Jean Wyllys é jornalista, escritor, professor e ativista dos direitos humanos. Graduado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, possui mestrado em Letras e Linguística e é doutorando em Ciência Política na Universidade de Barcelona.
Seu trabalho ganhou projeção nacional por sua atuação política. Foi eleito deputado federal pelo PSOL no Rio de Janeiro em 2010, reeleito em 2014 e outra vez em 2018, para um terceiro mandato que não chegou a completar.
Durante sua passagem pela Câmara dos Deputados, Jean Wyllys apresentou e participou de debates e iniciativas relacionadas aos direitos humanos, como o casamento igualitário e a regulamentação da maconha no Brasil, se tornando um dos parlamentares mais combatentes contra o avanço do conservadorismo.
Em 2019, após sucessivas ameaças de morte, anunciou sua renúncia ao mandato conquistado nas eleições de 2018, deixou o Brasil e passou a viver no exterior. Permaneceu exilado entre 2019 e 2023, período que coincidiu com o governo de Jair Bolsonaro.
Na literatura, Jean publicou os livros O anonimato dos afetos escondidos (Tusquets, 2025), Falsolatria (Nós e Edições Sesc, 2024), O que não se pode dizer: experiências do exílio, em parceria com Marcia Tiburi (Civilização Brasileira, 2022), O que será: a história de um defensor dos direitos humanos no Brasil (Objetiva, 2019) e Tempo bom, tempo ruim: identidades, políticas e afetos (Paralela, 2014).
Em sua quarta eleição para deputado federal, desta vez pelo Partido dos Trabalhadores em São Paulo, Jean Wyllys conversou com a revista O Odisseu sobre o retorno à disputa eleitoral, a nova ascensão do fascismo, a importância das universidades públicas e o poder da literatura.
Esta entrevista abre a série especial O Odisseu nas Eleições 2026, uma série de textos e matérias que vão buscar pensar linguagem, política, literatura e voto nesta semana que antecede as eleições.
“A política já estava na minha vida antes de eu ocupar qualquer cargo”, diz Jean Wyllys

Kaio Phelipe: Quando e como decidiu iniciar sua trajetória política?
Jean Willys: Eu não diria que houve um momento em que simplesmente decidi “entrar para a política”. A política já estava na minha vida antes de eu ocupar qualquer cargo. Ela estava na experiência da pobreza, na discriminação, na universidade pública, na militância pelos direitos humanos e, sobretudo, na percepção de que aquilo que parecia uma experiência individual — ser pobre, nordestino, homossexual — era, na verdade, resultado de estruturas sociais e políticas.
Minha entrada institucional aconteceu depois do Big Brother Brasil, quando percebi que aquela exposição pública poderia ser transformada em voz política. Fui eleito deputado federal em 2010 e reeleito duas vezes. Mas eu gosto de dizer que não sou deputado; estou deputado. O mandato é uma autorização temporária que vem da sociedade, não uma propriedade pessoal.
E talvez a chave seja essa: eu não fui para a política abandonar a literatura, o jornalismo e a universidade. Fui levando essas experiências comigo. Minha política sempre foi também uma disputa de linguagem, de representação e de imaginário.
KP: O Brasil, após a lei de cotas, ocasionou a entrada de corpos e vozes que outrora eram barrados do espaço universitário. Qual é a importância de pessoas pobres ingressarem em universidades?
JW: É enorme, porque a universidade não deveria ser um lugar reservado à reprodução das elites. Eu próprio sou produto de uma combinação que parecia improvável: pobreza, escola pública, trabalho e acesso à universidade pública.
Eu tive de trabalhar muito cedo e conheci a fome. Por isso, tenho certa desconfiança da palavra “meritocracia” quando ela é usada para ocultar as condições desiguais de partida. Eu mesmo sou uma exceção, não a regra, e gostaria que a regra fosse a possibilidade de pessoas pobres chegarem aos espaços de produção do conhecimento e de poder.
As cotas têm uma importância que vai além de colocar determinados indivíduos dentro da universidade. Elas modificam quem produz conhecimento, quem fala sobre o Brasil e quais experiências passam a ser consideradas legítimas como objeto de conhecimento. A presença de pobres, negros, indígenas e outros grupos historicamente excluídos transforma a própria instituição.
A universidade pública brasileira não pode ser uma fábrica de reprodução social. Ela precisa ser também um instrumento de democratização do conhecimento e do poder.
KP: A literatura tem algum poder de influência sobre a maneira como as pessoas encaram a coletividade?
JW: Tem, mas eu faria uma ressalva: não acredito na literatura como doutrinação.
A literatura não precisa dizer ao leitor o que ele deve pensar. Ela pode fazer algo talvez mais profundo: obrigá-lo a experimentar, ainda que imaginariamente, a vida de alguém que não é ele. Pode produzir reconhecimento, estranhamento, empatia e dúvida.
