Pular para o conteúdo
Colunas

Carolina Maria Firmina: Provérbios-sinais

No QUILOMBUROBORO IV, reflexões sobre os provérbios-sinais de Carolina e Maria Firmina, resenha em fragmentos de "Ver e não ver a Palestina" e entrevistas com Shajara Bensuam e Moysés Pinto Neto

CAROLINA MARIA FIRMINA: PROVÉRBIOS-SINAIS

“A fome é amarela“, Carolina Maria de Jesus

escreveu este conceito extremamente complexo  que remete à filosofia da linguagem do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein onde  as cores não são apenas objetos físicos ou sensações puras, mas regras de uso na linguagem e o  uso das cores serve para testar o que tem sentido ou não na nossa forma de falar e de viver. Dizer que a fome é amarela é uma forma de associar a fome ao espectro solar, sabemos que a cor do Sol é o branco e que ela se torna amarela por causa da atmosfera terrestre. O que quero dizer com isso? Existem diversas formas de fome, diversos tons do amarelo criados por nossa atmosfera derivada do branco solar, contudo infinitamente maior do que o branco do Sol ou do que o amarelo da fome É A MATÉRIA ESCURA. A matéria escura é uma substância invisível que compõe cerca de 85% da massa do universo. Ela não emite ou reflete luz, mas sua presença é conhecida por causa da força da gravidade que ela exerce sobre  todas as galáxias.

“A mente essa ninguém  consegue escravizar“, Maria Firmina dos Reis

Em toda sociedade, mostra Espinosa, trata-se de obedecer, e nada mais; por isso as noções de falta, de mérito e demérito, de bem e de mal, são exclusivamente sociais, e referem-se à obediência e à desobediência. A melhor sociedade será portanto aquela que isenta o poder de pensar do dever de obedecer, e em seu próprio interesse se resguarda de submetê-lo à regra do Estado, que apenas vale para as ações. Quando o pensamento é livre, portanto vital, nada mais está comprometido, quando deixa de o ser, todas as outras opressões são também possíveis, e uma vez realizadas, qualquer ação se torna culpável,e  toda vida ameaçada. 

Gilles Deleuze em Espinosa e os signos

A escravização da mente se dá por noções de obediência aos regimes do consumismo, empreendedorismo  e ao regime neoliberal que contaminaram todas as esferas da sociedade e todas as vertentes políticas, o empreendedorismo exige a obediência a ações de conversão do pensamento e ações do pensamento em  produto e negócio, da subjetividade em produto e negócio, algo similar ao que acontecia com os escravizados e escravizadas mas em uma chave que exige uma forma de servidão mental,  o neoliberalismo que incentiva enfaticamente o empreendedorismo, que foi criado como reação contra a o Estado de Bem estar social, contra o estado social   visa também a criação de castas servis intermediárias entre a dos antigos escravizadores e as outras castas exploradas de modo fiscal jurídico econômico, leia-se impostos e boletos. No sistema editorial, no sistema cultural predomina o regime neoliberal empreenderorista que visa a conversão de todos os seres viventes que se expressam através da escrita imaginativa poética ou não em MARCAS E EMPRESAS para melhor explorá-los e melhor controlar suas criações. A essa situação e contexto chamo de ESCRAVIZAÇÃO DA MENTE promovida pelo regime mundial  de castas descendentes de escravizadores que compõe hoje a minoria dos ricos milionários e bilionários do planeta. o regime neoliberal empreenderorista tem como meta a privatização do ar, da água, do tempo e de do ser e a sujeição de todos os corpos às leis do mercado.

“A mente essa ninguém consegue escravizar”. Então o que está acontecendo, Mestra Maria Firmina dos Reis? A escravidão voluntária?

