Correspondência Incompleta

Carta só para Airton Souza

Obrigado, Airton, por me fazer caminhar (justificando mesmo a presença do movimento) com Manel e Balta em dois dos grandes finais com que a literatura brasileira pode ter a honra de se engrandecer.

Foto: Sara Lopes (Reprodução).


Airton,

Esta carta é, finalmente, uma certeza, diferente do mar e do bamburro, sempre tão longes. Nas duas semanas que separam o dia em que pude conhecer seu abraço amigo do dia em que terminei a leitura de seus dois últimos romances, estenderam-se minha admiração e minha reverência pela capacidade poética com que você destrincha histórias tão marcadas pelo que de desumano nos permeia. Comoveram-me a descrição lírica e cuidadosa das ações e dos cenários (nunca me esquecerei da beleza triste do nome “adeus-mamãe” para as precárias escadas), além dos diálogos (im)possíveis, carregados de metáforas, que aumentam nossa capacidade interpretativa pela expressão paradoxal e, por vezes, surreal que simbolizam.

Seu “Outono” nos escancara o massacre das ilusões e o assassinato das ânsias materializadas. E, ironicamente, quem bamburra, é quem se entrega, mãos lavadas, à sutil inserção de uma letra na carne divina: GOD ↔ GOLD.  

Os homens nus, assim como a serra, são reféns de uma nessexidade primária, rumo à validação, à sobrevivência, à promessa de algum presente nesse país do futuro. Futuro que nunca chega, que fere, (des)mata, extermina. 

E se a linguagem do chão sem ternura ali se apresenta, é em seu livro mais recente que ela cresce e se desenvolve, mostrando outras peles que também entendem mais de distância do que de amor. Meninos que, assim como os homens de Serra Pelada, parecem ser a continuação de suas próprias desgraças, mesmo carregando em si o desejo de uma existência justificada pelo movimento, pelo depois, pelo vir-a-ser.

Obrigado, Airton, por me fazer caminhar (justificando mesmo a presença do movimento) com Manel e Balta em dois dos grandes finais com que a literatura brasileira pode ter a honra de se engrandecer. E por sedimentar em nós a lição de que mesmo em horas que a gente precisa sujar as mãos de sangue ou de esperança, o amor sempre será nossa paisagem. Porque sonhar é também uma maneira de enxergar o mundo com ternura, apesar do mundo.

Que suas palavras sigam sempre com a missão de encorajar as pessoas quanto ao que sentem, sonham e são. É só o que espera, o afeto do amigo,

Márcio,
Sertão da Farinha Podre, 31-V-2026/08-VI-2026.

O mar é longe, de Airton Souza
Editora Record, 2026
256 pp.