Coluna Escrevernar

Maternidade, corpo e responsabilidade social

Filho não pode ser sinônimo de esgotamento nem de renúncia total à própria existência.

Arte: Adriana Varejão, Figura de convite III, óleo sobre tela, 200 x 200 cm, 2005 (Reprodução).


É difícil pensar no Dia das Mães como uma data idílica. A insistência em celebrá-lo sob o signo da harmonia e da plenitude afetiva esbarra na realidade acachapante que milhões de mulheres no Brasil enfrentam diariamente. Uma realidade, ressalte-se, sustentada por um argumento que, embora poderoso, revela-se cada vez mais frágil: o do amor materno como instinto natural, incondicional e suficiente para sustentar qualquer nível de sacrifício.

Essa construção não é neutra. Como argumenta a filósofa Elisabeth Badinter, o chamado “amor materno” não é uma essência imutável, mas uma construção histórica, social e cultural. Em Um amor conquistado: o mito do amor materno (editora Nova Fronteira, 2009), a autora demonstra que a ideia de toda mulher nascer destinada ao cuidado irrestrito de seus filhos é relativamente recente e profundamente funcional à organização social que delega a elas o trabalho invisível da reprodução da vida. Ao naturalizar esse amor, despolitiza-se o cuidado e transforma-se uma relação complexa e coletiva em obrigação moral e individual.

No Brasil contemporâneo, os dados revelam o peso concreto dessa construção. Em Manaus, cidade onde moro, 53,59% dos domicílios são chefiados por mulheres — são 337.942 lares sob responsabilidade feminina, segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE. Em contraste, 46,41% (292.635) têm homens como responsáveis. Esses números não indicam apenas autonomia feminina (quem dera assim fosse), como por vezes se quer sugerir, mas expõem uma reorganização das responsabilidades familiares que frequentemente ocorre sem a correspondente redistribuição das condições materiais e simbólicas de amparo às crianças.

O corpo das mulheres, nesse contexto, permanece no centro do discurso político. Como afirma a filósofa e ativista Silvia Federici na obra Além da pele (editora Elefante, 2023), “o corpo é a esfinge a ser interrogada e sobre a qual há de se atuar no caminho da mudança social e individual”. A maternidade, longe de ser apenas uma experiência privada, constitui-se como campo de disputa: entre autonomia e controle, entre escolha e imposição, entre assistência e exaustão. E, como a própria Federici enfatiza, a tarefa não é negar a maternidade, mas garantir que ela não seja uma sentença, isto é, que as mulheres possam decidir se querem ter filhos e que essa decisão não lhes custe a vida, como temos testemunhado nos últimos anos, sobretudo com o aumento da ala conservadora no contexto político e social do país.

Quando ampliamos o olhar para o estado do Amazonas, o aparente equilíbrio — 50,01% dos domicílios chefiados por mulheres e 49,99% por homens — contrasta com a média nacional, onde os homens ainda predominam (50,87% contra 49,13%). No entanto, a simetria estatística não implica simetria de responsabilidades. Os números não capturam o trabalho cotidiano do cuidado, nem a sobrecarga emocional e física que recai majoritariamente sobre as mulheres, especialmente na ausência de políticas públicas eficazes e de uma cultura de corresponsabilidade.

“Ao naturalizar esse amor, despolitiza-se o cuidado e transforma-se uma relação complexa e coletiva em obrigação moral e individual” – Myriam Scotti.

É precisamente aí que o mito do amor materno opera com maior eficácia. Ao pressupor que a mulher “dá conta” por amor, legitima-se a precarização das condições em que esse cuidado é exercido. Nascer mulher, então, passa a funcionar como destino. A biologia se torna justificativa para uma divisão sexual do trabalho que permanece profundamente desigual. Ora, uma sociedade que organiza seu futuro apenas em torno da produtividade formal ignora deliberadamente o trabalho que sustenta a própria possibilidade de existência dessa produtividade. Cuidar, educar, alimentar, acolher são tarefas fundamentais à continuação da espécie humana e continuam sendo tratadas como extensões “naturais” do feminino, e não como responsabilidades coletivas. 

É impossível uma mulher ser, simultaneamente, arrimo de família, responsável exclusiva pelo cuidado dos filhos e plenamente saudável. Filho não pode ser sinônimo de esgotamento nem de renúncia total à própria existência. A frase “mãe só tem uma”, frequentemente celebrada como expressão de afeto, revela-se, sob outro olhar, profundamente violenta: ela condensa a expectativa de exclusividade, de entrega absoluta e de substituição impossível. Como se o cuidado pudesse ou devesse ser monopolizado.

Talvez uma das formas mais insidiosas dessa violência seja a culpa materna. Como escreve a jornalista Begoña Gómez Urzaiz, em seu esplêndido As abandonadoras (Zahar, 2024), “ser mãe, afinal, é um acúmulo de culpas que vão se sobrepondo sem medo de entrar em contradição entre si”. Exige-se da mulher presença integral e, ao mesmo tempo, autonomia produtiva; dedicação exclusiva e independência financeira; disponibilidade emocional e resiliência infinita. A contradição não é um desvio; é, pasmem, a própria estrutura da expectativa social.

Curiosamente, essa exigência não se distribui de maneira equivalente. A ausência paterna, embora socialmente reconhecida, não provoca o mesmo tipo de condenação moral. Não se ouve, com a mesma frequência ou intensidade, a cobrança dirigida aos homens que se ausentam ou que participam de forma periférica na criação dos filhos. O cuidado, mais uma vez, é naturalizado como feminino, e, portanto, invisibilizado enquanto trabalho.

Diante disso, insistir na idealização da maternidade é não apenas ingênuo, mas politicamente problemático. Se quisermos que, no futuro, a maternidade seja de fato uma escolha e não uma imposição travestida de vocação, será necessário romper com o mito que a sustenta, redistribuir o cuidado e reconfigurar as bases materiais que permitem sua realização. Só então será possível deslocar a maternidade do campo do sacrifício silencioso para o da liberdade e desejar, verdadeiramente, um feliz dia das mães àquelas que escolheram esse caminho.