Crítica

O luto como uma matriosca em ‘Dueto dos ausentes’, de Fernando Rinaldi

Em Dueto dos ausentes (Editora Reformatório, 2023), Fernando Rinaldi constrói uma matriosca narrativa que conduz o leitor ao cerne das possibilidades de narrar o luto.

Foto: Divulgação.


I

Lembro de certa vez em que, lidando com alguns dos muitos lutos decorrentes da perda de pessoas próximas da minha família nos últimos anos, enfrentei a iminente morte de minha madrinha. Ela estava hospitalizada e havia sido desenganada pelos médicos: o câncer estava em estado de metástase, o que ocasionou o aparecimento de tumores pelo corpo todo. Ao relatar minha dificuldade em chorar – hábito que mantenho até hoje –, senti a necessidade de falar com a psicóloga sobre outros meios de elaborar esse luto que precisava ser expresso. Nessa sessão específica, ela abordou a prática da escrita para esse fim e sugeriu que eu escrevesse uma carta, um conto ou até mesmo um texto em primeira pessoa. É sintomático que eu escreva uma crítica e comece relatando isso – talvez ainda esteja elaborando esse luto.

Minha psicóloga talvez não soubesse, ou não tenha feito a associação naquela hora, mas, anos mais tarde, ao ler Diário de Luto (Editora WMF Martins Fontes, 2011), de Roland Barthes, encontrei uma entrada de 18 de fevereiro de 1978 que diz o seguinte: “Luto: aprendi que é imutável e esporádico: ele não se desgasta, porque não é contínuo”. Ou seja, existe uma tentativa de elaboração que acontece em diferentes momentos da vida do sujeito, com demandas distintas, tornando tangível a falta deixada pelo outro. Então, fui profundamente afetado ao me deparar com a leitura do romance de Fernando Rinaldi.

II

Fernando Rinaldi é um escritor paulista que trabalha numa das principais editoras do país, a Companhia das Letras. Durante o período de 2019 e 2020, escreveu o romance que é o foco deste texto, finalista com menção honrosa do Prêmio Mix Literário de 2024, importante premiação voltada a obras LGBTQIAPN+.

Dueto dos ausentes (Reformatório, 2023) apresenta, já em suas primeiras páginas, uma frase que ecoa Barthes no seu diário de luto: “Não existe vida sem literatura”. Ainda que o livro fale da morte, há, no ato de produzir um texto literário, uma pulsão de vida. Abordar a morte é, inevitavelmente, abordar a vida; logo, a literatura é um objeto/mecanismo de memória e um modo de imortalização.

Se Barthes, ao escrever sobre sua mãe, elabora o luto e retrata especificidades da figura materna, em Dueto dos Ausentes temos um pai que, no dia das eleições que elegeram Jair Bolsonaro, sofre um acidente de carro que mata seu filho e deixa a amiga, que estava ao lado, em coma. A partir desse momento, esse pai – Hélio, psicanalista – começa a escrever um diário como forma de elaboração do luto por seu filho, Heitor.

Ao produzir esse diário, existe a construção de um romance dentro do romance, um mundo em refração no qual somos apresentados a Eitor e Élio. Portanto, temos um presente narrativo marcado pelas datas e entradas no diário de Hélio. Ao mesmo tempo, Heitor é chamado para narrar, e, nesse processo, uma especificidade emerge: a falta da figura paterna.

Na refração da narrativa, encontramos Eitor, um psicanalista que está na França para um evento e se apaixona por um jovem estudante enquanto sua esposa, Isis, está prestes a ter um bebê. Fechando esse segundo dueto, o leitor acompanha Eitor desde a infância e adolescência, período marcado pelo vício em remédios para dormir e pelas descobertas da sexualidade.

Para além dos protagonistas e de seus reflexos nesse universo paralelo, personagens secundários – como os avós, a mãe do filho morto e a amiga em coma – surgem para complementar uma narrativa que não é linear nem tranquila. Pelo contrário, ela reverbera o que Barthes aponta sobre o caráter não contínuo do luto.

III

Matriosca: boneca artesanal russa feita de madeira, cujo diferencial para outras bonecas está no fato de conter, em seu interior, outras bonecas menores, num movimento até a menor de todas. Fernando Rinaldi, portanto, escreve um romance-matriosca, ou, mais precisamente, uma narrativa que emula essa estrutura.

As dinâmicas entre as personagens já demonstram um ponto de inflexão: Heitor/Eitor e Hélio/Élio. A ausência da letra “H” demarca a falta que o luto impõe sobre esse pai que perde o filho de forma trágica – mas não apenas isso. Outras faltas também são demarcadas.

Ao se deparar com a refração, o leitor percebe que existe algo diferente; não se trata de um espelho que representa de forma fidedigna o presente narrativo. Pelo contrário, somos apresentados a uma narrativa outra, que amplia a percepção do leitor sobre a relação entre pai e filho e, principalmente, sobre o luto, a vida e aquilo que só pode existir no mundo da escrita.