(Texto lido na FLIPEI 2026)

“COMO PENSAR COM GAZA” –  RESENHA EM DEZ FRAGMENTOS

Escrita com a escritora e psicanalista Priscila Frehse

“Como ler e contar uma história não terminada? Se o paradigma é o da ruína, como escrever se não em fragmentação? Como cada um reage diante do que? Gaza é bombardeada, wiped off – varrida do mapa de quem? Como transformar o imperativo contemporâneo do ver na possibilidade de olhar?Por que continuar quando surge essa frase estarrecedora e abissal: “para que serve ainda o mundo?”Teria sido Huxley profético mais uma vez? É preciso mesmo o recurso da língua imperial para ser escutado? Qual eu sobreviverá? Qual homem ele será? Mas e os homens, aqueles que também pegam em armas para lutar? Por que mesmo que tudo não parou? Qual a zona de interesse em jogo?Seria o vendado aquele que teria visto demais? Qual a natureza do silêncio em torno da questão Palestina? Por que o jovem Mosul, que narra ter sido torturado pelo Estado Islâmico e pelas forças iraquianas, esconde os olhos da câmera de um jornalista de guerra? Recusa em se desmontar – o que violaria mais uma vez a honra inscrita nos olhos do pesadelo? Ou ainda, recusa do voyeurismo de um terceiro que capta o trauma sem filtro e congela a violência em sua brutalidade? 

O mundo inteiro viu e sabe; por que o silêncio já que as imagens são traduzidas pela mídia, por intelectuais, por civis e governos? Seria a escala incomparável da violência, em termos de sua intensidade e imediatismo, o que nos impede de formar uma narrativa de condenação, de nos mobilizarmos coletivamente? É a violência que corrói o discurso e o impede? De que ordem é o silêncio que não funda lugar para ser inscrito? Poderia a escrita fragmentária se aproximar da catástrofe? Pode o fragmento falar dos corpos dilacerados? Por que nenhuma imagem de corpos mortos e feridos nos ataques de Onze de Setembro nos Estados Unidos foi jamais mostrada, enquanto, em outros eventos catastróficos, é comum veicular de forma massiva corpos dilacerados e em sofrimento? Qual estatuto de figurabilidade e reconhecimento tem cada corpo morto? Não seriam os corpos que são mostráveis  ou não precisamente os mesmos que são matáveis ou não, ou ainda, os que são enlutáveis ou não? 

Estariam os cadáveres palestinos, mutilados para roubo de órgãos, sujeitos a essa mesma lógica? Declarados ausentes, poderiam então ter seus corpos invadidos e roubados, sem autorização, sem consentimento? 

“Vocês podem imaginar começar o dia com o fedor de cadáveres em chamas?”

O que resta nas ruínas? Como traduzir os vestígios do desaparecimento de uma cultura e de seus lugares que foram submetidos a uma experiência de apagamento radical? Como reconhecer a catástrofe e como reconhecer Gaza? 

Não seria essa a condição para sair da fragmentação e começar a narrativa? Isto é, dar corpo e também voz à resistência palestina? 

Atacar as crianças de um grupo social não equivaleria à destruição deste mesmo grupo enquanto tal? Se a criança representa a condição de sobrevivência futura, não estamos diante do aniquilamento do devir coletivo, para além da destruição física de indivíduos? 

Como pensar a noção winnicottiana de holding – essa capacidade de sustentar psiquicamente a criança e meio à tormenta, quando os próprios adultos, atônitos, vivem sob aniquilamento?

Por que essa foto parece ter tocado em algo do comum? Por que, ainda que momentaneamente, ela parece ter produzido efeito de choque e denúncia? 

O que fazer de uma criança cujo futuro não se pode mais proteger? Ainda é possível falar em infância?

E se seiscentos e dez dias depois da última noite em que Gaza dormiu podendo contar com alguma normalidade inconstante da vida cotidiana – (…) – alguém pôde ir dormir sonhando encontrar os doze ativistas da flotilha ao amanhecer? 

E se mesmo sob o barulho ensurdecedor dos drones que não cessam ou dos bombardeios e gritos de fome e de dor, alguém conseguiu dormir sonhando em avistar a embarcação chegando na praia quando o dia raiasse? Será que o pensamento de “e se eles conseguirem chegar”- que fosse por um erro, por uma trégua do inimigo, o que seja – pode ter embalado o sono de alguém em mais uma noite no inferno? 

E se a única materialidade possível em meio ao genocídio for a própria vida? E se a única possibilidade de arriscar-se implica arriscar-se a si mesmo? Quando nenhuma obra de arte é mais possível, seria arriscar a própria vida o único meio para imaginar mais vida?Seria a flotilha uma ideia encarnada? E se o risco de vida puder ser também da-vida? 

