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ELEIÇÕES 2026

O bolsonaro que habita em mim se escandaliza com o Bolsonaro que você é

Os bebês ressentidos da direita brasileira estão com medo de perder seus privilégios de cor, de raça, de gênero, de classe econômica.

Arte "Mátria", de Emerson Rocha SÉRIE ESPECIAL
Arte "Mátria", de Emerson Rocha

Você já reparou que as pessoas verdadeiramente gratas são felizes? Eu já ouvi um incontável número de pessoas que se sentem gratas ao Lula. Gente pobre, de modos e gestos simples, mas de alma grandiosa. Essas pessoas, há centenas de anos no Brasil, acordam antes do sol para colocar o país em movimento. É mão na terra, pão sendo assado, transporte, hospital, escola, segurança. Tudo em movimento no momento em que o rico acorda. Sofreram e sofrem todo tipo de violência, mas são gratas ao Lula. Essas pessoas, que muitas vezes são violentas umas com as outras e, principalmente, com o outro que não tem respeito por elas, também espalham a esperança de que as coisas vão melhorar para todo mundo. E Lula é assim.

Isso não quer dizer que Lula é perfeito, ou não cometeu erros que nem sei na sua vida, ou que o povo é doce e pacífico. Isso quer dizer que elas sentem gratidão pela vida e pelo próprio rumo da existência, e, a cada passo, a cada mandato do Lula, essa relação se renova e evolui.  

Entre a literatura e a psicanálise, a gratidão tem raíz

Quando me perco no percurso do Lula, encontro os passos de Fabiano (“Vidas Secas”, Graciliano Ramos) e de tantos personagens de Jorge Amado. Entre minhas observações da vida e minhas viagens pela literatura, me ancoro em Melanie Klein – mulher, nível superior incompleto, divorciada, mãe de três filhos e psicanalista visionária da infância nos idos de 1930, na Inglaterra à espreita da morte na 2ª Guerra Mundial. Ela desbravou terras sombrias das relações de objeto (relações de desejo, amor e ódio) e esculpiu a culpa, a reparação, a inveja e a gratidão. 

Na mais belíssima obra da sua vida, “Inveja e Gratidão”, MK toca o instante em que o bebê, saciado e aquecido pelo corpo de quem o ama, descobre em si a centelha da gratidão pelo seu cuidador. É o sopro que atiça o fogo da pulsão de vida e acende a capacidade de amar o outro, se permitindo desfrutar da fartura e do brilho do mundo do outro sem medo de perdê-los.

Esse porto seguro é o contraponto à nuvem escura da posição esquizoparanoide que se impõe nos primórdios da vida, quando ainda somos arcaicos e viscerais. Nesse tempo sem cores e sem linguagem, o mundo se divide em branco e preto: os objetos são pura gratificação ou pura frustração e o medo de sua própria destrutividade te persegue como superego arcaico. É na vulnerabilidade dessa imaturidade que germina a Inveja Primária – esse ressentimento de quem se descobre incapaz de bastar a si mesmo, refém do cuidado e do afeto alheio. 

Mais do que isso, a inveja primária é a fissura sádico-anal que quer morder e devorar a própria fonte do prazer, punindo o outro por sua falta. Ela não conhece classes nem altares: a clivagem e a destrutividade habitam a todos, em todos os cantos e tempos do humano.

Nascidos da dependência absoluta, somos todos sofredores desse conflito: amar quem nos cuida, apesar das frustrações, ou nos ressentirmos por nossa dependência, usando nossa destrutividade para manipular, dominar e enfraquecer o outro, visando possuí-lo e controlá-lo.

A cara sombria da perversão

Diferente de nós, que sentimos culpa, são os perversos. Esses encarnam e realizam, de maneira desinibida, crua e ostensiva, os impulsos mais arcaicos, destrutivos e silenciados.

Bolsonaro falou coisas absolutamente inaceitáveis ao longo da sua vida: desde “pintou um clima” com uma menina de 14 anos até os escárnios com quem estava morrendo de COVID sufocado, passando pelo desejo de morte a todos os democratas que foram torturados, presos e calados na ditadura militar. A família Bolsonaro possui relações com os envolvidos na morte de Marielle Franco e em inúmeros escândalos de corrupção; o irmão está nos EUA articulando golpes contra o Brasil com o nosso dinheiro público, o pai está preso por golpe de Estado e o senador da irmandade de Vorcaro e que promete nossas terras ao Trump… é uma opção para a presidência da República?

Talvez nem mesmo Nelson Rodrigues, que projetou Senhor Nelson (“Boca de Ouro”, 1959), tenha dotado um personagem de tamanha perversidade. Mas Machado de Assis também já descreveu esses traços de personalidade em Rubião (“Quincas Borba”) e em Brás Cubas, por meio de seu humanitismo.

Para Freud (Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade), a perversão não se resume apenas a desvios da sexualidade, mas a uma recusa estrutural do recalque e da castração — isto é, a rejeição da lei simbólica que impõe limites ao gozo e reconhece o limite do outro. O sujeito perverso desfaz os laços da alteridade e da empatia; é uma rejeição à Lei, movido única e exclusivamente pelo gozo sem fim, onde as outras pessoas são somente coisas a serem usadas.

Eis que me encontro com o objeto mau, nu e cru, e todos os que respeito e admiro enxergam dessa forma. Bolsonaro ultrapassa os limites da civilidade.

Por outro ângulo, os bebês ressentidos da direita brasileira, cegos de inveja pela capacidade mental de Lula (o cara é um gênio), da fartura afetiva que ele transborda e das políticas públicas de reparação histórica que responsabilizam o Estado pela escravização e pela ditadura e propõem ações concretas de reparação, ficam com medo de perder seus privilégios de cor, de raça, de gênero, de classe econômica, de controle da arte, dos currículos escolares, da narrativa social e tantos outros.

Incorrendo no risco de praticar niilismo sociológico e na liberdade poética de uma pequena crônica, deixo meu rigor metodológico e minha neutralidade analítica para firmar em alto e bom som: BORA, LULA!

Voltando aos bebês da direita, eles se ressentem do povo que acorda de madrugada para cuidar deles (sob a força da opressão), por sua incapacidade de sentir gratidão, aprisionados pela Inveja Primária e na posição esquizoparanoide, frustrados por não possuírem o seio bom de Melanie Klein e todo o resto do universo…

Substituindo a análise pela emoção e romantizando a realidade, espero que algumas pessoas não votem em Lula apenas por gratidão e não retirem suas críticas a ele, mas espero sim que elas se escandalizem com a família Bolsonaro, se submetendo ao próprio superego numa demanda justa. Seria realmente muito legal que o Brasil fosse um país pacificado, justo, soberano, fraterno e diverso, porque assim todos poderíamos desfrutar um pouco mais da riqueza da nossa nação. Menos os muito ricos. Esses precisam perder para que praticamente todo mundo ganhe. 

Conciliação, reparação, gratidão e pulsão de vida nos permitem amar e trabalhar, como queria Freud e como queremos todos, para construirmos um país economicamente próspero, apoiado nos direitos humanos e alimentado pela diversidade e generosidade de nosso povo. 

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