O peso da inexistência, de Amélia Greier/ Selo PodLetras, 2025/ 146 pp.