No dia 15 de outubro de 2026, celebram-se cem anos de nascimento de um dos mais importantes pensadores do século XX: Michel Foucault. A divisão que boa parte de seus comentadores costuma fazer apresenta o arco de seu percurso iniciando-se com a análise das condições arqueológicas dos saberes, passa pela analítica genealógica das relações de poder e fecha com o interesse pelas formas por meio das quais os sujeitos se constituem. Não à toa, Foucault é lembrado como aquele que colocou em questão a psiquiatria, as ciências humanas, a sociedade disciplinar e as práticas antigas de cuidado de si.
Porém, é fundamental lembrar que a relação de Foucault com as artes também é uma das marcas de sua produção. Bastaria lembrar, apenas à guisa de exemplo, da deslumbrante análise de Las meninas, da ligação estético-filosófica com René Magritte e da curiosidade com o experimentalismo erudito do maestro Pierre Boulez. Nesse sentido, é importante recordar também que Foucault manteve uma ligação intensa com a literatura, e que ela ocupou um lugar particularmente caro em seu pensamento.
Foucault faz parte de uma geração de pensadores para os quais o capitalismo era um sistema sem fora. Se, para a geração anterior, era preciso tomar partido entre as três grandes maquinarias sociopolíticas que disputavam a internacionalização global desde as primeiras décadas do século XX – o fascismo, o capitalismo e o comunismo –, para ele, e para parte considerável de seus contemporâneos, a questão era outra. Tratava-se, em suma, da disposição paradoxal de buscar o fora daquilo que não tem fora. Autores como Gilles Deleuze e Felix Guattari entenderam que talvez essa disposição pudesse ser ativada na experiência esquizo. Foucault, ao menos em certo momento, vislumbrou essa possibilidade no espaço literário.
Um exemplo decisivo disso é o livro sobre Raymond Roussel publicado em 1963. Longe de apresentar uma interpretação convencional, Foucault procura compreender os procedimentos formais e metodológicos que estão na base de sua escrita: jogos de palavras, aproximações sonoras, mundos distintos que surgem de pequenas diferenças e produzem uma cadeia inesperada de significações. Sob a pena foucaultiana, a literatura de Roussel evidenciava que, diferentemente do que pretendia Aristóteles, as palavras não possuem uma relação direta e natural com as coisas. Entre a linguagem e o real, existe um intervalo no qual se abre um espaço de invenção, deslocamento e estranhamento. Esse espaço era, para Foucault, o espaço literário.
Assim, Roussel interessa a Foucault porque sua literatura permite pensar uma linguagem que produz efeitos próprios dobrados em si. A literatura deixa, assim, de ser uma representação – uma reapresentação – do mundo. Hölderlin, Mallarmé, Flaubert, Julio Verne e Breton, juntamente com Georges Bataille, Maurice Blanchot e Pierre Klossowski são, ao lado de Roussel, para Foucault, outros autores que permitem definir a literatura moderna como aquela que forja um modo de linguagem já não limitado a representar o mundo a partir e através de um eu cartesiano garantido e seguro de si. Por isso, chamavam sua atenção obras que exploravam experiências-limite como, por exemplo, a morte, a transgressão, o erotismo e a loucura. O que há nessa literatura é uma crise da ideia tradicional de autor e, consequentemente, do desfazimento de qualquer sujeito originário e de qualquer ordem garantida: transfiguração, mais do que reconhecimento.
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“Entre a linguagem e o real existe um intervalo no qual se abre um espaço de invenção, deslocamento e estranhamento. Esse espaço era, para Foucault, o espaço literário.” – Danichi Hausen Mizoguchi
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Jorge Luis Borges é outro autor que ocupa um lugar decisivo na biblioteca foucaultiana. A análise do conto O idioma analítico de John Wilkins não apenas abre o prefácio de As palavras e as coisas como é declaradamente o dínamo que levou Foucault à escrita do livro – é nas primeiras linhas desse mesmo prefácio que ele afirma que a obra nasceu do riso promovido pelo texto do escritor argentino. O que impressiona Foucault é a classificação fantástica dos animais, cuja organização rompe com os critérios habituais pelos quais os seres são ordenados. A estranhíssima taxonomia supostamente retirada de uma enciclopédia chinesa contém categorias como pertencentes ao imperador, cães em liberdade, inumeráveis, desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo – e é disso que Foucault ri, e é isso que impele Foucault à escrita de um de seus livros mais importantes, belos e difíceis.
