Entrevistas

Do fanatismo religioso à rejeição familiar: uma conversa com Bruno Inácio sobre a reedição da obra que aborda sentimento de desamparo

Em “Desemprego e outras heresias”, Bruno Inácio utiliza da escrita fragmentada e fluxo de consciência para refletir sobre impactos dos traumas familiares na vida adulta.

Por Ana Ferrari.

Fotos de Lucas Orsini.


Algumas vezes nos sentimos intrusos em lugares que frequentamos, algo que gera uma incômoda sensação de inadequação. Mas, e se o lugar em questão fosse sua própria família? Essa é a situação de Fábio, personagem principal da obra “Desemprego e outras heresias” (Sabiá Livros, 120 págs.), romance de Bruno Inácio, que está sendo relançado neste ano após ficar cerca de três anos esgotado. Esta segunda edição conta com texto de orelha de Marcelo Labes, prefácio de Cintia Brasileiro, fotos de Lucas Orsini e textos de quarta capa assinados por Xico Sá, Carla Guerson, Pedro Augusto Baía e Gael Rodrigues. A capa, o projeto gráfico e o posfácio são de Andreas Chamorro.

O romance acompanha Fábio, um publicitário que vive em São Paulo, distante de sua cidade natal, e enfrenta o isolamento, o desemprego e a falta de perspectivas. A narrativa alterna entre passado e presente, costurando a melancolia da vida adulta com lembranças de uma infância marcada por culpa, rejeição e episódios familiares tensos. Quando Fábio recebe um pacote enviado por seu irmão, é lançado a um mergulho involuntário nas memórias desse passado, fazendo emergir um mistério que atravessa toda a obra e conecta essas duas pontas de sua existência.

“Desemprego e outras heresias” utiliza uma linguagem fragmentada e uma narrativa em fluxo de consciência para representar o estado de consciência do personagem e entrelaçar os temas da ansiedade gerada pelo desemprego, os impactos do fanatismo religioso nas famílias brasileiras e o desamparo emocional leva o personagem principal a buscar outras formas de pertencer. 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e colaborador do Le Monde Diplomatique, do Jornal Rascunho e da São Paulo Review, além de ter textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas. É autor de “Desprazeres existenciais em colapso” (Patuá) e de “De repente nenhum som” (Sabiá Livros). Em abril, assinou contrato com a Editora Reformatório para a publicação de dois livros: a reedição de “De repente nenhum som” e um romance inédito. 

Bruno Inácio, autor de “Desemprego e outras heresias”/ Foto de Lucas Orsini.

“Depois de publicar um livro de contos, resolvi me aventurar por uma narrativa de maior fôlego”, conta Bruno Inácio sobre a escrita de “Desemprego e outras heresias”

Como nasceu a ideia de unir desemprego e fanatismo religioso em uma mesma narrativa? Há algum elemento de autoficção na narrativa?

O livro está longe de ser uma autoficção. Fábio e eu temos histórias bem diferentes, mas a ideia para escrever “Desemprego e outras heresias” surgiu de um momento em que vivenciei algo parecido com o personagem. Quando me mudei de Ituverava, no interior de São Paulo, para Uberlândia, segunda maior cidade de Minas Gerais, enfrentei um período bastante angustiante, por não conseguir um emprego. A mudança foi provocada pela aprovação no mestrado e acreditei, num primeiro momento, que não teria dificuldades para encontrar um trabalho na nova cidade. No entanto, a busca por um trabalho formal demorou quase um ano e, ao longo de todo esse período, pude vivenciar muito do desespero retratado na história. Resolvi, a partir dessa experiência, escrever uma história que juntasse a questão do desemprego com outro tema que já me causava bastante preocupação: os impactos do fanatismo religioso na formação de crianças e adolescentes. Fábio cresceu com a ideia de que existia um deus disposto a castigá-lo ao menor deslize. Por conta disso, reprimia pensamentos, desejos e sentimentos. Ainda assim, os pais sempre o culpavam quando algo ruim acontecia. Por conta de toda essa violência, o período de um ano utilizado para escrever “Desemprego e outras heresias” envolveu um mergulho em temas que machucam e causam revolta. É um livro curto, mas repleto de angústia e melancolia.  

E por que você escolheu colocar as relações familiares complicadas como tema central neste romance? 

As relações familiares me interessam muito. Ao longo dos séculos, a literatura tem se aprofundado nas mais diversas dinâmicas possíveis entre pessoas de uma mesma família e, ainda assim, o tema parece longe de estar esgotado. Em “Desemprego e outras heresias”, o protagonista cresce em um ambiente disfuncional e convive, desde a infância, com a culpa e a violência. As consequências disso estão presentes em sua vida adulta, por mais que ele tenha conseguido sair de sua cidade natal e romper os laços com seus familiares. 

Você também é um grande fã de Cazuza, certo? Além do cantor e a banda que fez parte, o Barão Vermelho, quais são suas maiores influências? 

O Cazuza é meu letrista preferido, me hipnotiza até hoje com seus versos e me impacta desde a adolescência, bem como faz com Fábio no livro. Não por acaso, a obra está repleta de referências a Cazuza e aos primeiros discos do Barão Vermelho. Mas, além do cantor, sou bastante influenciado por Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Marcelino Freire.

Desde quando você escreve? Você sempre escreveu prosa ou você já se aventurou em outros formatos literários?

Comecei a escrever ainda na adolescência e me dediquei à poesia até os vinte e poucos. Depois, passei a escrever prosa e me encontrei. A princípio, escrevia para me expressar, mas depois me apaixonei pela criação literária, com suas complexidades e armadilhas. Devo muito disso a escritores e escritoras com quem já fiz oficinas de escrita, em especial Marcelino Freire, Marcela Dantés e Carlos Eduardo Pereira.

Você lançou “Desemprego e outras heresias” após um livro de contos, certo? O que te motivou a compor uma narrativa maior? E por que você decidiu relançar o livro agora? 

Depois de publicar um livro de contos, resolvi me aventurar por uma narrativa de maior fôlego. Foi desafiador construir uma história mais longa e compor um personagem tão complexo quanto o Fábio, alguém repleto de manias e contradições internas. Ao fim do período de escrita, fiquei bastante feliz com o resultado. Após o lançamento, os 500 exemplares da primeira edição foram esgotados em menos de um ano, um feito interessante para uma obra publicada por uma editora independente. Agora, depois da repercussão positiva de “De repente nenhum som”, muita gente tem procurado “Desemprego e outras heresias”, o que levou a Sabiá Livros a propor a segunda edição do livro. 

O que este livro representa para você? Você acredita que a escrita dele te transformou de alguma forma?

Acredito que o “Desemprego e outras heresias” foi um importante exercício para que eu desenvolvesse os meus temas e a minha linguagem. Isso foi essencial para que, logo depois, eu escrevesse “De repente nenhum som”, obra que apareceu nas listas de melhores livros brasileiros de 2024 das revistas Úrsula e Variações e que foi elogiada por grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, como Marcela Dantés, Monique Malcher, Lilia Guerra, Jacques Fux, Carlos Eduardo Pereira, Morgana Kretzmann, Ronaldo Cagiano, Tito Leite e Bethania Pires Amaro. 

Desemprego e outras heresias, de Bruno Inácio/ Sabiá Livros, 2026 (Nova Edição)/ 120pp.

Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais.