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Zunara, Maria de Jesus

Não, vó Zunara não morreria em um leito de hospital.

Arte de Arjan Martins: Sem título, 2013; acrílica sobre tela; 200,3 x 300 cm; Coleção Gilberto Chateaubriand MAM Rio.


Morreu, como se diz, feito um passarinho. Sopro no coração. Um suspiro leve, tal as delicadas flores do vestido que a filha lhe colocou naquela noite antes de saírem para o hospital aonde, ainda bem!, não chegaram a tempo. Acordo dela com o divino. “Ai, ai, ai, ui, ui, ui, meu Jesus, minha Nossa Senhora, me deixem descansar”, disse, pousando sobre os olhos mansos e profundos as pálpebras largas e com pouquíssimas rugas para os seus 94 anos findos com raríssimos fios de cabelo branco. Não, vó Zunara não morreria em um leito de hospital. 

Não ela, que tinha intimidades com Jesus e Maria. E não digo só no nome, Maria Zunara de Jesus, mas porque carregava em suas rezas as de outras tantas e tamanhas rezadeiras. Mulheres como ela, sertanejas, devotas de Marias, que nas casas, nos casebres, nas grutas, nas igrejas e capelas, nos andores deste nordeste de crença quente, sussurravam pedidos e zelos nas horas gordas. 

Não ela, que até o último dia de vida se manteve firme, rocha da fonte onde medra a água incessante da fé. Não ela, raiz da terra vermelha de Itabaiana, chão ao pé da serra sergipana onde, na infância, o neto tinha que ir escondido debaixo do capim (ai, se o avô catrumano o visse), na carroça guiada pelo pai, receber dela o abraço, desde essa época acompanhado de três ou quatro tapas fortes nas costas, um cheiro no cangote e o “Deus te abençoe” dos mais amorosos de se ouvir. Não ela, imensidão de afeto ofertado assim, de graça, como manga rosa caída do pé, chuva fina riscando no solo os desejos de esperança no porvir, canto do Corrupião rasgando a paisagem alaranjada do ocaso.

Não ela, que ano a ano perguntava ao neto “cadê a namorada?”, mas anunciou, no almoço de Natal de 2014, quando a conheci: “hoje o menino Jesus me deu um presente precioso; mais um neto” – e me afagou, e chorei de soluçar, e ela pegou a mão do meu amor, colocou sobre as minhas e acarinhou o rosto de nós dois. Naquele instante, o capim da carroça foi levado pela ventania da compaixão, do acolhimento, do respeito.

Não pudemos ir ao velório de vó Zunara. Não daria tempo de chegar. Ficamos tristes. Principalmente meu companheiro, que tinha prometido para si mesmo que estaria junto aos seus na hora da despedida. Mas relembramos lembranças e voltamos ao instante em que, ano passado, após uma queda resultante da insistência em manter a autonomia, quando se levantou de madrugada da cama e, teimosa!, não chamou ninguém para acompanhá-la, vó repetia: “Ai, ai, ai, ui, ui, ui, meu Jesus, minha Nossa Senhora, me tirem essa dor nas costas”. 

Sentados ao lado dela, acariciando-a, oramos em silêncio. Entoei um adurá para Oxum. Manso, tenro, fluido. Rio de reza. No fluxo das palavras, louvei a mãe que nos presenteia com calmaria e nos tira a aflição, a mãe dos orixás gêmeos que enganam a morte, aquela que, com doçura e mansidão, transborda tranquilidade e acolhe, em suas águas, os pedidos dos seus filhos. 

Passava a mão em suas costas, nos seus braços, em sua cabeça. Olhei para a cômoda encostada à parede perto da janela. Atravessando a cortina de renda, os raios de sol salpicavam as imagens dos santos, das santas, de Jesus, Maria, Nossa Senhora. Não sei se foi devaneio, se foi real, pouco importa. Só sei que vi, como uma aparição, Cristo e Aparecida sorrindo para mim. Vó Zunara, Maria de Jesus, virou o meu rosto com delicadeza, olhou-me bem fundo nos olhos e, como quem reafirma o milagre, também me sorriu.