Entrevistas

“As mulheres da minha nação também são a minha família”, diz Egana Djabbárova, poeta russa de origem azerbaijana que deixou a Rússia após ameaças

Em entrevista à revista O Odisseu, Egana Djabbárova fala sobre as suas impressões sobre a cena literária brasileira, sobre a sua escrita e sobre o seu exílio. 

Foto: Divulgação.


Esteve em turnê pelo Brasil a poeta e romancista russa de origem azerbaijana Egana Djabbárova. Durante o mês de maio, ela circulou entre lançamentos, eventos literários e universidades, como o festival “Poesia no centro”, em São Paulo, e depois pelo Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Ouro Preto, Campinas. Finalmente, retornou a São Paulo para a Feira do Livro, da revista Quatro Cinco Um. Por onde passou, Djabbárova impressionou o público com sua fala tão afiada quanto sua escrita. 

A autora é uma das mais interessantes e premiadas vozes literárias do leste europeu contemporâneo. Sua escrita reflete os desencontros que ela mesma experienciou, desde sua origem, até a vida na Rússia, o comprometimento com a luta contra-colonial, o feminismo e a questão queer. Tudo isso em um texto marcado por uma dicção muito própria, forjada na afirmação da luta e do direito à vida. 

Essas características também são encontradas na própria fala de Djabbárova. Como você poderá ver na entrevista a seguir, a autora não faz rodeios e prefere evitar equívocos. Ao falar sobre a situação na Rússia, não busca meios-termos, apresenta-se incondicionalmente oposta à guerra e à violência e, inclusive, me confronta quando eu pergunto sobre a relação dela com o país: “Você se refere ao meu passaporte, certo?”, pergunta, refletindo sobre o que a sua raiz étnica significa. 

Aqui no Brasil, temos duas traduções da autora. Em Rus Bala (Ars et Vita, 2024, tradução de Maria Vragova e Prisca Agustoni), lemos seus poemas, nos quais versa sobre a tensão que é viver uma sexualidade dissidente em um  contexto conservador e opressor. Já em As mãos das mulheres da minha família não eram destinadas à escrita (Ars et Vita, 2026, tradução de Maria Vragova, vencedor do Hamburger Literaturpreise 2025, categoria “Livro do Ano”), lemos um romance em que a presença feminina não é apenas assunto, mas a própria força que conduz a história. Destaque para a excelente Ars et Vita, um respiro editorial de curadoria impecável. Encontrei a autora para um café na Livraria da Travessa, em Botafogo, no Rio de Janeiro, pouco antes do lançamento de Ricardo Domeneck, autor citado algumas vezes na entrevista. Djabbárova também aproveita para elogiar o modo como o Brasil “respeita os seus poetas” e comenta como foi a experiência de participar do Festival Poesia no Centro, da livraria Megafauna.

Confira como foi nossa conversa!

Egana Djabbárova, poeta e romancista russa-azerbaijana (Divulgação).

“Em relação à Rússia, o Brasil respeita mais os seus poetas contemporâneos”, diz Egana Djabbárova

Ewerton: Você acabou de chegar de São Paulo, onde participou do festival Poesia no Centro. Como foi? E como você se sentiu em relação à poesia brasileira contemporânea?

Egana: Em primeiro lugar, eu fiquei realmente impressionada com o festival, pelo nível da organização e porque muitas pessoas foram para um evento de poesia. Eu nunca vi, em toda a minha vida, tantas pessoas se reunindo para ouvir poesia e fiquei encantada com isso. E, é claro, foi muito interessante e tocante ouvir os outros poetas. Infelizmente, eu cheguei um pouco tarde, por isso ouvi apenas uma pequena parte do festival. Mas foi muito legal e intrigante. Eu consegui ver como a poesia é levada a sério aqui. Em comparação com a Rússia, por exemplo, o Brasil respeita mais os seus poetas contemporâneos. 

Ewerton: E enquanto você crescia, na Rússia, por exemplo, você ouviu falar de algum poeta brasileiro?

Egana: Para ser sincera,não ouvi o nome de muitos brasileiros enquanto eu crescia. Talvez Clarice Lispector, mas, para além disso, acho que não. No geral, nosso conhecimento foi realmente colonizado. Então, nós não sabemos muito sobre os outros países que não os europeus, os Estados Unidos e antigos impérios. Tudo o que nós sabemos sobre literatura é principalmente a tradição europeia. Se por um lado, existe uma responsabilidade pessoal por eu não saber o suficiente, por outro lado, isso também é o resultado do colonialismo em geral.

E é por isso que eu acredito que nós devemos reconsiderar e talvez reconstruir o nosso sistema de conhecimento. De todo modo, eu me sinto muito alegre e muito privilegiada por ter essa oportunidade de poder não apenas ler os poetas brasileiros, mas de conhecer os poetas em si, como tem acontecido pelo contato com Ricardo Domeneck. Eu quero estudar e ir mais fundo. Inclusive, sobre a poesia brasileira, posso dizer que Ricardo Domeneck é incrível. Por causa dele e de sua página [o perfil da revista Peixe-boi], estou conhecendo alguns nomes. 

Ewerton: Conversei com alguns amigos meus que leram antes de mim o seu livro e descobri que muitas pessoas estão te lendo no Brasil, inclusive em clubes de leitura. O que você tem escutado dos seus leitores brasileiros? 

