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ELEIÇÕES 2026

O Anjo da História

O bolsonarismo sob a ótica da teoria de Walter Benjamin.

O filósofo alemão Walter Benjamin (Reprodução) SÉRIE ESPECIAL
O filósofo alemão Walter Benjamin (Reprodução)

Há uma imagem de Walter Benjamin que talvez seja uma das mais inquietantes da filosofia contemporânea: a do anjo da história, inspirada na pintura Angelus Novus, de Paul Klee. A passagem específica é esta:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca aberta, suas asas estendidas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde aos nossos olhos aparece uma cadeia de fatos, ele vê uma única catástrofe, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as lança a seus pés. Ele gostaria de deter-se, acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas do paraíso sopra uma tempestade que se emaranhou em suas asas, e é tão forte que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele dá as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.”

O anjo olha para trás enquanto é impelido para o futuro por uma tempestade. Aquilo que chamamos de progresso é, para ele, uma catástrofe única que acumula ruínas. 

A pintura Angelus Novus, de Paul Klee (Reprodução).

Benjamin escreve isso em 1940, quando a Europa era atravessada pelo fascismo e o futuro parecia ter sido sequestrado pela barbárie. Não é difícil, porém, reconhecer alguma coisa desse anjo no Brasil de hoje. Sobretudo porque aquilo que parecia passado insiste em retornar. Em suas Teses sobre o conceito de História, o filósofo alemão nos deixou um alerta perturbador, registrado na célebre Tese VI: a ideia de que “nem mesmo os mortos estarão seguros se o inimigo vencer”. E esse inimigo “não tem cessado de vencer”. Este perigo ameaça tanto o conteúdo da tradição quanto aqueles que a recebem. E acrescenta uma frase decisiva: o Messias não vem apenas como redentor, mas também como aquele que vence o Anticristo. O excerto pode parecer estranho ao leitor contemporâneo, porque Benjamin não está simplesmente recuperando uma teologia judaica. Ele está transformando imagens teológicas em categorias políticas. O Anticristo é, nesse sentido, uma figura daquilo que retorna com a aparência de novidade; uma força capaz de apropriar-se da memória, deformá-la e fazê-la trabalhar contra os vivos. Talvez seja esse um dos grandes enigmas da extrema direita contemporânea: ela raramente se apresenta como retorno, mas como novidade. O passado reaparece travestido de futuro.

No Brasil, a nostalgia de uma ordem perdida pode assumir a forma de promessa de renovação, a defesa da autoridade pode ser anunciada como liberdade, a violência pode ser apresentada como segurança, a exclusão pode vestir-se de mérito, a intolerância pode reivindicar para si o nome de tradição e a própria democracia pode ser instrumentalizada para que, uma vez vencida a eleição, seus pressupostos sejam corroídos por dentro.

Longe de qualquer caricatura demoníaca, o Anticristo em Benjamin é uma força bem concreta. Ele é o motor cego do progresso autoritário, a engrenagem que se apropria do passado para legitimar as injustiças do presente. O Anticristo vence no exato momento em que persuade os oprimidos de que a sua derrota é algo “natural”, apagando a memória das lutas passadas e transformando a história em um grande monumento aos vencedores. Quando olhamos para a força avassaladora do bolsonarismo no Brasil, percebemos que a provocação de Benjamin continua dolorosamente atual. O bolsonarismo não surge como um ponto fora da curva, como uma aberração temporária. Trata-se da irrupção violenta do próprio Anticristo que sempre habitou a formação histórica do Brasil.

Essa dinâmica fica evidente na disputa pela memória. A extrema-direita brasileira entendeu rápido que, para controlar o presente, é preciso reescrever o passado. Vimos a apologia ostensiva à ditadura militar, o deboche das vítimas de tortura e a tentativa constante de apagar os traumas da escravidão e da violência colonial. O Anticristo desenterra os corpos para tripudiar sobre a sua memória. Por isso, para Benjamim, o pensamento histórico genuíno não é aquele que diz: “foi assim que chegamos até aqui”, mas aquele que pergunta: “quem ficou pelo caminho para que chegássemos até aqui?”