Além do riso, ou melhor, junto ao riso, o efeito dessa classificação é produzir um estranhamento diante daquilo que parece evidente: as categorias que utilizamos para organizar o mundo – ou, em outros termos, a nossa ordem das coisas. Com esse texto, Borges permite que Foucault perceba que toda ordem é artificial, e que aquilo que consideramos racional, natural ou necessário sempre dependerá de determinadas condições de possibilidade. A literatura funciona, nesse contexto, como uma experiência capaz de desestabilizar as formas familiares de pensamento, fazendo aparecer o caráter contingente dos sistemas de classificação e das relações entre as palavras e as coisas. Torna-se, portanto, uma espécie de máquina de estranhamento de nós mesmos.
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“Se há um Foucault leitor que impacta diretamente nos conceitos por ele criados, é imperativo perceber que há também um Foucault escritor para quem a forma textual não é em nada secundária em relação ao conteúdo.” – Danichi Hausen Mizoguchi
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Há, portanto, um impacto óbvio da produção literária na construção conceitual de Michel Foucault: muito especialmente nos anos 1960, ela funciona como matéria-prima para uma parte considerável de seus livros. Porém, há também um modo foucaultiano de escrita que funciona quase como condição para que a teoria se expresse a contento. Em outros termos: se há um Foucault leitor que impacta diretamente nos conceitos por ele criados, é imperativo perceber que há também um Foucault escritor para quem a forma textual não é em nada secundária em relação ao conteúdo.
Seu estilo oscila como seus métodos e objetos. Nos primeiros livros que publicou, por exemplo, especialmente em História da loucura e As palavras e as coisas, percebe-se uma construção frasal serpenteante, com os volteios tipicamente franceses e uma prosódia sedutora, lenta e exigente. Posteriormente, marcadamente desde a publicação de Vigiar e Punir, e acentuadamente nos dois últimos volumes de História da sexualidade, vê-se uma textura mais próxima da redação clássica estadunidense, com frases curtas e precisas de um estilo que em muitos momentos pode fazer lembrar a pena de Ernest Hemingway.
A entrevista O belo perigo, concedida ao crítico literário Claude Bonnefoy, é o momento em que Foucault desenvolve com maior atenção o tema do estilo. Desde o início, Bonnefoy conduz a interlocução nessa direção, deixando claro que o que interessava naquela conversa era a relação de Foucault com a escrita. O entrevistador declara-se impressionado com um pensamento analítico preciso e penetrante sustentado por um texto cujas vibrações não são exclusivamente de um filósofo, mas revelam, também, um escritor, e afirma que o pensamento foucaultiano, stricto sensu, é inseparável de uma cadência. É como se em Foucault, diz Bonnefoy, a forma da frase participasse da própria construção do pensamento. Há, portanto, uma espécie de materialidade textual – uma textura do texto – que colabora para que Foucault seja o autor que é.
Nesse sentido, as imagens metafóricas do veludo e do bisturi funcionam como sínteses de sua estilística. Foucault observa que os leitores costumam imaginar em sua escrita certa agressividade, mas que não reconhece essa violência em seus textos: escrever era uma atividade tão suave e discreta que dava, em muitos momentos, certa impressão de veludo. Porém, em um segundo momento, admite que aqueles que encontravam mordacidade e secura em seus textos é que tinham razão. De modo quase confessional, declara que talvez restasse em sua caneta a herança do bisturi afiado utilizado pelo pai e pelo avô, ambos médicos-cirurgiões, e que, assim, redigia seus textos como um anatomista que realiza uma autópsia.
As imagens dos materiais, mais dialéticas do que contraditórias, funcionam como condensação metafórica da poética foucaultiana: a suavidade e a sensibilidade, o corte, o risco e a ruptura. Na literatura, afinal, a beleza nunca foi o oposto do perigo. É justamente nessa tensão entre delicadeza e violência que a escrita encontra sua força de desestabilização. Escrever, nesse sentido, é escavar o que parecia intocável e abrir, na superfície do familiar, uma possibilidade de desvio. O escritor foucaultiano é, assim, uma espécie de artesão sensível do estranhamento.
A relação de Foucault com a literatura nos lembra que ler e escrever são maneiras distintas e complementares de colocar em risco as formas estabelecidas de pensar, falar e ser. Ao deslocar os limites do que pode ser dito e pensado, a literatura abre espaço para outras experiências de subjetivação. O espaço literário, tanto teórico quanto ficcional, é, assim, foucaultianamente, um dispositivo de transformação de nós e do mundo. Se, na famosa definição de Italo Calvino, um clássico é aquele que ainda não terminou de dizer o que veio dizer, é nos pontos de toque entre Foucault e literatura que se encontra um dos legados mais fecundos a serem celebrados e ativados no centenário de seu nascimento.
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