 E se o arquiduque Francisco Ferdinando não tivesse sido assassinado? E se a Segunda Guerra Mundial também não tivesse eclodido? E se a declaração de Balfour não tivesse sido assinada? E se os judeus palestinos tivessem se juntado em maioria aos outros árabes palestinos na luta contra o Império Britânico? E se os países árabes não tivessem traído os palestinos? E se a ideologia do Bund tivesse sido predominante na comunidade judaica europeia e não o sionismo? E se as palavras não tivessem sido distorcidas, espremidas, escarçadas ou mesmo desgraçadas? E se o mundo tivesse interrompido a Nakba antes de ela acontecer? E se o sete de outubro de 2026 fosse só um dia como o seis, o cinco e o quatro? 

Se partimos da ideia de que o afeto que emerge da perda é elemento inseparável das condições históricas da subjugação colonial que o roduziu, como pensar, então, na reivindicação histórica pelo direito de retorno palestino? Seria essa uma demanda possível de restituição de um passado perdido, referido a uma posição melancólica? Ou então, trata-se justamente de um novo horizonte para além da lógica temporal e estética imperial em suas formas narrativas? 

Por que mesmo falar no depois se o que está em jogo é o agora?

As perguntas acima estão no livro Ver e não ver a Palestina: ensaio em fragmentação, de Ana Gebrim e Marie-Caroline Saglio-Yatzimirsky, Kipuka Editora, 2026. É um ensaio escrito em fragmentos que pede uma leitura em voz alta para que os silêncios entre um fragmento e outro completem o livro.

Abaixo damos continuidade ao pensar em fragmentação do livro:

  1. A Palestinização do mundo. Um dos efeitos da leitura do livro é um perspectivismo em relação a Palestina, para além das dicotomias perversas, inaugurando a possibilidade de ver além da névoa a partir de uma humanização digna da questão Palestina, que a torna uma causa da humanidade inteira e um nó górdio da política atual com a mesma urgência da questão climática. 
  2. Os afetos. Terror, susto e espanto. O livro desafia a ver a Palestina com envolvimento, ou seja, ser afetado pela Palestina. Um dos entraves para que se veja a Palestina é a negação do terror disseminado pelas forças nacionalistas genocídicas. Diante do genocídio é humano, desde que não se esteja na lógica da recusa dos fatos, ser atravessado por esses afetos perturbadores através da hipervisibilização.  O contraponto ao sensacionalismo que naturaliza o massacre é o envolvimento afetivo. Qual a força política do espanto? Sugerimos esta pergunta em mente na leitura do livro. Um escritor brasileiro pouco lembrado Vicente Franz Cecim, dizia que nós somos seresdespanto. Os genocídios nos transformaram em seresdespanto.
  3. Nó górdio: O estado de terror e massacre, o genocídio como método político é consequência de um não ver institucional naturalizado.
  4. Punctum. Segundo Barthes, o  punctum é um detalhe em uma fotografia que toca, fere ou comove o observador de forma pessoal e inesperada. Um dos fragmentos do livro defende que a foto de Aylan Kurdi, que se espalhou pelo mundo em 2015, foi um fator de ampliação da comoção em relação aos refugiados da região, esse fato anterior  se articula com o problema das crianças como alvo principal do genocídio da Palestina,desde o sete de outubro de 2023, mais de cinquenta mil crianças haviam sido mortas ou feridas na faixa de Gaza. Na foto de Aylan,  vemos uma criança refugiada da guerra da Síria morta, de bruços:

“ Por que essa foto parece tocar em algo do comum? (…) Aylan podia ser o filho de qualquer um e sua morte foi sentida(….) ” (p. 56)

