
Cenas de nossa história coletiva: ‘Diáspora não é lar’, de Nina Rizzi, transforma em poesia a sensação de despertencimento
Em “Diáspora não é lar” (Editora Pallas, 2025), Nina Rizzi rasura o que a crítica literária espera de uma poesia negra.
(Foto de Lavínia Lopes).
Desde o início da minha vida enquanto pesquisador em literatura, busquei mapear e falar sobre os livros “da diáspora”. Muito impactado pela leitura de Memórias da Plantação, de Grada Kilomba, percebi que havia ainda uma sensação de despertencimento em qualquer “pátria” que abrigasse os corpos atravessados pela raça. Isso porque esses corpos não eram (e ainda não são) parte do projeto-nação de nenhuma das nações modernas ocidentais. Na verdade, o fenótipo e a ancestralidade negra é, em si, uma rasura ao projeto de nação. Assim, me vali muito das palavras da própria Grada no programa Roda-Viva quando diz: “Eu não quero representar uma nação, eu quero questionar o que é uma nação”. Foi um processo entender que nacionalidade, território “nacional” e identidade de um povo são, em geral, ficção.
Não por acaso, do enorme volume de livros que chega em minha casa, “Diáspora não é lar”, de Nina Rizzi (Editora Pallas, 2025) me chamou atenção. Em parte porque o nosso faro de pesquisador acaba sempre buscando aquilo que poderia servir enquanto material de pesquisa, mas também porque a capa, linda arte de Larissa Souza, mostra o que eu já vinha percebendo em meus estudos sobre a diáspora: uma dualidade. O corpo dessa mulher dividido em dois, um mais claro, outro mais escuro, ambos os lados todo corpo de uma mulher negra, nos leva ao entendimento dessa subjetividade atravessada pelo corte entre duas extremidades.
Podemos pensar na leitura que Stuart Hall faz do conceito de “co-presença”, de Mary Louise Pratt. Conceito que busca dar nome às manifestações de povos afetados pela diáspora, a exemplo inicial, claro, a cultura caribenha. Hesitando entre crioulização e se aproximando mais de uma ideia de hibridismo (também presente em Homi Bhabha), Hall escreve que essas manifestações culturais estão em uma zona de contato, ora trazendo elementos da cultura hegemônica do colonizador, ora convocando os elementos da cultura africana.
Como a nossa geração de escritoras(es) está elaborando o deslocamento e o não-lugar ou o hibridismo é o que me interessa enquanto pesquisador. Traçando uma rota que me leva a Procurem Luisa (Maria Dolores Rodrigues, Segundo Selo, 2025) e Pequeno Caderno Maranhense (Nilson, Cepe, 2024), chego a Diáspora não é lar.
Deslocamentos em Diáspora não é lar, de Nina Rizzi
O livro é dividido em três partes: ilê, diáspora e orí iwaju e parecem dar conta de três tempos que se misturam em uma dinâmica circular, entrelaçando-se passado, presente e futuro. Em ilê, como o próprio título sugere (pois ilê significa casa ou terra em iorubá), estão os poemas que convocam a memória de infância em um diálogo com a figura da mãe em um ambiente rural. São imagens que podem apresentar que esse deslocamento do qual eu falo se manifesta em corpos da diáspora desde os momentos primeiros. Trago de volta minha amiga, a intelectual Maria Dolores Rodriguez, para falar sobre essa sensação. Uma vez, conversando com Dolores, ela me diz algo que ficou martelando na minha cabeça: “ser negro é algo apertado é uma fisgada”. Sinto essa fisgada no texto de Nina: essa sensação, desde criança, que não se é, exatamente, o que se espera. Isso é percebido muito cedo, quando o sentimento de estranhamento, que chamamos às vezes de timidez e às vezes chamamos de dengo, se manifesta na profunda inquietação ao transitar pelo mundo.
às vezes minha mãe me levava para trabalhar com ela
eu odiava tanto, que me sentia em dívida com a vida
odiava
odiava os lençóis e toalhas tão brancas, mas tão brancas
como pode
os objetos que não serviam para nada
os brinquedos que apitavam infernais como sirenes
as comidas com queijo podre
as privadas cheias de merda
os olhares
os cheiros
(Nina Rizzi, p. 22).
Nessa parte do livro, a voz lírica revisita o passado não num ato de auto-comiseração. Não é sobre isso. É sobre reconhecer que antes de se perceber negra, se percebia diferente. De certa forma também é sobre reconhecer a insubmissão como prova de que nunca foi sobre se submeter a um paradigma estabelecido.
uma vez, eu roubei um vidro de perfume
não sei por quê
se ódio, se vingança, se tristeza, se curiosidade
é como se diz, como se fosse da família
roubei e guardaria para sempre como um troféu
se minha mãe não tivesse me surrado e me obrigado
a devolver pra senhora sua patroa
sim, senhora, me desculpe, senhora, que me disse
se você trabalhar muito, um dia vai poder comprar um
dona, não há dinheiro que chegue numa casinha
germinada
e quer saber mais, dona, essa coisa num é pra minha
família não
essa coisa fede
(p. 23).
