
Da África Múltipla em ‘Conto Popular Africano: Contos Bambara, Mandiga, Fula, Uolofe e Hauçá
Conto Popular Africano: Contos Bambara, Mandiga, Fula, Uolofe e Hauçá é um livro necessário, que merece ampla circulação e ganhar o mundo, especialmente as salas de aula de todo o Brasil.
Arte: ‘Amarya’, do artista nigeriano, da etnia Hauçá, Awodiya Toluwan (Reprodução).
I
Existe uma música do grupo brasileiro Metá Metá, que tem como principais integrantes os cantores Juçara Marçal e Kiko Dinucci, intitulada “Angolana”. Nos versos da canção, há uma sentença repetida algumas vezes, que indaga quem escuta: “Me diz de onde é que vem”. Em seguida, nos outros versos, são acionadas características que, ao final de cada estrofe, retomam a mesma indagação: “Me diz de onde é que vem”. A resposta para o enigma está no título, já que as especificidades apresentadas pelo sujeito lírico remetem ao povo africano, mais precisamente de Angola, e à sua relação com o Brasil no período da escravização.
No entanto, o que chama a atenção é como determinadas marcas da cultura africana em terras brasileiras acabam caindo em esquecimento, sendo silenciadas ou não recebendo a devida repercussão – inclusive tendo seu estatuto artístico questionado. Isso resulta numa população que não reconhece as múltiplas formas de expressão artística provenientes de diferentes povos, presentes no cotidiano brasileiro, seja nas produções literárias negro-brasileiras, seja nas cantigas e ditos populares oriundos de países africanos, seja ainda nas narrativas orais reverberadas dentro de famílias negras, cujas origens remontam à África.
II
“Me diz de onde é que vem” foi o que ecoou quando comecei a ler Conto Popular Africano: Contos Bambara, Mandiga, Fula, Uolofe e Hauçá (Editora Katuka, 2026), traduzido por César Sobrinho, que realiza um trabalho importante no campo literário ao traduzir para o português autores e produções do continente africano.
César Sobrinho é pesquisador-artista, tradutor e professor, com mestrado e doutorado em Literatura e Cultura pela UFBA. Entre suas traduções, destacam-se a Coleção de Contos e Fábulas Crioulas (Segundo Selo, 2021), em 4 volumes, e os seguintes títulos que compõem a Coleção Biblioteca Africana, publicada por Edições Sesc, em coedição com a Editora Zahar: Com a palavras, as pretas (2025) e Civilização e Barbárie (2025).
Sua publicação mais recente é um compilados de contos de povos da África Ocidental: os Bambara, com quatro contos; os Fula, com sete contos; os Mandiga, com três contos; os Uolofe, com dois contos; e os Hauçá, com um conto. Cada narrativa é acompanhada de um glossário com a explicação das palavras não traduzidas, além de apresentar perguntas que tensionam a mediação da leitura em grupo ou em sala de aula.
Em ‘Conto Popular Africano’, o trabalho de tradução é acompanhado por uma consistente pesquisa, tanto nas notas quanto na parte pedagógica da obra.
III
Ao apresentar um panorama desses povos por meio de contos, César Sobrinho desconstrói uma concepção una e totalizante da África. Ao longo do livro, cada narrativa evidencia especificidades que exigem glossários distintos e demandam questionamentos diferentes. Assim, o trabalho de tradução é acompanhado por uma consistente pesquisa, tanto nas notas quanto na parte pedagógica da obra.
Essa parte que dialoga com os contos, embora proveniente de povos distintos, compartilha a presença de ensinamentos diversos. Isso demarca o teor pedagógico da obra, estabelecendo conexões com perguntas que suscitam discussões sobre a colonização do continente africano, as mudanças culturais produzidas nesse processo e as relações simbióticas entre os sujeitos, a natureza e as esferas visíveis e invisíveis.
Isso se observa, por exemplo, no conto Bambara “Soutadounou” – em que “sou” significa “gente morta” e “tadounou” significa “que come” (p.23) – que narra a interdição social de um trecho do rio. A justificativa reside nos acidentes fatais que ocorrem com frequência no local, caracterizado como um lugar de águas escuras e de difícil acesso: “Há duas grandes rochas lá e entre essas rochas a água cria um turbilhão incansável. É uma água muito escura e que assusta a todos. Há uma grande quantidade de entidades da água que agarram os barcos que passam e os naufragam” (p. 23).