  1. Tempos. Há três tempos no livro: o ver e não ver a Palestina e ser e não ser a Palestina, sobreviver e não sobreviver à catástrofe. Parece que não há como ver e não ver sem ser e não ser. Daí o terceiro: “A partir da fragmentação, a sobrevivência é um fenômeno coletivo que opera nas ruínas e brechas da destruição em sua capacidade transformativa.” (p.20)   
  2. Dois conceitos : Ashla’a e Sumud. Ashla’a é o termo usado pelos palestinos para se referir aos corpos desmembrados, fragmentados, e a própria organização do livro remete a isso, embora outro conceito o de sumud, palavra árabe que significa “firmeza, perseverança e constância”, e se refere à resistência palestina, força coletiva, ativa e cotidiana contra a ocupação israelense seja o principal vetor destes fragmentos escritos no livro. Para quem desejar se aprofundar, recomendamos a leitura em paralelo do livro de Samah Jabr Sumud em tempos de genocídio (Tabla, 2024), também citado pelas autoras. Ferenczi, ao pensar nos efeitos de fragmentação produzidos pelo trauma, em sua dimensão de positividade, pode também trazer sua contribuição para pensar com Gaza. O livro dialoga com os outras psicanalistas como Priscila Santos Souza, Nathalie Zaltzman, Françoise Dolto, Octave Mannoni, Freud, Lacan e Winnicott. 
  3. Duas perguntas: Como as tragédias genocídicas, no tempo, se transformam em forças políticas? Será que é possível exterminar um povo completamente em pleno século XXI? O que o livro diz: “Em um mundo reduzido a pó, são os gestos menores, aqueles altamente simbólicos, que traduzem um desejo de estrutura e continuidade onde reina o caos.” (p. 53) 
  4. O livro  chega ao Brasil no momento em que a extrema direita anti-Palestina se organiza aqui como um anti-Brasil. Não podemos nos esquecer que o Brasil é um país fundado em massacres. 
  1. A mudança na situação da Palestina,  inclui imaginação e risco e implica na solidariedade para além da identificação, como propõe o epílogo do livro escrito com Ana C. Minozzo.
  1. Ver e não ver a Palestina propõe de forma ensaística um exercício afetivo de transmissão e imaginação política radical diante da imensa profusão de imagens do massacre ao associar a luta palestina a tragédia de Antígona e propor uma transfiguração do luto em uma forma de luta coletiva cotidiana persistente em escala global. Existe uma grande exaustão diante da questão e o livro responde a essa grande exaustão com a ideia de uma política imanente dos afetos relacionada ao luto e também à coragem. Ao associarmos o luto com a coragem do envolvimento, em um movimento de parresia, temos a alegria de partilhar a luta pela dignidade humana. No fundo, todas as lutas pela dignidade humana são a mesma luta, seja na Palestina, em um quilombo, em uma favela ou em uma aldeia yanomami.

SOBRE  SPECTROPHILIA: UMA CONVERSA BREVE COM SHAJARA NEEHILAN BENSUAM 

Publicado pela Cultura e Barbárie em 2025 SPECTROPHILIA é um ensaio que é atravessado por uma poética & política da imanência, o livro trata  da presença da ausência dos espectros dentro da tessitura político-social como forças erótico-afetivas. Temos hoje dois passados espectrais em disputa e as forças políticas que nos governam assumem com muita força seu caráter espectral, Shajara Bensuam constrói narrativas polifônicas com camadas poético-ensaísticas capazes de expor estas forças em um campo micropolítico mas não apenas, trata do massacre de  Gaza como uma profunda força afetiva espectral, como uma chave fantasma que nosso tempo ainda não conseguiu girar de uma porta ontológico-política, os ensaios do ensaio de Shajara cobrem um vasto território evocando muitas outras vozes, espectros vivos do pensamento como Deleuze-Guattari, Sloterdjik, Denise Ferreira e outros-outras-outres. “ A vida é um criadouro de espectros. Spectrofilia; expandir a vida pra além do exorcismo dos fantasmas” diz um trecho. “ Deixar que os mortos sejam escutados quer dizer não revesti-los de uma capa totêmica que os põe á serviço dos vivos” diz outro. Trata-se de um dos  ensaios mais importantes publicados no Brasil nos últimos vinte anos. A seguir conversei com Shajara sobre temas do  livro e sobre a atualidade dos espectros.

Marcelo Ariel: Estamos em um regime marcado pela espectrofilia, qual é o papel dos espectros em uma policrise? 