Na oitava tese, Benjamin escreve que a tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que vivemos é a regra. O que parece extraordinário para quem observa a história do alto (golpes, guerras, perseguições, autoritarismos) pode ser a experiência cotidiana de quem a enxerga por baixo ou por dentro, aqueles que sempre estiveram submetidos à violência. A democracia, portanto, não deveria ser pensada apenas como aquilo que existe quando as instituições funcionam. É preciso perguntar quem consegue, de fato, viver sob a proteção dessas instituições.

“A extrema-direita brasileira entendeu rápido que, para controlar o presente, é preciso reescrever o passado.” – Matheus Arcaro

Outro elemento que Benjamin antecipou ao analisar o fascismo europeu é a transformação da política em espetáculo associada ao uso instrumental do sagrado. No Brasil, assistimos à apropriação do discurso messiânico por um projeto que mobiliza o ódio ao “outro” e a paranoia coletiva. Em uma ironia trágica, usa-se o nome de Deus para pavimentar a barbárie diária, encarnando a estrutura exata do Anticristo: aquilo que veste a máscara do divino para profanar a vida. Acrescentemos a isso a percepção marxista de Benjamin de que o capitalismo não deve ser compreendido apenas como um sistema econômico. Em O capitalismo como religião, o filósofo alemão sugere que o modo de produção capitalista possui uma estrutura religiosa: fabrica culpa, exige devoção e transforma a vida em ritual permanente de pagamento da dívida.

O que acontece quando o fundamentalismo teológico e a “religião capitalista”, juntos, são impulsionados pelas redes sociais? Acontece o Brasil de hoje! Há algo de profundamente benjaminiano na nossa atualidade digital. Vivemos cercados por uma quantidade inédita de informação e, ao mesmo tempo, por uma fragilidade inédita da experiência histórica. Imagens chegam antes da reflexão; achismos são substituídos por acontecimentos factuais; indignações duram o tempo de uma notificação. É nesse ambiente que prospera a política do ressentimento. Cria-se o inimigo perfeito a ser combatido nesta cruzada: o gay, a feminista, o pobre, o professor, a imprensa, a esquerda, o artista, a universidade, o “sistema” etc.

Benjamin escreveu suas teses diante da ascensão do fascismo europeu. Nós as lemos diante de uma extrema direita que aprendeu a operar nas entranhas da democracia e na linguagem das redes sociais. Não estamos diante da repetição mecânica dos anos 1930-40. O perigo está justamente aí: acreditar que, porque a forma mudou, o fenômeno deixou de existir. O anjo de Klee continua olhando para trás.

Não se deve esquecer que instituições podem ser corroídas, que discursos de ódio podem tornar-se políticas de Estado, que a barbárie pode falar a língua da ordem, que eleições podem ser utilizadas por projetos que, uma vez no poder, passam a atacar a democracia.  Mas não se deve esquecer também que a história não está escrita à tinta. O alerta de Benjamin serve como um solavanco nos setores progressistas e liberais. No Brasil, acreditou-se por muito tempo que a redemocratização e o funcionamento das instituições seriam suficientes para imunizar o país. Esqueceu-se de que o “estado de exceção” nunca foi exceção para as periferias e para os corpos vulneráveis. A barbárie brasileira (a violência policial, a miséria e o desmatamento, por exemplo) foi a matéria-prima sobre a qual o autoritarismo se ergueu.

Se o Anticristo opera no conformismo e na ideia de que “as coisas são assim”, a resposta que Benjamin nos sugere não repousa na conciliação tampouco na espera passiva da próxima eleição. O antídoto é o que ele chama de “puxar o freio de emergência da história”. Enfrentar a extrema-direita exige resgatar a memória dos que tombaram no passado, transformando essa lembrança em combustível para a ação no presente. 

MAR ABERTO

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