Coluna Escrevernar

Com quantos silêncios se faz uma história?

Inventário de um Silêncio, de Sandra Godinho, nos obriga a olhar para aquilo que a história tentou soterrar.

Arte: Página dupla do livro Para-ninguém-e-nada-estar, da série Diários públicos (2006-2010), da artista visual e poeta brasileira Leila Danziger. Reprodução.


No ensaio Procurar uma frase, o poeta e ensaísta francês Pierre Alferi declara: “As frases da literatura não são descritivas, elas são instauradoras.” (p. 25). Em Inventário de um Silêncio (Litteralux, 2026), Sandra Godinho deixa claro que suas frases não apenas dizem algo, mas instauram aquilo que narram e, como também explica Alferi, recolhem o passado fraseando. E é justamente por meio desse frasear que a autora revolve um passado que, embora pertença à história recente do país, permanece repleto de lacunas, silêncios e acontecimentos que ainda não foram suficientemente enfrentados.

Neste romance, vencedor do prêmio Escreviventes 2025, somos apresentados à história de um homem severamente atormentado pela ausência inexplicável do irmão. Joel, um sindicalista desaparecido, retorna continuamente à vida de Murilo numa espécie de delírio, em conversas que vão pouco a pouco nos permitindo desvendar não apenas os acontecimentos que antecederam seu desaparecimento, mas também a violência praticada contra aqueles que se opuseram à ditadura militar. Somos, portanto, arremessados a um Brasil (sabemos) completamente fundado sobre questões históricas propositadamente silenciadas/ocultadas.

E aí se encontra uma das forças do romance: aquilo que não pôde chegar até nós devidamente documentado, aquilo que permaneceu à margem dos livros de história ou confinado em arquivos, depoimentos e pesquisas, pode encontrar na ficção uma outra possibilidade de existência. Quando pensamos que o assunto da ditadura militar brasileira já foi suficientemente explorado, percebemos o quanto ainda precisamos revolver a terra para trazer à tona histórias desconhecidas, sobretudo quando deslocamos o olhar dos grandes centros do país e nos perguntamos: o que aconteceu na Amazônia durante aqueles anos? Que violências foram praticadas aqui? Quem foram as pessoas perseguidas, presas, torturadas ou silenciadas?

Sandra Godinho, autora de Inventário de um silêncio (Reprodução).

“E aí se encontra uma das forças do romance: aquilo que não pôde chegar até nós devidamente documentado, aquilo que permaneceu à margem dos livros de história ou confinado a arquivos, depoimentos e pesquisas, pode encontrar na ficção uma outra possibilidade de existência.” – Myriam Scotti

A própria autora esclarece, na página 179, que o romance é baseado em fatos históricos, recorrendo à obra do amazônida e pesquisador Samuel Benchimol, Manáos-do-Amazonas: memória empresarial, bem como à obra de Etelvina Garcia, Isaac Sabbá, pioneiro da Amazônia, além de diversos artigos científicos publicados pela socióloga Luci Praun em colaboração com a jornalista Cláudia Costa. A pesquisa histórica, porém, não aparece no romance como simples pano de fundo. Sandra Godinho transforma esse material em matéria literária e faz com que a história coletiva contamine, e, sobretudo, determine a história íntima de seus personagens.

É nesse ponto que a presença de Isaac Sabbá e da Refinaria de Manaus adquire importância dentro da narrativa. Isaac Benayon Sabbá chegou ainda muito jovem a Manaus, onde se tornou uma das figuras centrais do processo de industrialização do Amazonas.

Seus negócios chegaram a constituir um grande conglomerado empresarial, mas talvez seu empreendimento mais emblemático tenha sido a Companhia de Petróleo da Amazônia, a Copam, instalada às margens do Rio Negro. A refinaria iniciou suas operações em 1956 e foi oficialmente inaugurada em janeiro de 1957, durante o governo de Juscelino Kubitschek, num Amazonas que ainda enfrentava as consequências econômicas da decadência da borracha. Sua criação significava, portanto, mais do que um novo empreendimento: simbolizava uma tentativa de industrialização e de reorganização econômica da região.

Ao redor da Copam formou-se também uma importante organização de trabalhadores. O sindicato dos petroleiros do Amazonas foi criado em 1961 e participou da campanha para que a refinaria privada fosse incorporada à Petrobras. Às vésperas do golpe de 1964, João Goulart chegou a determinar a desapropriação de ações de refinarias privadas, entre elas a Copam, medida posteriormente revertida pelo governo Castelo Branco. Somente anos mais tarde, em 1974, a refinaria seria definitivamente incorporada ao sistema Petrobras, passando a se chamar Refinaria de Manaus — REMAN. É justamente nesse cruzamento entre interesses empresariais, atuação sindical, Estado e repressão política que Sandra Godinho instala parte importante de sua narrativa.

Godinho é uma grande engenheira de palavras e, com a sensibilidade típica de sua escrita, traz à tona eventos por muitos desconhecidos: a presença da ditadura na Amazônia, as disputas em torno da refinaria, a perseguição aos trabalhadores e a violência praticada contra aqueles que ousaram se opor ao regime. Ao fazer isso, o romance também rompe com a ideia de uma ditadura cuja violência teria se concentrado apenas no eixo Sul-Sudeste. A Amazônia estava inserida nesse Brasil e seus trabalhadores, sindicatos e famílias também foram rechaçados pelo autoritarismo e por suas consequências.