Shajara Neehilan Bensusan: O regime espectrofílico atual é o de uma suspeita acerca do fantasma – um sexo protegido, um sexo cuidadoso para que os assombros sigam tendo a força de um passado estabelecido pelas heranças, pelas tradições, pelas línguas transmitidas, pela cultura estabelecida, pela ordem a ser mantida. A chamada a uma espectrofilia é uma chamada a um derrame: que se derrame o passado para que os abutres que não deixam de chegar possam fazer dele alguma coisa outra que não seja o culto ao que passou como um conjunto de lições fixas, de presenças que se mantêm de uma vez por todas. A policrise é uma crise do passado pronto, fonte de segurança e de uma certa empáfia que está em acreditar que o que se passou não está para jogo.

O problema com a história – esta versão sanitizada da nossa relação meio misespéctrica com os fantasmas – é que ela é contada de uma vez por todas, narrada como se não houvesse entre os contos sempre uns pontos e muitas vezes acompanhada de uma moral da história. A espectrofilia, que está no avesso da história, é a transgressão dela: o tempo é feito de memória, ainda que a memória esteja submetida aos acontecimentos. A espectrofilia é um galope calmo que entende que lembrar tem uma carnalidade.

MA: Se é possível amar um espectro, é possível matar um espectro? 

SNB: Amar espectros, ou fazer sexo desprotegido com eles, indica um cruzamento da fronteira entre dois lados da diferença que eu chamo de espectral, aquela entre os vivos e os mortos. Trata-se de uma transgressão da ordem que separa quem está à mercê de um tempo que corre do início ao fim de um lado e quem habita a intermitência do outro.

 Como o tempo é o mesmo, mas mistrurado de duas maneiras diferentes, a diferença espectral é uma torção, um retorcimento, como pode ser que seja a diferença sexual. Matar um espectro talvez seja fazê-lo viver, arrancá-lo de um lado do correguinho e mandá-lo ao outro; mas se for assim matar um espectro é apenas seguir endossando a linha que torna a vida e a morte inteligível. Amar um espectro é amar sua intermitência, sua não-vida, sua insujeição às regras existenciais da cotidianidade. Se então matamos o espectro trazendo-o para a vida, dissipamos a diferença sexual que no caso é a diferença espectral – dissolvemos o contraste ao invés de habitar nele.

Penso que a diferença espectral estabelece assim uma diferença entre dois tempos, o tempo que vai e o tempo que volta – o tempo do fantasma é aquele do que está intermitentemente a voltar e, se é assim, o fantasma não se vai, não morre, ele volta, se revolta, como um vulto, com uma voltada para trás, uma virada bem como aquela do animal que retorce a cabeça para olhar para trás. Amar um espectro é acolher esse outro tempo que não anda em marcha ré porque não anda, retorna, surge de volta – e sempre em volta, sempre às voltas. O espectro não paira senão nas ocasiões. Mas são elas as que cada vivente atravessa no meio de suas apreensões que muitas vezes são assombradas pelo intento de permanecer fiel à casta – ou ao povo – dos vivos.

MA: Qual é hoje o centro dos seus estudos? 

SNB: Me interessa estudar o acontecimento como um veredito. Assim se deu, assim fica dado. Há um irreversível, um golpe de força no que acontece. Esta força é o que inspira o domínio humano, aquilo que de uma vez por todas se resolve por uma alternativa entre muitas ao invés de proliferá-las, disseminá-las, torná-las mais múltiplas. Tenho encontrado essa preferência pela abundância – e também esse horror ao comezinho dessa terra imperfeita mórbida – no pensamento selvagem, em particular em algumas noções guarani-mbya como a de desdobramento, a de desdobrar-se, como em uma cissiparidade que colapsa o um em mais de um. Os espectros são a contraparte múltipla do mundo do acontecimento – que é mesmo o mundo da cotidianidade – já que eles são alheios à resolução que é produzida no acontecimento. Ou, pelo menos, são aqueles que sobram depois que o acontecimento passa e perde o vigor.

MA: O que você jamais pensou? 

SNB: Muitíssimas coisas eu jamais pensei, nem saberia nomeá-las, nem saberia responder a pergunta. Você é que pode respondê-la. Meus impensados estão no que eu penso, mas estão apenas se vistos pelos olhos dos outros, pelos olhos que tem um rítmo que em que eu não consigo batucar.

