Toda migração envolve alguma fome. Nem sempre a fome literal, mas a fome por algo que pode ser novos horizontes, novas expectativas de vida ou até mesmo a possibilidade de ser uma pessoa totalmente diferente em um lugar que ninguém te conheça.
Na literatura brasileira, foram muitas as representações do retirante nordestino fugindo da seca, a pé ou num pau-de-arara. Na tradução para o cinema, as cenas dos grandes clássicos literários cristalizaram a imagem do nordestino que sai da sua terra como este morto de fome, aquele que irá construir os grandes prédios em que nunca irá entrar, que precisa da validação do sudeste ou de outra região para ser lido como gente, como intelectual.
Depois de oito meses no Rio de Janeiro, percebo que muitas pessoas ainda olham para mim tentando encontrar um vestígio desta representação. Estudando no Sudeste, eu sempre sou visto como aquele que está em busca de uma oportunidade ímpar que apenas esta região pode me proporcionar. Esperam que eu seja mais pobre que todos ou que eu esteja decidido a ficar aqui permanentemente.
“Em ‘Nódoa’, há mulheres que saem do Nordeste em busca de novas oportunidades, mas elas também voltam”, me contou Calila das Mercês no lançamento que mediei em Salvador. Contrapondo a narrativa modernista que tornou a ida ao Sudeste como a última fronteira capaz de redimir o Nordestino ferrado e pobre, essas mulheres, as mulheres do primeiro romance de Calila, não vêm a sua terra como inimiga e nem a terra de destino como a possibilidade de uma vida única, livre da fome ou da sede. É que as coisas são mais complexas para isso e são muitos os motivos que levam pessoas a sair de seus lugares de nascença.
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Em primeiro lugar: migrar é um direito porque toda terra é terra de gente de qualquer canto. A própria trajetória de Calila faz referência a esses deslocamentos. Nascida e criada em Conceição do Jacuípe (que, descobri, primeiro se chamava Berimbau, único nome pelo qual os seus cidadãos reclamam a cidade), Calila passou, numa trajetória marcada pelo desejo de ampliar ao máximo as fronteiras, por Cachoeira e Feira de Santana, na Bahia, Brasília, Portugal e agora em São Paulo. Recentemente, passou uma temporada na França. Poderíamos chamá-la de cidadã do mundo, o que ela é, mas também sempre afirma o lugar de onde veio: Berimbau (que não é Conceição do Jacuípe).
Em agosto, acompanhamos Calila (eu e Marlon, fotógrafo da revista O Odisseu) à sua cidade natal para fazer algumas fotos. Pude conhecer sua cidade e, enquanto passávamos pelas ruas, ela ia me apontando os lugares que fizeram parte da sua trajetória: ali morou uma tia, o vizinho que a viu crescer, o rio que sua família conhece bem. Ao migrar, não há um despudorado rompimento com o lugar em que se nasceu. Nem se romantiza, nem se esquece: o que existe é apenas a referência como o lugar de formação.
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Em “Nódoa”, seu primeiro romance, a autora costura vozes-personagens que funcionam, de fato, como uma nódoa, um amontoado de faces, timbres e texturas de mulheres que mostram a multiplicidade do desejo e da fome que impulsionam a migração. Indo na direção contrária das representações cristalizadas por obras como Vidas Secas ou O Quinze, ela dá contorno, detalhes e exuma os corpos esquecidos da diáspora nordestina.
E há, inclusive, uma personagem que volta da morte.
No número 30 da revista O Odisseu, Calila das Mercês publica um texto inédito em que explica que não apenas o seu livro é uma narrativa, mas que sua escrita se deu em um processo de deslocamentos: entre cidades, num ônibus, na fila do aeroporto. Uma escrita em trânsito, literalmente.