“[…] Não caberia a desconhecidos uma resposta mais direta, como afirmar que estava de luto, e por isso, escrevendo. E mesmo essa justificativa talvez seja redundante: nós não escrevemos sempre enlutados, buscando algo que já se perdeu para representar ou então, a partir das nossas ruínas, tentando engendrar em terra devastada algo quase totalmente novo?” (p. 38)

Diante desse trabalho literário arquitetado, o leitor percebe que, embora diferentes, as personagens compartilham pontos em comum, sendo marcadas pela falta ou pela repressão em variados níveis, o que evidencia uma ausência que constitui tanto personagens principais quanto secundários. Assim, instaura-se uma procura atravessada pela angústia que paira sobre as personagens como sintoma dessas ausências.

A mãe que perde o filho no acidente é também a mãe que está grávida e sozinha enquanto Élio permanece na França, relacionando-se com um estudante – o que resulta no abandono dessa mulher e da criança para viver esse amor. Paralelamente, Élio tenta entender a si mesmo por meio das descobertas e da preparação de uma fala para o congresso que participa. Esses atos costurados entre si se relacionam com Hélio, que escreve para compreender o luto: 

[…] Ao longo da tarde, aquele modesto recinto ganhava, além das já permanentes manchas na cama, marcas em todos os espaços disponíveis: frases copiadas dos livros ligadas por setas, ideias em tópicos, palavras traduzidas, o esqueleto de uma fala. Folhas se espalhavam pelo chão e eram penduradas pelas quatro paredes. Élio se viu nu, sem atinar para o cansaço, andando na ponta dos pés, modelando e remodelando a disposição do seu raciocínio até terminarem os papéis de que dispunha. (p. 162-163)

Portanto, imaginar possibilidades outras e caminhos outros é o cerne da escrita de Hélio, reverberando o pensamento do próprio Barthes, para quem o trabalho do luto não deve ser apressado, pois “só se realiza pela escrita”. Nesse romance, a escrita permite ao protagonista reelaborar o passado do filho, trazê-lo para narrar a si mesmo e imaginar outros destinos, indagações, amores e frustrações. Por isso, a máxima apresentada nas primeiras páginas é importante para entender a obra em sua totalidade. A escrita burla a falta e a morte como fins definitivos, na medida em que o protagonista lida com a ausência e com a presença dos vestígios da memória.

Quando alguém morre, vira um nome sem nome, diz minha avó, tenho a impressão ou então agora fantasio, e nessa imagem ela fecha mais uma daquelas caixas de lembranças do meu avô, todas etiquetadas com o nome dele e algum complemento, fotografias, estudos, livros, partituras. […] Uma pesquisa apurada seria suficiente para descobrir todos os lugares onde o nome permanece uma ou duas gerações depois que é esquecido por nós; […] todos os registros, até que o nome na lápide, constatação invencível, reine absoluto sobre a decadência desse nome. (p. 227)

Para elaborar idas e vindas em mundos refratários – ou mesmo convocar o filho morto para narrar –, o romance utiliza uma estrutura narrativa: divide-se em oito partes, cada uma composta por sete capítulos, que se interligam de formas diferentes e se associam pela marcação do capítulo. As dinâmicas de diálogo entre essas partes são explicitadas numa tabela nas primeiras páginas do livro, e cada uma apresenta formas estruturais e temporalidades específicas, ora crescente, ora decrescente. Movimentos de idas e vindas, conexões e desconexões que marcam a intempestividade do luto.

A existência de sete capítulos em cada uma das oito partes também pode ser interpretada à luz da Cabala; enquanto o número sete conecta o plano material e o plano espiritual – o que pode ser exemplificado pela voz narrativa e pelas reverberações espectrais do filho morto –, o número oito sugere um equilíbrio entre essas duas instâncias. Acredito que esse seria o resultado esperado ao elaborar o luto pela escrita, visto que compreender a falta como uma constante significa aprender a lidar com ela e a construir mecanismos para lidar melhor com a ausência.

Ainda assim, o final aberto do romance – sugerindo a continuidade da escrita por esse pai – indica que o equilíbrio é almejado. Esse movimento se mostra no diálogo com a mãe do filho morto, em que o luto está começando a se assentar, ao mesmo tempo em que a falta é usada de forma ambígua, isto é, como a falta para o final do livro e a falta do filho.

“Eu estou bem agora. Você não?” 
Fico paralisado, sem sequer movimentar a cabeça para confirmar ou negar. 
“Não foi culpa nossa”, ela repete. 
[…]
Volto a me sentar à mesa posta para dois. Depois de alguns minutos, ela aparece vestida com um pijama de flanela e de cabelos penteados. 
“Quanto falta?”, ela pergunta. 
Desta vez sou eu que não digo nada. Infiro que ela tenha entendido, pois não repete a pergunta, nem depois que se senta à mesa para tomar sopa comigo. (p. 284-285)

Por fim, Fernando Rinaldi constrói uma matriosca narrativa que conduz o leitor ao cerne das possibilidades de narrar o luto. Neste romance, tudo é cuidadosamente pensado e encaixado, da sexualidade à relação entre pai e filho, elementos que constituem a estética dessa “boneca”. Por se estruturar como uma narrativa de refração e abordar duplos que expurgam – ou trazem à tona – conteúdos recalcados, em diálogo com a psicanálise, a obra não cai no clichê nem no óbvio. Cada dueto evidencia ausências e abre possibilidades de compreender o que falta, graças a personagens bem construídos e tramas nada previsíveis.

Dueto dos ausentes, de Fernando Rinaldi/ Editora Reformatório, 2023/ 288 pp.