
Felipe Julius: “Escrever foi um jeito de não deixar aquilo virar episódio isolado na memória”
Em entrevista, Felipe Julius fala sobre Cicatrizes na paisagem, livro entre o documento e a poesia, que registra as marcas deixadas pelas enchentes do Sul do Brasil em 2024.
Por Ana Luiza Rigueto.
Foto: Divulgação.
Cicatrizes na paisagem, de Felipe Julius, foi o vencedor do 8º Prêmio Nacional CEPE de Literatura, na categoria Poesia, e será lançado no dia próximo dia 18 de junho, em Porto Alegre. O livro, organizado em três capítulos, retoma a catástrofe climática que assolou o sul do Brasil em maio de 2024. Ao narrar os caminhos tortuosos na estrada para Viamão e a busca por uma BR-101 transitável, a obra ficcionaliza, em versos, a história de uma mulher grávida e sua companheira atravessando o cenários de destruição para recomeçar a vida.
Nesta entrevista, o escritor Felipe Julius, que nasceu em Porto Alegre e vivenciou as enchentes de dentro da cidade, conta um pouco sobre o episódio e como conciliou a narrativa da tragédia com a escrita poética: “Foi mais uma decisão técnica do que um dilema. O verso me deixava trabalhar por síntese, dizer o essencial sem a obrigação de explicar tudo, como a prosa ou a não ficção exigiriam. O cuidado principal era de tom, não forçar a comoção nem inflar o que já era grave por si.”
O escritor também fala sobre a influência do trabalho como publicitário em sua literatura, as autoras contemporâneas que o inspiraram a narrar em versos, a dedicação recente à música eletrônica e a interseção disso com a literatura, além da expectativa para novos projetos.

Felipe Julius: “A poesia move a dar o primeiro passo”
Ana: Felipe, acredita que a poesia ajuda a lidar com as perdas?
Felipe: Ela nos move a dar o primeiro passo, a nos situar no espaço-tempo que nos cerca, a reconhecer a primazia do real. A poesia é Kairós, o instante oportuno, escrita pelos poetas, sim, mas também pelo povo que a forjou. Ainda assim, é a passagem dos dias, o Cronos, que ensina a lidar com a perda e a seguir adiante. A poesia não cicatriza por nós, mas dá nome ao que dói, e nomear já é começo de travessia.
Ana: “Cicatrizes na paisagem” aborda com lirismo a tragédia de 2024 no sul do país, que deixou mais de 200 mil pessoas desabrigadas. Por que decidiu escrever sobre o tema, e como foi conciliar esse episódio tão avassalador com a escrita poética?
Felipe: Decidi escrever porque o tema é recorrente – e longe de ser excepcional. O sul do Brasil já tinha histórico de cheias, e a de 2024 aconteceu num período de El Niño, que costuma trazer chuva acima da média para a região. Escrever foi um jeito de não deixar aquilo virar episódio isolado na memória, ainda mais agora que os centros meteorológicos já projetam um novo El Niño se formando ao longo de 2026. O passado, nesses casos, não é só passado. É também previsão.
Sobre conciliar isso com a escrita poética, foi mais uma decisão técnica do que um dilema. O verso me deixava trabalhar por síntese, dizer o essencial sem a obrigação de explicar tudo, como a prosa ou a não ficção exigiriam. O cuidado principal era de tom, não forçar a comoção nem inflar o que já era grave por si.
Ana: Você nasceu em Porto Alegre e mora em Florianópolis. Como vivenciou os episódios que seu livro aborda?
Felipe: Vivi a enchente inteira em Porto Alegre. Acompanhei tudo de dentro, na cidade sob alerta, e só na última semana fui para Florianópolis, onde minha família já morava. Nasci ali, então ver a água tomar bairros que eu atravessava de cor tinha algo de irreal, o mapa que eu carregava de cabeça deixou de bater com a cidade. No fim, eu tive condições de sair e saí, enquanto muita gente não pôde. Por isso o livro não conta a minha história, e sim as de quem ficou.