Se inicia nesta parte (mas se segue nas outras), uma conversa com a mãe. A conversa que gira em torno das coisas do passado, dos desencontros, do momento em que o atrito surge. É como se a voz poética dissesse: “eu entendo agora porque tão quieta, porque tão submissa”, reconhecendo que não era submissão (o que me lembrou o poema Cordeiro de Nanã, de Seu Mateus Aleluia).
I am not your negro
Na segunda parte, diáspora, estão os poemas que parecem dar conta de um presente. São os poemas que estão mais em torno de uma relação com este mundo de hoje e suas contradições. A voz lírica está madura e a sensação de deslocamento permanece, embora agora se saiba dar nome ao que é. Nesta parte, os poemas se aproximam muito do que Grada Kilomba tenta fazer enquanto teoria em Memórias da Plantação: reconhecer microviolências que chegam a esse corpo agora em outros espaços. Podemos pensar, numa leitura biográfica, do atrito que se é ser negra e ser poeta/escritora/tradutora num mundo que não conseguiu ainda dar conta desse corpo nesses espaços. Porque, convenhamos, as editoras brancas, as redações de jornal brancas, a academia branca está em crise com a presença de pessoas negras nesses espaços. Por mais “desconstruído” que sejam, há ali um vestígio que denuncia que eles até entenderam que é preciso nos incluir, mas que, às vezes, é só pela inclusão mesmo.
na minha quebrada ninguém leu
a última lista
de poetas que marcaram a época
(p. 74).
É a parte do livro que busca dar conta desse cenário que é a contemporaneidade onde se reinventou o mito da democracia racial. O mundo é até racista, mas aqui na nossa empresa, aqui na universidade, aqui na editora somos todos iguais (contém ironia). Volto a mencionar o atrito porque um corpo negro em qualquer ambiente hegemonicamente branco gera atrito. Nina consegue, com maestria, falar desse lugar que James Baldwin (uma grande referência para Nina que já o traduziu e aparece aqui e lá) fala quando perguntam a ele: o que você acha que nós achamos que você é e Baldwin responde: eu acho que vocês acham que eu sou um sobrevivente exótico. Porque de certa forma, parece que a crítica literária hegemônica (e Nina também fala disso) parece querer buscar na literatura negra o exótico sobrevivente, a história de superação, a história de sofrimento.
Nina rasura o que a crítica literária espera de uma poesia negra. Ao contrário da submissão de quem agradece “por ser incluído”, subverte os papéis e assume a raiva (também como James Baldwin) para confrontar os silêncios do suposto círculo literário sem racismo onde todos são iguais. Entendendo o atrito, a voz lírica se veste e se faz dele como se dissesse “já que eu sei que incomodo, vou incomodar ainda mais”.
eu queria ser uma poema-bomba
e incendiar cada camburão
cada rua com cada um de vocês
que gritavam lula-livre e cruzaram a calçada
omissos demais
cúmplices demais
(p. 75).
Algo que é muito interessante nesta parte são as referências ao jazz estadunidense e à poesia estadunidense negra. O livro dialoga bastante com essa tradição, talvez porque nos Estados Unidos, mais que no Brasil, nunca foi possível cultivar a fantasia de que os negros pertenciam àquela terra, enquanto que no Brasil se cultivou a ideia de que essa era uma terra de todos.
Sagrado
Na terceira parte Orí iwaju, há uma síntese das duas anteriores que agora parece apontar para um futuro como o próprio título supõe, uma vez que iwaju pode significar futuro ou dia seguinte. É a parte em que está o belíssimo poema que dá nome a à coleção. É uma parte também que se aproxima mais da espiritualidade como um ponto de encontro com essa ancestralidade negada. O próprio poema “Diáspora não é lar” convoca essa incerteza de não saber de onde se vem, ou a qual herança (no sentido de a qual grupo étnico) se pertence.
A voz lírica se reinventa então a partir da espiritualidade. Exu, Oyá, Oxóssi e todos os orixás são chamados como aqueles que possibilitam a abertura de um caminho que se abre onde apenas havia paredes e incertezas. Portanto também tem um aspecto de cura, de reencontro com esse lar. E Nina Rizzi constrói esse reencontro a partir de poemas que dialogam com o oriki, forma de poema em iorubá que serve de salvação/cantiga.
Todo o livro é perpassado por essa tradição poética iorubá, mas se intensifica na última parte. Há também em todo livro muita musicalidade, ritmo, repetições e refrões que aproximam os poemas da canção, seja a canção de herança iorubá ou o rap pela marcação em pretuguês marcada no linguajar “da quebrada”.
Assim, “Diáspora não é lar” é um livro que compõe em forma e tema um trabalho estético muito robusto e que deu um certo trabalho de escrever (rs) porque é muita coisa. Tudo está concatenado nesta que é mais uma experiência que um livro. Um trabalho poético competente e complexo. Aplausos.
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