Toda literatura de verdade é política, mas isso não significa literatura panfletária. Um conto não precisa defender uma tese política para revelar as mazelas, as desigualdades e as contradições de uma sociedade.
Por isso, vejo a literatura como uma forma de politizar a existência sem necessariamente fazer propaganda política. Ela amplia o nosso repertório de humanidade. E uma sociedade com mais repertório de humanidade talvez seja uma sociedade mais capaz de reconhecer o outro como semelhante.
“A literatura foi uma forma de descobrir que aquilo que parecia exclusivo meu fazia parte de uma história humana mais ampla.”
KP: Como foi ver seu nome impresso na capa de um livro pela primeira vez, mais precisamente em Aflitos, publicado em 2001, e relançado sob o título O anonimato dos afetos escondidos, em 2026?
JW: Foi uma espécie de confirmação de que aquilo que eu tinha dentro de mim podia adquirir uma existência pública.
Aflitos, publicado em 2001, foi minha estreia literária. Mais de duas décadas depois, O anonimato dos afetos escondidos retoma aquele primeiro livro e acrescenta contos inéditos.
Há algo muito bonito nisso porque o livro volta não exatamente como uma peça de museu, mas como uma “premonição” na medida em que as paixões humanas pouco mudam ainda que mudem as condições materiais
Foi uma experiência muito importante. Ver o próprio nome na capa de um livro significa, para um escritor, tornar pública uma parte muito íntima de si mesmo. Aflitos representou isso para mim.
Agora, o relançamento sob o título O anonimato dos afetos escondidos produz uma experiência diferente: é como reencontrar aquele escritor que eu fui, mas também perceber que o tempo transformou o significado daquela obra para mim.
Há uma distância entre o autor que escreveu aquele livro e a pessoa que hoje o relê. Mas existe também uma continuidade. Os afetos, os desejos, as inquietações e as questões relacionadas à identidade e à liberdade continuam dialogando com aquilo que escrevo e com aquilo que sou.
KP: Quando foi seu primeiro contato com narrativas literárias sobre a comunidade LGBTQIA+?
JW: Meu primeiro contato não aconteceu por meio de uma literatura organizada sob aquilo que hoje chamamos de literatura LGBTQIA+. Foi acontecendo por meio dos próprios livros, muitas vezes de maneira quase clandestina, porque determinados personagens, desejos e relações simplesmente não eram apresentados como experiências legítimas.
Eu li Bom crioulo, de Adolfo Caminha, aos 14 anos. E essa leitura foi muito marcante. Aos 17, escrevi “Morte”, no qual faço referência a Bom crioulo. Isso mostra como determinadas leituras chegam muito cedo e permanecem dentro de nós.
Também fui leitor de autores que me permitiram perceber que a literatura podia falar de desejos e experiências que a sociedade insistia em silenciar. A literatura foi uma forma de descobrir que aquilo que parecia exclusivo meu fazia parte de uma história humana mais ampla.
E tenho uma ressalva importante em relação ao que estamos perdendo em uma geração que cresceu sob as mídias sociais. Isso me preocupa ainda mais entre pessoas LGBTQIA+. Tenho a impressão de que uma parte dessa geração se dá o luxo de ser ignorante com orgulho e, paradoxalmente, tornou-se mais cruel consigo mesma do que éramos antes. As bolhas digitais em que muitas pessoas LGBTQIA+ vivem podem ser extremamente tóxicas, e essa toxicidade é, a meu ver, parasitada pelo capitalismo de plataforma.
Não digo isso para idealizar as gerações anteriores — nós também reproduzíamos violências, preconceitos e disputas internas. Mas havia uma experiência de formação que passava pela leitura, pelo encontro com o diferente, pela circulação por outros espaços e pela construção coletiva de referências. Hoje, muitas vezes, o algoritmo oferece às pessoas aquilo que confirma suas próprias certezas. E isso pode empobrecer a experiência de alteridade que a literatura, por exemplo, nos proporciona.
KP: Como a literatura te acompanhou durante o exílio?
JW: A literatura foi uma das formas de continuar existindo quando muitas das referências que organizavam minha vida haviam sido interrompidas. O exílio produz uma experiência muito singular de deslocamento: você está fisicamente em outro lugar, mas continua carregando a língua, a memória, os afetos e os conflitos do lugar de onde veio.
Escrever e ler me permitiram manter uma relação com o Brasil sem estar fisicamente no Brasil. A literatura também me ajudou a elaborar a experiência do exílio, porque ela oferece uma linguagem para aquilo que muitas vezes não conseguimos dizer diretamente.
Foi também nesse processo de reconstrução que minha relação com as artes visuais ganhou uma nova dimensão. Ao tornar pública minha produção visual, eu me refiz como artista por meio de uma linguagem que dialoga com a minha literatura. Não vejo, portanto, a literatura e as artes visuais como territórios separados: são linguagens diferentes que nascem de inquietações semelhantes e se atravessam mutuamente.