Mas Inventário de um Silêncio não se sustenta apenas pela recuperação histórica. Sandra Godinho é uma escritora experiente e sabe não apenas o que quer contar, mas, sobretudo, como contar. Nesse romance, a autora opta por um jogo de idas e vindas entre passado e presente, conduzido por Murilo, o irmão inconformado com o desaparecimento de Joel. Enquanto somos apresentados aos acontecimentos que envolvem esse desaparecimento, Murilo vai também narrando uma infância inteiramente atordoada pela disputa pela atenção do pai. Aos poucos, percebemos a proximidade entre Joel e o pai, enquanto Murilo parece permanecer sempre à margem, sentindo-se posto de lado, como no trecho a seguir:

“Lembro do nosso pai, que resolveu morar na cidade depois que a mãe morreu de uma picada de cobra. Não aguentou o veneno, ou a solidão de morar no barranco do rio, ou de viver numa palafita enquanto ele saía para recolher ouriço de castanha na mata. A ausência dela se fez cada vez mais presente.” (p.49)

E ainda:

“As nossas pequenices pueris se perderam entre os ouriços, lá no castanhal, na rotina dos dias de um passado cada vez mais distante. Eu tive de lidar com a decepção e o desânimo de me levantar já me sentindo incapacitado para o dia, dolorido por dentro. O coração oco e a cabeça cheia de pensamentos de ausência, querendo que minha dor fosse suplantada por outra; uma dor de cabeça, de dente, de coluna. A dor de não ser o filho que o pai queria que eu fosse. A dor de não ser você.” (p. 91).

A maneira que encontra para superar esse irmão, tão querido por todos, é tornar-se aquilo que Joel não é: um homem prático, adaptado, alguém que se subjuga ao sistema para sobreviver a ele. Murilo escolhe a apatia. Escolhe não se incomodar demasiadamente com as injustiças do mundo. Enquanto Joel se compromete, Murilo se preserva; enquanto um confronta o sistema, o outro aprende a funcionar dentro dele. Mas, embora alcance êxito profissional, Murilo não é feliz. A inveja o corrói. Essa, para mim, é uma das dimensões mais perturbadoras do romance: a percepção do que a inveja é capaz de fazer com um ser humano. À medida que Joel se envolve cada vez mais com o sindicato e com os conflitos políticos de seu tempo, Murilo se aproxima da cunhada até, finalmente, tomá-la para si. Ainda assim, ele não consegue ter paz.

Porque o desaparecimento do irmão não lhe permite seguir adiante. Sem a certeza do que aconteceu com Joel, Murilo permanece preso ao passado, como se uma parte de sua própria vida tivesse parado junto com a vida do irmão. E há algo especialmente humano nessa impossibilidade de concluir o luto: precisamos de rituais para encerrar determinados ciclos. Precisamos de um corpo, de uma despedida, de alguma forma de materialidade da morte. Murilo não teve nada disso. Não sabe exatamente o que aconteceu com Joel, não sabe onde está seu corpo e, por isso, vive numa espécie de suspensão, digladiando-se com a culpa:

“A verdade é que não vimos o corpo na época nem depois do acontecido. Até agora, até ontem. Um corpo, uma pessoa cujo comportamento sempre foi ousado e ainda agora desafia o medo, a lógica, a ordem.” (p. 30).

A ausência do corpo transforma-se, assim, numa presença permanente. Não existe túmulo, não existe despedida, não existe a possibilidade de dizer: foi aqui que terminou. E talvez por isso o silêncio do título seja tão incômodo: não se trata de um vazio, mas de um silêncio povoado. Um silêncio cheio de perguntas, ressentimentos, culpas, memórias e vozes que continuam exigindo alguma resposta.

A obsessão de Murilo por compreender o que aconteceu com o irmão acaba contaminando a família inteira, e todos são obrigados a viver esse luto como um câncer que se espalha. O desaparecimento de Joel deixa de pertencer apenas a Murilo e passa a organizar a vida daqueles que ficaram. Nesse sentido, o drama familiar se mistura ao drama histórico: também um país que não sabe onde estão seus mortos, que não esclarece seus desaparecimentos e que não realiza plenamente seus rituais de luto permanece, de alguma maneira, preso ao passado.

É assim que o drama de uma família acaba entrecortado por um importante pedaço da história do Amazonas. E é também assim que Sandra Godinho faz aquilo de que falava Pierre Alferi: recolhe o passado fraseando. Não para simplesmente descrevê-lo, mas para instaurá-lo novamente diante de nós. Ao transformar documento em ficção e silêncio em linguagem, Inventário de um Silêncio nos obriga a olhar para aquilo que a história tentou soterrar e nos lembra de que, enquanto houver corpos sem sepultura, perguntas sem respostas e histórias que não foram contadas, talvez ainda tenhamos muita terra a revolver.

Inventário de um silêncio, de Sandra Godinho/ Editora Litteralux, 2026/ 184pp.