Quem é de terreiro sabe, e quem não é, já deve ter ouvido dizer: sem Exu não se faz nada. Princípio, meio, fim e de novo o começo e assim por diante ou para trás. Dínamo do universo, instaura o caos para que se busque a ordem. Interna e externa. É aquele que provoca, aguilhoa, cutuca, instiga. Aquele que brinca com o tempo, que movimenta matérias visíveis e invisíveis, que faz da encruzilhada uma de suas moradas e nela nos convida às escolhas. O livre-arbítrio, a partir da presença e da energia de Exu, torna-se convocação para a ética.
É por escolher estar do lado esquerdo do caminho; por escolher me manifestar e, quem sabe, lançar uma fagulha na noite dos assombros políticos que cada vez mais se armam contra nós; é por escolher a palavra como forma de forjar possibilidades de reflexão, resistência e enfrentamento que escrevo este texto.
Recolho 13 dos epítetos e orikis1 presentes no livro Exu e a ordem do universo2 (Editora Oduduwa, 2011), de Síkírù Sálámì (King) e Ronilda Iyakemi Ribeiro – obra que recomendo de olhos abertos e alertas -, para, atravessado por eles, movimentar, com o axé de Exu, desejos de continuidade, manutenção e expansão de um sonho que já é real. E que pode continuar a ser.
Àjígìdán-irin: nome que faz referência à invencibilidade de Exu, que não perde uma única disputa.
Alágbára: aquele que influencia a vida das pessoas para que sejam mais fortes.
Alángájígá: aquele que promove o crescimento humano.
Arábándé: aquele que chega com todo o vigor de sua natureza.
Atẹ̀lé Ẹlẹ́dàá: aquele que atrai condições para a realização de um destino feliz; aquele que não abandona o homem nos momentos difíceis; aquele que mostra ao homem o caminho e protege o seu ori.
Ẹlẹ́gbà, Lẹ́ẹ́gbáa: aquele que concede poder ao homem para que seja bem-sucedido.
Ìwà: aquele que tem caráter e personalidade e influencia o caráter e a personalidade das pessoas, através do fortalecimento de suas virtudes.
Láafíyàn: forma de evocar Exu para realizar pedidos especiais, desfazer confusões, esclarecer dúvidas.
Làálú: aquele que harmoniza a cidade ou a comunidade.
Láaróyè: aquele que é louvável; aquele cujo nome é sempre lembrado; aquele que confere sentido à vida.
Láarúmọ̀: senhor da sabedoria e dos caminhos da vida; aquele que tem o poder de unir.
Olùlànà: dono dos caminhos abertos; […] aquele que transmite o conhecimento e a sabedoria necessários à realização de um bom destino.
Onílè-oríta: guardião das casas, das cidades e dos espaços físicos; divindade que habita as encruzilhadas. […] Nas encruzilhadas os caminhos se cruzam dando lugar a novas possibilidades.
Enquanto escrevia e lia em voz alta cada palavra em iorubá, pensava: qualquer movimento, mínimo que seja, quando vem do âmago da vontade, pode soar e reverberar como o vento que alimenta a vela do barco, a chama da vela da fé e da consciência, vento que agita as folhas da árvore cujos frutos podemos continuar a colher. Qualquer movimento, mínimo que seja, neste instante de necessária e urgente manifestação daquilo que queremos para o nosso futuro, qualquer movimento pode mobilizar uma, duas, três, treze, uma multidão de escolhas e decisões. Éticas. Aqui. Agora. Em tempo.
- A palavra oríkì, composta de orí, origem, e kì, saudar ou louvar, significa saudar ou louvar o ori ou a origem daquele a quem se refere. (Nota retirada de “Exu e a ordem do universo”, pág. 141). ↩︎
- Exu e a ordem do universo. Síkírù Sàlámì (King); Ronilda Iyakemi Ribeiro. São Paulo: Editora Oduduwa, 2011. Os trechos grafados em itálico são epítetos e orikis retirados do capítulo 4 da obra citada, “Natureza e ação de exu”, páginas 141 a 145. ↩︎
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