
Jonas Maria: “Durante muitos anos, os únicos livros com autoria trans eram autobiografias”
Em entrevista para O Odisseu, Jonas Maria fala como é trabalhar com literatura na internet, conta detalhes sobre seu clube de livros e como foi concorrer a um dos prêmios literários mais tradicionais do país, dando ênfase ao desejo de colaborar com sua comunidade.
Foto: Divulgação.
Jonas Maria é formado em Letras pela UFSJ (Universidade Federal de São João del-Rei), escritor e criador de conteúdo. Publicou seu primeiro conto em 2018, na coletânea #OrgulhodeSer, da Rico Editora. Depois, participou das antologias Vozes trans, da Se Liga Editorial, e Todos somos perigosos, publicada pelo selo Hecatombe da Editora Urutau. Como criador de conteúdo, integra o time da Dia Estúdio e dedica parte do seu trabalho à literatura.
A partir da relação com os livros, Jonas criou o Texto Junkies, clube literário voltado à discussão de obras com protagonismo trans. A ideia surgiu depois que ele percebeu que nunca havia lido uma obra de ficção escrita por uma pessoa trans. Criado em 2021, o clube é gratuito e reúne leitores de todo o país em encontros online. Desde então, já foram lidas mais de 38 obras e, em 2024, o projeto foi semifinalista do Prêmio Jabuti na categoria Fomento à Leitura.
Em entrevista para O Odisseu, Jonas Maria fala como é trabalhar com literatura na internet, conta detalhes sobre seu clube de livros e como foi concorrer a um dos prêmios literários mais tradicionais do país, dando ênfase ao desejo de colaborar com sua comunidade. Ele relembra o primeiro contato com os livros de Letícia Lanz e João W. Nery e analisa o que tem mudado ao longo do tempo na representação de personagens trans.
“Nunca imaginei que poderia trabalhar com literatura fora da sala de aula”, diz Jonas Maria
Literatura é um dos assuntos abordados no seu canal do YouTube. Como tem
sido trabalhar com livros na internet?
Nunca imaginei que poderia trabalhar com literatura fora da sala de aula. Me formei para ser professor e, quando comecei na criação de conteúdo, eu ainda não tinha essa pretensão, até porque, eu iniciei de maneira muito experimental e documental, eu estava apenas compartilhando minha transição de gênero, registrando as mudanças, refletindo sobre elas e passando informações para outras pessoas trans, pois era assim que fazíamos por volta de 2011-2018, período em que era bem difícil encontrar bons profissionais de saúde que fossem minimamente informados e não tivessem uma visão patologizante sobre ser trans. Muitos de nós aprendemos a nos hormonizar com base na experiência de outras pessoas, por exemplo. Falar de literatura e refletir sobre personagens e autorias veio depois, quando as pessoas que me acompanhavam online começaram a perguntar como eu via certas representações, qual era minha opinião sobre determinado personagem e afins. Desde então tenho trabalhado com palestras para universidades, consultoria para projetos, divulgação com editoras e, nos últimos tempos, com autores trans independentes. É bastante satisfatório poder ganhar dinheiro com algo que não só eu gosto, mas também que me traz um senso de propósito. Para além desse recorte trans, penso que hoje em dia a internet tornou mais possível trabalhar com literatura para muitas pessoas. Se antes a maioria de nós estava limitada à sala de aula ou aos jornais, hoje há mais possibilidades. Vejo não só outros amigos influenciadores vivendo disso, como também pesquisadores e doutores criando suas próprias empresas de cursos online totalmente focadas em literatura. “A Book A Month” e “Livre Literatura” são dois exemplos que eu gosto muito. Há também vários clubes de leitura que são pagos e muito bem-sucedidos. Não diria que trabalhar com literatura online é o nicho lucrativo possível, são muitos os desafios, mas é definitivamente possível.
O que é o Texto Junkies e quando decidiu criá-lo?
O Texto Junkies é um clube literário que surgiu quando eu me dei conta de que, apesar de ter cursado Letras e, naquela época, já me entender trans há 8 anos, eu nunca tinha lido um livro de ficção escrito por uma pessoa trans. Perceber isso foi bastante chocante para mim. Durante muitos anos, os únicos livros com autoria trans eram autobiografias. O que é bastante simbólico quando você pensa sobre: quando escrevemos sobre nós, escrevemos sobre nossa dura realidade. Por quê? É como se o estigma e a violência nos impedissem de fabular outras realidades, de imaginar novos mundos, afinal, há outras urgências em jogo. O preconceito e a falta de visibilidade certamente também contribuíram para delimitar quais histórias poderiam ser contadas e quais eram interessantes ao mercado. Enfim, meu incômodo com a falta de leituras me levou a criar o clube e percebi que o mal-estar era compartilhado com os meus: imediatamente mais de 800 pessoas entraram nos primeiros dias. O primeiro livro que lemos foi Stone Butch Blues, do Leslie Feinberg, que um grupo de tradutores independentes havia recém-traduzido e me enviado.
Como funciona o clube e como tem sido os encontros?