Ana: A narrativa central de “Cicatrizes na paisagem” se baseia em alguma história real em específico? Conte um pouco sobre as suas personagens.
Felipe: São narrativas que se entremeiam, e parte delas é documental. O abrigo na PUCRS aconteceu de fato: por 34 dias o Parque Esportivo abriu as portas para mais de 250 pessoas atingidas pela enchente. Grandes centros médicos tiveram de esvaziar UTIs neonatais e centros obstétricos, e famílias saíram com uma sacola na mão para lugares que jamais imaginaram habitar.
As personagens nascem desse cruzamento entre o que eu vi, o que apurei e o que imaginei, então não há um único caso real por trás delas, mas muitos, costurados. Eu queria que cada figura tivesse densidade de gente, que encostasse de fato na realidade de quem leu sobre a tragédia ou a viveu. A mais recorrente é a Syb, presença que atravessa o livro inteiro e cujo nome guarda uma camada íntima, em homenagem a minha bisavó Sibylla Ribeiro, e outra mítica, referenciando Sibila de Cumas.
Ana: Você chamou seu livro de uma “road novel” poética. Há um uso renovado, na poesia contemporânea, dos versos para narrar histórias. Concorda? Tem lido contemporâneos que também incorporam a narrativa ao poema?
Felipe: Concordo, e me vêm à mente duas escritoras. A Lilian Sais, com Palavra Nenhuma, uma plaquete em que o eu-lírico narra a morte do pai, é potente justamente pelo tom elusivo, que se deixa ler como um poema longo. E a Aline Bei, de quem admiro demais os livros, indexados como romances mas escritos em verso. É aquele interstício do romance em versos que vem lá de Eugênio Onêguin, de Púchkin. É inevitável pensar nela, pelo papel que cumpre em devolver a uma nova geração a coragem de versificar.
Ana: Em quais fontes literárias você bebeu? Como foi sua pesquisa para o livro?
Felipe: A pesquisa foi mais afetiva do que sistemática. O fio mais direto foi Mario Quintana, porque ele registrou em verso a enchente de 1941 em Porto Alegre, e me deu uma espécie de licença histórica, a prova de que a cidade já tinha posto o próprio desastre em poema antes de mim. A partir daí, eu li menos buscando informação e mais buscando tom, gente que soubesse falar de dor sem chantagear o leitor. Adélia Prado, Louise Glück, Antônio Cícero, Susan Sontag etc. O que eu queria desses autores era um jeito de fazer o desastre caber no poema sem que ele esmagasse a forma.
Ana: Você, além de escritor, é publicitário. Acredita que a prática na publicidade tenha influência na sua escrita literária?
Felipe: Influencia. A publicidade me deu temperamento, ela me acostumou ao não, ao prazo, à mudança de plano de última hora, e isso vacina contra a fragilidade que às vezes ronda quem só escreve. Me ensinou a lidar com a cobrança da omnicanalidade dos nossos dias sem perder a personalidade. E há uma ironia boa nisso: o tempo do mercado editorial é mais lento do que um ser cronicamente online espera, e essa lentidão, que de início incomoda, virou um respiro. Em tempos de pressa, é privilégio poder esperar.
Ana: Há novos projetos vindo por aí?
Felipe: Tenho projetos na gaveta e outros em fase mais adiantada, já circulando, começando a oxigenar. A dramaturgia é um território que tenho vontade de experimentar, mas ainda em rascunho. E ultimamente venho concentrando meu aprendizado na música eletrônica, produzindo e discotecando, na escola da House Mag. É um labor que tem me rendido ideias novas e um refresco criativo, a vontade de buscar uma intersecção entre música e literatura, com impacto social em mente. É um espaço em que pretendo me inserir.


Ana Luiza Rigueto é poeta e jornalista, doutoranda em Literatura (UFRJ), crítica literária, criadora da Trampolim e autora das plaquetes Teatrinho, Bodybuilder e Maria & Maria.