
Rafael Gallo me deu um presente
Rafael Gallo, antes de ser o escritor que hoje admiramos, foi só mais um rapaz que colecionava reprovações e insistia em continuar escrevendo mesmo assim.
Foto: S. Ganeff e Rafael Gallo (Acervo pessoal).
A bem da verdade é que a história dele me inspirou. Ouvi falar pela primeira vez por meio de um livreiro, com nome de deus grego, em uma pequenina livraria de rua em 2023. Soa até que místico, não é? Como se houvesse algo especial no acaso de um cotidiano simples, uma livraria pequena, o destino disfarçado de rotina, e uma recomendação dita como quem não imagina que está mudando o rumo de alguém. Comprei o livro com o dinheiro do almoço e o devorei no jantar. E naquela noite, havia algo de estranho no ar, como se eu não tivesse apenas lido uma história. Desde então, a história de vida do Rafael Gallo me inspira, muito além de sua escrita. Porque há vidas que não terminam na página, elas continuam trabalhando dentro da gente, silenciosamente, como uma música que não sabemos parar de ouvir.
A bem da verdade é que eu usei, na cara dura mesmo, a desculpa do meu projeto Página 20 para conversar com quem tanto admiro, e para a surpresa de todos até mesmo do destino (e do próprio Rafael), o meu ídolo topou um bate papo. De tão ridículo que é admitir esse fato, quase pode-se chamar de bonita a coragem disfarçada de projeto, a timidez vestida de profissionalismo, o desejo tentando parecer racional. E o que eu não esperava era que uma sensação me perseguiria até agora. Uma sensação que não tem nome exato, mas tem corpo. Tem peso. Tem permanência. Que fica. E como fica…
Talvez esotérico demais para alguns, quem sabe arrogante demais para outros, mas quem já foi à cartomante sabe exatamente o que eu estou falando. Aquele sopro de bons agouros, cheiro de auspiciosidade no ar, aquela esperança disfarçada de calor no peito. Como se o futuro, por um segundo breve e indecente, deixasse de ser uma ideia abstrata e encostasse na nossa pele. Rafael Gallo me deixou com a mesma sensação de quem vê o futuro na cartomante. E respira fundo, com a calma de se permitir ser. Como se alguém, sem prometer nada, dissesse: ainda.
Eu vi nesse Rafael Gallo tão humano um espelho de mim mesma. Não no seu sucesso, não em sua carreira, não em seus prêmios ou em suas vitórias… óbvio que não. Eu não tenho o luxo de me comparar ao brilho, mas sim à sombra que antecede qualquer brilho. Me vi no reflexo de suas derrotas. E há algo de estranhamente consolador nisso, como se a derrota deixasse de ser um lugar isolado e passasse a ser uma espécie de território comum.
Me vi refletida não no Saramago, não no discurso emocionado, não na dedicatória que guardo comigo como quem guarda uma relíquia; me vi refletida nas dezenas de concursos perdidos, no manuscrito recusado por editoras, no medo de que a vida vire só um “quase”. No silêncio entre uma tentativa e outra. Na espera que ninguém vê. Na persistência que não vira manchete. Me vejo no Rafael Gallo que um dia foi como eu, tentando a sorte no jogo da vida. E que um dia desistiu, até ser salvo pela mesma esperança que ele me deu de presente. E talvez seja isso que mais me desestabilize: perceber que até a desistência pode ser só uma pausa mal compreendida pela própria esperança.
Rafael Gallo, antes de ser o escritor que hoje admiramos, foi só mais um rapaz que colecionava reprovações e insistia em continuar escrevendo mesmo assim. Era uma pessoa que tentava de tudo, que sonhava, que acreditava. E isso, de alguma forma silenciosa, me devolveu um tipo de permissão que eu não sabia que precisava: a permissão de continuar sendo, por enquanto, alguém que ainda não venceu. A permissão de ser alguém que, no fundo, ninguém sabe quem é. A permissão de me permitir ser um “ainda”. Me vejo agora, sob a luz de Gallo, um cheiro de chuva de “ainda”. Aquele presságio de que algo bom ainda está por vir, de que algo grande ainda não chegou, mas já começou a se formar em algum lugar invisível do tempo. Que um dia, com muitos e muitos fracassos, vou ainda dar certo. Como ele mesmo deu. Como ele ainda dá. Como ele continua dando, a cada vez que escolhe não encerrar a própria história antes da última página.
Essa é a grande mágica da esperança que Rafael Gallo me ensinou: nós nunca deixaremos de ser um “ainda”. Estamos sempre tentando, sempre perdendo e ganhando, sempre tentando a sorte onde o vento assoprar. E talvez isso não seja fraqueza, talvez seja estrutura. Por maior que seja o barco, estamos eternamente a remar. Não em direção a um destino fixo, mas em direção a algo que muda de nome conforme a gente cresce. Desejando mais lugar ao Sol, mais força de vento, um remo maior, uma vela diferente…
Respiro fundo observando as cartas que o tarot de Gallo abriu para mim. Fracassando e perdendo, eu tenho a certeza de que estou exatamente onde deveria estar, regada por essa chuva de esperança que um dia ainda vai cair, e que, talvez, já esteja caindo em silêncio, sem que eu tenha aprendido ainda a reconhecê-la.