Egana: Eu não posso acreditar! É um grande privilégio ser lida por essas pessoas incríveis. Inclusive, saber que o meu verso está sendo lido em português é realmente insano. Saber também que essas pessoas não apenas leram, mas gostaram dos meus versos é muito tocante. E é por isso que eu amo tanto a literatura, porque algumas coisas apenas as palavras conseguem fazer, como construir essas pontes. Pontes entre pessoas e também pontes entre experiências. 

Ewerton: Sobre o seu novo livro traduzido aqui: Primeiro de tudo, eu adoro o título As mãos das mulheres da minha família não eram destinadas à escrita. É um trecho do livro, correto?

Egana: Sim, é um trecho. 

Ewerton: Esse trecho me tocou especialmente porque cresci em uma família de muitas mulheres. Aqui no Brasil, é muito comum que existam famílias apenas formada por mulheres solteiras. Sem avôs, tios, apenas mulheres e seus filhos. Você poderia falar um pouco desse título?

Egana: Talvez seja decepcionante eu dizer isso, mas este não era o meu título original. Na verdade, é bem diferente do meu título original. Seria uma palavra, a palavra em azeirbajano para a mulher que está prestes a casar. Mas houve uma discussão com o editor russo que me disse “ninguém vai entender porque está em azeirbajano, talvez nós devêssemos escolher alguma coisa russa”. Meu editor lutou para que eu escolhesse uma frase no romance. Então eles escolheram e foi assim que o título nasceu. No começo, realmente me incomodou. Eu não gostava porque achava longo demais e pensava que ninguém iria lembrar dele. E, de fato, as pessoas não lembram dele por completo. Todos dizem apenas “As mãos”. Então, em alguma medida, eu estava certa. Mas, misteriosamente e misticamente, as pessoas começaram a reagir bem a esse título. E há muitas pessoas que amam muito esse título. E esse foi o momento em que eu percebi que, às vezes, você precisa confiar no seu editor. 

Ewerton: Mas quem são essas mulheres?

Egana: Em primeiro lugar, são as mulheres de dentro do meu círculo familiar, minha mãe, a minha avó materna e paterna. Além das minhas irmãs, primas, tias, todas elas. Mas eu também queria falar das mulheres da minha cultura e das mulheres da minha nação, as mulheres do Azerbaijão, pois elas são, em geral, também a minha família. Se você considera a cultura como família, ou a etnia como família, então todas as mulheres azerbaijanas são da minha família. Enquanto eu digo que as mãos das mulheres da minha família não escrevem, não me refiro unicamente às mãos da minha mãe ou da minha avó: são as mãos das mulheres no Azerbaijão.  

“Deixei o meu país no meio da noite do dia 16 de janeiro, com uma bolsa com pertences, e nunca retornei”

Ewerton: Egana, agora você não está mais na Rússia, certo? Está na Alemanha. Como você está se sentindo neste momento sobre as questões políticas na Rússia depois de um tempo fora?

Egana: Você se refere ao meu passaporte, certo? Entende como isso é complicado? Porque quando você não é russa, etnicamente, mas ainda assim a Rússia está em seu passaporte, você ainda tem um estigma. Isso significa que você ainda faz parte dessa nação. Em todos os formulários, quando aparece “nacionalidade”, quer dizer “cidadania”. Então se espera que eu escreva “russa” e não “azerbaijana”. E em todos esses formulários, sinto que estou preenchendo errado. Mas, antes de qualquer coisa, fui forçada a sair do meu país. Isso não foi minha escolha. Eu estava sob uma enorme pressão e ameaças de ativistas pró-guerra e de outras pessoas, como ultranacionalistas e skinheads. Então, não foi minha escolha. Deixei o meu país no meio da noite do dia 16 de janeiro, com uma bolsa com pertences, e nunca retornei. E este ainda é o grande trauma que eu experimentei. Ainda é uma ferida. Lembro que nos primeiros dois meses, quando passei um tempo em Istambul, eu não conseguia lembrar precisamente o que estava fazendo. Por outro lado, não poderia ficar na Rússia de qualquer forma, porque eu estava sempre contra a guerra na Ucrânia e  falava o tempo todo abertamente sobre isso. Nunca apoiei o regime ou o que o governo faz. Sobretudo, quando a guerra da Ucrânia começou, foi absolutamente triste, porque tenho muitos amigos e poetas que vivem lá. Então eu lembro quando, no primeiro dia, depois do começo da guerra, eu estava no metrô indo ao trabalho e abri o Facebook e uma dessas poetas amigas minhas, uma poeta realmente famosa, Galina Rymbu, que vive na Ucrânia em Lvov, escreveu: “Por favor, salve-nos”. Lembro de estar no metrô e chorar e me sentir desesperançosa porque não conseguia nem mesmo entender o que poderia fazer com aquela situação. Se, por um lado, eu fico triste por conta dos meus amigos que estão lá, pela minha família e pela cidade que eu amo, a cidade em que nasci e fui criada, por outro, não posso apoiar o que está acontecendo politicamente no país. Sou contra a guerra e a violência em geral. E isso realmente me confundiu, porque não sei bem quando isso irá acabar e quando poderei retornar. Há muita repressão contra muitos grupos, como a comunidade queer, as feministas, pessoas que estão pensando o campo do pós-colonialismo. Por isso mesmo eu não poderia permanecer no país, já que estava envolvida na questão pós-colonial e no debate feminista, o que, atualmente, é proibido na Rússia. 

Rus bala, de Egana Djabbárova
Editora Ars et Vita, 2024
Tradução de Maria Vragova e Prisca Augustoni
104 pp.

As mãos das mulheres da minha família não eram destinadas à escrita, de Egana Djabbárova
Editora Ars et Vita, 2026
Tradução de Maria Vragova
168 pp.