Uma vez que as eleições estão batendo a nossa porta e, cotidianamente, no Brasil (1) a necropolítica e a caridade andam de braços dados; (2) casos de racismo entram no quadro de situações que apenas “geram polêmica”; e (3) muitos negros e brancos acham que é melhor perdoar as ofensas – já que as ofensas, ao menos aqui, não visam ofender – enfim, em vista de tais fatos, minha tendência é nutrir um forte pessimismo em relação ao nosso problema racial.
Outro dia, enquanto assistia a um documentário sobre Antonio Callado, reparei na fala de um contemporâneo do escritor dizendo que Callado era de uma geração que a propósito das questões de fundo do Brasil – as desigualdades sociais, as injustiças raciais, as contradições políticas e seus pactos com as elites –, lutou todas as lutas importantes de seu tempo e, entretanto, perdeu todas.
Assim, em relação ao racismo e, naturalmente, dentro dos meus modestos limites de intervenção e discussão, não me espanta que, aos sessenta e tantos anos da minha idade, eu comece a experimentar uma análoga sensação de derrota. Talvez eu esteja sendo dramático. Por outro lado, não consigo esquecer que Kafka escreve, em algum lugar e frente a um vertiginoso pesadelo, que deve haver esperança, sim, mas não para nós. Acontece que no pesadelo do qual não consigo escapar, esse “nós” não reúne a mínima cota que seja de brancos.