Durante o exílio, eu não deixei de ser escritor. E, ao voltar, compreendi ainda mais que a escrita e a imagem podiam coexistir na minha trajetória artística. Ambas são formas de elaborar a memória, os afetos, o corpo, a identidade e aquilo que não conseguimos dizer diretamente.
KP: Em 2024, você lançou Falsolatria e criou o neologismo que dá nome ao livro, juntando as palavras “falso” e “idolatria”. Poderia explicar esse conceito que é tão pertinente para o momento?
JW: Falsolatria é uma palavra que criei para nomear uma relação de adoração ou adesão ao falso, sobretudo quando a falsidade deixa de ser apenas um erro ou uma mentira isolada e passa a organizar a percepção que temos do mundo.
A questão que me interessa é compreender por que determinadas pessoas não apenas acreditam em uma falsidade, mas passam a defendê-la mesmo diante de evidências que a contradizem. A falsidade pode se transformar em identidade, em pertencimento e até em uma espécie de fé.
Vivemos uma época em que a circulação de informações é muito mais rápida do que nossa capacidade de verificá-las. Isso cria um ambiente favorável à desinformação. Mas “falsolatria” não trata só das mentiras produzidas por quem as dissemina. Trata também da nossa relação com aquilo que queremos acreditar.
A pergunta, portanto, não é somente “quem está mentindo?”, mas também “por que precisamos acreditar nessa mentira?”.
” O exílio me fez compreender mais concretamente o valor das liberdades democráticas.”
KP: Após o exílio, com o Brasil vivendo um campo de batalha, por que decidiu voltar para a política?
JW: Porque eu nunca deixei de acreditar que a política é um espaço de disputa pela democracia e pelos direitos. O exílio me fez compreender mais concretamente o valor das liberdades democráticas. Estar fora do país e acompanhar à distância aquilo que acontecia no Brasil produziu em mim uma consciência ainda mais forte de que a democracia não é uma conquista definitiva.
Mas o retorno também significou uma reconstrução pessoal. Eu me refiz como artista ao tornar pública uma produção em artes visuais que dialoga com a minha literatura. Minha pintura e meus desenhos passaram a constituir outra linguagem para questões que já estavam presentes nos meus livros.
Voltar à política, portanto, não significou abandonar a literatura ou a arte. Ao contrário: significa compreender que essas diferentes dimensões da minha vida podem conversar. A escrita, a imagem e a ação política são linguagens diferentes, mas todas podem participar da disputa pela construção de uma sociedade mais livre.
KP: Existe possibilidade de voltarmos a um governo totalitário?
JW: A história mostra que nenhuma democracia está protegida para sempre contra o autoritarismo. Instituições democráticas podem ser enfraquecidas, direitos podem ser restringidos e discursos autoritários podem ganhar espaço quando a sociedade deixa de considerar a democracia como um valor que precisa ser permanentemente defendido.
Mas é importante distinguir autoritarismo, regimes autoritários e totalitarismo. O totalitarismo possui características históricas específicas e não deve ser usado simplesmente como sinônimo de qualquer governo autoritário.
O que me preocupa é a normalização de práticas que atacam a pluralidade, a liberdade de expressão, os direitos das minorias, a independência das instituições e a própria ideia de que adversários políticos são legítimos dentro do jogo democrático.
A democracia não consiste apenas em votar. Ela depende da existência de direitos, instituições, liberdade de organização, imprensa livre e reconhecimento do outro como alguém que pode pensar diferentemente de nós sem, por isso, tornar-se um inimigo a ser eliminado.
KP: Neste mesmo cenário, há um discurso de ódio ao PT ecoando fortemente. Por qual motivo a direita proclama o antipetismo?
JW: O antipetismo tem uma história que não pode ser explicada por uma única razão. Ele reúne elementos ideológicos, econômicos, culturais e disputas políticas concretas.
O PT governou o Brasil por períodos importantes e, portanto, tornou-se um dos principais polos de disputa política do país. Suas políticas sociais, sua relação com movimentos sociais, suas posições sobre direitos e sua própria presença no poder produziram tanto identificação quanto oposição.
Também é preciso lembrar que o antipetismo não é homogêneo. Há pessoas que rejeitam o PT por discordâncias legítimas em relação às suas políticas ou à sua atuação política; há outras cuja rejeição está associada a interpretações sobre os escândalos de corrupção; e há setores que incorporaram uma oposição mais ampla aos valores e grupos sociais que associam ao partido.
O problema aparece quando a divergência política deixa de ser uma disputa sobre projetos e passa a transformar o adversário em inimigo absoluto. Quando isso acontece, a política perde sua dimensão democrática e passa a operar pela desumanização do outro.
Por isso, mais importante do que perguntar apenas por que alguém é antipetista é compreender quais experiências, interesses, informações e valores produzem esse sentimento e como ele se articula com a disputa política brasileira.