O Texto Junkies é um clube gratuito, aberto para qualquer pessoa que queira participar, seja cis ou trans. Temos um grupo no Discord para conversar, debater obras, sugerir livros e fazer nossos encontros. Não somos um grupo de estudo, portanto não lemos livros teóricos, apenas biografias e ficções que tenham sido escritas ou protagonizadas por pessoas trans. Eu gosto de estabelecer um cronograma bem simples e acessível de leitura, são no máximo 10 páginas por dia. A depender do tamanho do livro, nos encontramos de 1 a 3 vezes. Talvez pareça pouco, mas, desde 2021, já lemos mais de 38 obras. Alguns livros têm adaptações cinematográficas, então gosto de promover uma sessão de cinema para assistirmos e podermos comparar. Fora isso, já realizamos alguns encontros com autores nacionais, como com o Lino Arruda e o Kael Vitorelo. É um ótimo espaço de trocas e, por ser online, há pessoas do Brasil todo, o que torna as discussões ainda mais ricas e acaloradas, pois há uma grande diversidade de experiências e visões sobre os assuntos. Em 2025 realizei o primeiro café literário presencial, o Caio Jade, doutor em literatura pela USP e pesquisador de autobiografias trans, fez uma fala sobre o “Prazer do Texto Trans”, foi absolutamente incrível e ainda conseguimos arrecadar 87 livros de doação para a biblioteca da Casa 1, uma ONG LGBT+ de São Paulo. Gostei muito do encontro presencial, mas minha prioridade é o online por ser acessível a mais pessoas. Para saber quais livros serão lidos, quando serão os encontros e como acessar o grupo, as pessoas seguem a página do clube no Instagram: @textojunkiesclub.
“Pessoas cis ainda não conseguem escrever sobre pessoas trans”
Como foi ser semifinalista do Prêmio Jabuti, uma das premiações literárias mais
tradicionais, na categoria Fomento à Leitura, em 2024?
Foi absolutamente inesperado, não imaginei que o clube ficaria entre os semifinalistas. Sem dúvidas uma grande honraria estar entre os selecionados em um prêmio tão prestigioso como o Jabuti. Como contei anteriormente, o projeto do clube é muito simples e surgiu do meu próprio espanto em nunca ter lido uma ficção trans, então mesmo sem ganhar, fiquei feliz com o reconhecimento, pois meu desejo é poder colaborar com a minha comunidade, lendo e divulgando suas obras, assim como auxiliar outras pessoas a também construírem repertórios mais diversos e a fomentarem o hábito da leitura.
Quando foi seu primeiro contato com autorias trans?
Meu primeiro contato foi acadêmico, com alguns artigos científicos. Creio que o primeiro livro tenha sido O corpo da roupa, da Letícia Lanz, fruto da sua pesquisa de mestrado. Na época, eu estava na faculdade e ainda estava me entendendo como trans, então buscar teoria fazia sentido para mim, considerando o contexto em que eu estava inserido. O livro da Letícia, inclusive, foi um ótimo primeiro contato, pois ela trabalhava a transsexualidade a partir de uma perspectiva social, e não biológica, afastando-se ainda mais de uma visão essencialista e patologizante, que predominou durante muito tempo na literatura acadêmica e que pouco me interessava. Foi também na universidade que eu li minha primeira autobiografia trans, Viagem solitária: memórias de um transsexual 30 anos depois, do João W. Nery, que foi um grande nome do ativismo transmasculino. Tive o prazer de conhecer o João pessoalmente, pois ele deu uma palestra na minha faculdade, a UFSJ, assim como a Letícia, que conheci alguns anos depois em São Paulo. Ambos foram muito importantes para mim nesse período.
O que tem mudado ao longo do tempo na representação de personagens trans
na literatura?
Quando as pessoas trans passaram a contar suas histórias a partir dos seus próprios termos, a literatura ficou mais interessante. Não sou o tipo de pessoa que acha que pessoas cis não possam escrever sobre pessoas trans, afinal, estamos falando de arte, mas, pelo que eu li até aqui, eu acho que elas ainda não conseguem. Até agora, persiste uma visão superficial e estereotipada do que é ser trans, de como pessoas trans se relacionam consigo mesmas, com seus corpos, com os outros e o que a transgeneridade tem a falar para o mundo, sobre o mundo e como ela afeta suas estruturas. Personagens que se odeiam, frases clichês e enredos previsíveis ainda são predominantes, brincamos que são “histórias para cis dormir”, mas hoje em dia temos escritores trans com obras com representações muito mais elaboradas, que mostram nuances, complexidades e que se utilizam da nossa própria cultura para construir uma boa história. Temos excelentes livros nacionais, por sinal, como Neca, da Amara Moira, que traz um romance todo escrito em pajubá que dialoga com a nossa literatura brasileira, assim como o quadrinho Cisforia, do Lino Arruda e do Lui Castanho, extremamente sarcástico e com diversas referências e piadas internas.
Você possui alguns contos publicados em antologias e também mantém a coluna “textículos” no seu site. Pretende publicar um livro de sua autoria? Possui algum projeto em andamento?
Meus textículos foram escritos quando eu estava nos anos iniciais da minha transição, penso que foram uma forma de expressar poeticamente o que eu estava pensando e sentindo. Alguns dos contos são da época da universidade, mas é uma pena que a nossa formação em Letras não busque desenvolver a escrita criativa dos estudantes. Conheci muitas pessoas que entraram no curso querendo ser escritores e, por fim, desistiram, é um relato bastante comum. No momento não tenho nenhum projeto de livro em andamento, minhas prioridades atuais são outras, embora eu tenha sim algumas ideias do que escrever. Quem sabe no futuro eu as coloque em prática!