Shajara Neehilan Bensusan – É titular do departamento de filosofia da Universidade de Brasília, ensaísta e performer.

QUATRO PERGUNTAS PARA MOYSES PINTO NETO

Moysés Pinto Neto autor de POLÍTICA ESPECULATIVA ENSAIO SOBRE AS IMAGENS DE FUTURO EM DISPUTA NO SÉCULO XXI ( Editora Cultura e Barbárie)   livro que de alguma forma tenta e consegue  mapear a política no presente com seus diversos mapas imanentes a partir de uma filosofia da diferença ou das diferenças, desse presente com seus inúmeros genocídios e tensionamentos e disputa de passados. 

Marcelo Ariel: Na imensa e violenta disputa entre dois passados, como faríamos para chegar ao presente como uma força mutacional?

 Moysés Pinto Neto: Recuperar a presença parece ser uma tarefa do nosso tempo. Depois da desconstrução e sua legião de espectros, que subverteu o valor autoritário do presente, parece que caímos em um mundo da dispersão, traduzido pela falta de atenção nas redes. Gosto de pensar com Tsing, Haraway e outras em uma ecologia da atenção, algo que possa nos livrar da ideia de que precisamos definir o mundo como um ponto zero a ser transformado. Nesse sentido, uma revolução não seria mais uma refundação desde a terra arrasada, mas um novo regime de atenção menor, em que poderíamos observar e viver o que já temos enquanto possibilidades tópicas, não utópicas nem distópicas. Se quiserem, heterotópicas.

MA: Quais seriam as linhas de força micropolíticas de hoje?

MPN: Procurei mapear isso na teoria dos cosmogramas. De alguma forma, cada vetor cosmogramático, supremacismo, digitalismo, edenismo e indígenas, constitui também uma linha de produção da subjetividade.

MA: É possível uma convergência de lutas e em caso afirmativo sob quais instâncias ela se daria?

MPN: Não estou na vanguarda para definir o rumo dos movimentos. Acompanho-os como coadjuvante, contribuindo na medida dos meus possíveis. De todo modo, entendo que uma das principais condições para a aliança entre as lutas é o reconhecimento da sua heterogeneidade, seu tratamento não baseado na unificação, mas na composição. É preciso construir uma aliança como colcha de retalhos, reservando espaço à alteridade, sem definir um único vetor de subjetivação, uma luta prioritária, um único líder ou um único projeto. Aprender a fazer conviver espaços-tempo distintos, mas identificando pontos de convergência que permitem o enfrentamento das forças que os desejam aniquilar.

MA: Qual é o papel dos devires utópicos nos dias de hoje?

MPN: Ficou célebre o diagnóstico de Fisher da nossa crise como crise de imaginação. Sem dúvida. Por outro lado, não se trata de reinventar tudo desde o nada, mas de compor com os experimentos que já crescem nas frestas, permitindo que, como fungos, tomem conta do território. O sentido de utopia para mim é menos de um projeto e de um planejamento prévio que uma espécie de movimento de cupim, que vai comendo a madeira por dentro.

Moysés Pinto Neto é ensaísta e  professor visitante do Programa em Literatura da UFSC, doutor em Filosofia (PUCRS) e editor do canal Transe no Youtube. Escreve textos sobre futuros, filosofia especulativa, cosmologias, antropoceno e tecnologias digitais. 

Continue lendo

Relacionados

Colunas

Deus ao alcance das mãos

Deus está ao alcance das mãos quando tocamos as asas do vento, quando estendemos as palmas para o pouso da folha e abrimos a…

Por Antonio Arruda · setembro 14, 2026
Colunas

Marcílio chegou lá!

Se você não presta atenção aos Homo Restus ao seu redor, deveria. Eles definirão as eleições em outubro.  Arte: “Sozinho na multidão”, de Rubens…

Por Breno Botelho · setembro 9, 2026

APOIE O ODISSEU

Ajude a manter nosso conteúdo editorial independente.

O Odisseu é uma publicação independente dedicada a livros, ideias, crítica e cultura. Seu apoio ajuda a sustentar nosso trabalho editorial e a continuar produzindo conteúdo.

Apoiar o O Odisseu