Existem leituras tão impactantes na vida de um leitor que demandam, de tempos em tempos, uma releitura. O meu caso é “O Deserto dos Tártaros” (1940), obra-prima do italiano Dino Buzzati, escritor e jornalista do Corriere della Sera, a respeito da relação do homem e suas aspirações com o tempo.
A obra narra a história de Giovanni Drogo, militar recém promovido a tenente e designado ao Forte Bastiani. A instalação é decadente, pequena e isolada às margens do Deserto dos Tártaros, um dos lugares mais desolados que há, e cujo misticismo aponta-o como palco de uma futura invasão. Ansioso pelo prestígio proporcionado pela guerra, o protagonista é convencido a reforçar a vigília da fortaleza e manter-se no Forte.
Diante da vasta coleção de ofensas e absurdos protagonizados pelos (supostos) defensores da Constituição, voltei às minhas anotações, marcadas pelo balanço do ônibus a caminho do estágio na Defensoria Pública do Rio de Janeiro, no meu exemplar de estimação: um livro de bolso castigado da coleção “Saraiva de Bolso” em toda a sua glória:
Agora finalmente era oficial, não tinha mais de consumir-se sobre os livros nem de estremecer à voz do sargento, tudo isso também já havia passado. Todos aqueles dias, que então lhe pareceram odiosos, haviam se consumado para sempre, formando meses e anos que nunca mais se repetiriam. Sim, agora ele era oficial, teria dinheiro, belas mulheres, quem sabe, olhariam para ele, mas no fundo — percebeu Giovanni Drogo — o tempo melhor, a primeira juventude, provavelmente acabara. Assim Drogo fitava o espelho, via um débil sorriso no próprio rosto, de que em vão tentava gostar. (Trecho de ‘O Deserto dos Tártaros’, de Dino Buzzati).
Antonio Candido, em “O discurso e a cidade” (1993), coloca “O Deserto dos Tártaros” na “lista dos romances do desencanto”, uma definição que compartilho com a vida jurídica. Além das questões remuneratórias e de prestígio, afinal vivemos na República dos Doutores, o Direito conclama por novos integrantes diante da promessa de estabilidade, não necessariamente através de concurso público, e a esperança de mostrar o próprio brio e “fazer justiça”. Atualmente, de acordo com o IBGE, 2,4 milhões de brasileiros compartilharam, em algum momento, a mesma percepção.
Drogo ficou sozinho e sentiu-se praticamente feliz. Saboreava com orgulho sua decisão de ficar, o amargo gosto de abandonar as pequenas e certas alegrias por um grande bem a longo e incerto prazo (e talvez houvesse por trás disso o pensamento consolador de que estaria sempre em tempo de partir) (Trecho de ‘O Deserto dos Tártaros’, de Dino Buzzati).
Os dias viram meses, os meses transformam-se em anos, e os anos seguem iguais em velocidade vertiginosa. Passada a animação dos tempos de calouro e resignado com a minha planilha de prazos, agora encaro o passar do tempo no forte no qual ingressei.
“A luta, ainda que inglória e muitas vezes inexistente a depender do “tártaro” que aparece no horizonte, permanece digna, mas o que falar ao cidadão, alvo de uma proliferação de arbitrariedades, cuja concepção jurídica valoriza mais as aparências em detrimento da violação que lhe aflige?”
Burocracia sem sentido, informativos de jurisprudência conflitantes entre si, decisões cada vez mais aleatórias e morosas, a depender dos envolvidos, e a certeza de que o show de horrores no Supremo Tribunal Federal apenas reflete o atual estado de coisas. Nas conversas com os amigos de profissão, o desalento com as dificuldades e a luta em nos mantermos sãos e motivados sem lobby, parentescos e degustação de charutos e uísques:
“Não podiam ser inimigos, bem que ele sabia: não nascera para a glória, inúmeras vezes se iludira totalmente. Por que — perguntava-se com raiva —, por que se deixara enganar, se pressentira desde o princípio que devia terminar assim?
(…)
Vira descer sobre os rostos dos oficiais, enquanto falava, um véu de desilusão, vira-os, de guerreiros ansiosos por luta, tornarem-se incolores oficiais de guarnição. ‘Mas eram jovens’, pensava, ‘e para eles ainda haveria tempo’” (Trecho de ‘O Deserto dos Tártaros’, de Dino Buzzati).
Sinceramente, eu não sei a resposta. Enquanto os dias seguem iguais na sentinela, a insensibilidade para com o coletivo é uma praga que ameaça a todos nós, uma que floresce no cumprimento inquestionável e automatizado ao regramento do Forte.
A conversa continua
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