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Deus ao alcance das mãos

Deus está ao alcance das mãos quando tocamos as asas do vento, quando estendemos as palmas para o pouso da folha e abrimos a boca desejosa por nacos de nuvem e estrelas da manhã.

Arte: ‘Aceita?’, fotoperformance de Moisés Patrício (Reprodução).


Para Isadora Krieger

Na maior parte do tempo, Deus está ao alcance das mãos.

No arco do céu que azula o dia, no orvalho onde os primeiros raios do sol prismam o instante em que os olhos despertam. Nos pés que sustentam o corpo, nos passos que colhem a memória da terra.

Deus está ao alcance das mãos quando tocamos as asas do vento, quando estendemos as palmas para o pouso da folha e abrimos a boca desejosa por nacos de nuvem e estrelas da manhã.

Ao meio-dia, no pino do sol, Deus está ao alcance das mãos.

No suor que escorre no rosto, na língua lambente do sal, no mínimo gosto, delicado sabor de si.

Nas sombras que o flamboyant faz sobre o chão, Deus está ao alcance das mãos. Brincam sobre elas a criança e o ancião, enquanto na copa a ave também vermelha agudiza no piado o calor da tarde

e a formiga carrega um pedaço de flor em seu corpo abrasado.

Na maior parte do tempo, Deus está ao alcance das mãos.

Quando o ocaso nos olha de soslaio e a piscadela da noite anuncia que Vênus nasceu no céu.

Olhas o céu?
Vês como ele está perto?
Vês que nele todo templo é etéreo?
Que todo relâmpago é a escrita da reza?
Que todo trovão é palavra em profecia?
Que todo intervalo de estrondo é onde o silêncio habita o Mistério?
Que todo Mistério é o olho esquerdo do divino
e no direito o poema tece o ninho
onde o pássaro onírico choca o ovo de ouroboros?

Na maior parte do tempo, Deus está ao alcance das mãos.

Desde o fim ao princípio e seu avesso. Desde o avesso do início e o recomeço do que finda. Desde a vida que se esvai em partículas e avoluma o sussurro das vozes dos que se foram.

Deus está ao alcance das mãos, na maior parte do tempo, no grafite das rochas metamórficas

e do lápis: pó, argila e água

dá forma ao texto e, à sua imagem e semelhança,

erige na página o testemunho da fé.

Não a cega, mas aquela que tudo vê.

Vês?