Conta-se que o local é cheio de “demônios”, até que um comerciante estrangeiro, acompanhado de um remador (laptot), decide pôr à prova a veracidade dessa narrativa. Ao chegarem lá, onde há redemoinhos que sempre perturbam as águas, o barco vira, derrubando os dois homens na água. O remador é salvo por um morador da comunidade, mas o comerciante desaparece. Contudo, a corda que o prendia ao barco, utilizada como estratégia de segurança, aparece desatada, sugerindo que o sujeito foi pego pelos espíritos do local.
“Então, aconteceu o que tinha que acontecer. No centro do redemoinho, o barco parou de repente O espírito da água o segurava com todas as suas forças. O barco virou e o laptot e o homem branco caíram na água.” (p. 25)
Essa narrativa lembra uma que ouvi de minha mãe de santo no terreiro, na qual ela alertava sobre banhos em mares e rios em horários muito tarde da noite. Ela salientou que existem energias que, em determinados momentos e em partes específicas do quebra-mar, manifestam-se e podem causar afogamentos ou até uma queda de energia no sujeito, provocando desmaios. Ainda informou que, num certo período da noite, as energias que não são acolhidas por Iemanjá e Oxum retornam às areias da praia, o que pode ocasionar desconforto nas pessoas. Ou seja, de algum modo, entidades das águas e sua relação com os humanos chegam ao Brasil na forma de ensinamento.
Portanto, há um tom explicativo no conto, que justifica determinadas práticas e hábitos desses grupos. O professor Marlon Marcos, ao escrever sobre o livro em uma matéria do Jornal A Tarde publicada em dezembro de 2025, destacou duas coisas importantes: a primeira diz respeito à diversidade das comunidades compiladas na obra e aos seus modos distintos de “ensinar ética existencial aos grupos humanos”; e a segunda refere-se à ligação, marcada pela diáspora, entre essas comunidades e o Brasil. Para o pesquisador, o modo de ensinar desses povos é similar ao que se observa em comunidades negras brasileiras, sendo importante para o sujeito brasileira fabular e “inventar mundos”.
Marlon Marcos retoma essas reflexões no lançamento do livro, ocorrido no Teatro Molière, no dia 26 de março de 2026, em Salvador. Ao abordar como a África e seus elementos tradicionais estão presentes no Brasil, principalmente em Salvador, o pesquisador lê um conto Fula que trata da língua, da fala e dos percalços que o ato de falar pode trazer para a vida do sujeito. No conto “A cabeça do morto”, um homem encontra a cabeça de um morto; a caveira fala e revela o motivo de sua morte: “a boca” (p. 37). Esse diálogo o leva a retornar à sua aldeia e relatar o ocorrido ao chefe, afirmando ter encontrado uma cabeça que fala. O chefe envia homens para averiguar a veracidade da história, mas, ao chegarem ao local, não conseguem fazer a caveira falar. Diante disso, retornam e desmentem a história. O chefe, então, ordena que matem o suposto mentiroso no mesmo lugar onde está a caveira. No entanto, a cabeça se compadece e começa a falar, confirmando a história e salvando o homem. Ao final, explicita-se a lição: “A boca é perigosa. Palavras impensadas trazem desgraças” (p. 39).
Nesse conto específico, Marlon Marcos perguntou à plateia quem já havia escutado algo semelhante. Sua pergunta foi complementada pela intelectual Vanda Machado, que, ao comentar a leitura do livro, afirmou que os contos a fizeram rememorar narrativas que seus mais velhos contavam na infância, no Recôncavo Baiano. Portanto, existe uma ligação marcada pela oralidade e pela transmissão dessas narrativas, que persistem e circulam em comunidades negras brasileiras.
Para além desses ensinamentos mais sérios – como o citado anteriormente, contado “durante cerimônias de iniciação de jovens” (p. 39), como aponta a nota do tradutor –, há também contos que ensinam por meio do riso. É o caso do conto Uolofe “Os flatulentos”, que narra o encontro de um casal, Kuomba e Mademba, dotado de um dom específico: ambos destroem coisas ao seu redor por meio de seus peidos. “Seus peidos eram tão poderosos que podiam derrubar uma árvore ou quebrar os ossos de quem estivesse no caminho” (p. 97). Os dois se encontram, se casam e vivem juntos.
Mas, após uma discussão acalorada, a mulher solta um peido que quebra as pernas do marido, deixando-o imobilizado, e foge. Algum tempo depois, surge um homem que, ao ouvir a lamentação do ferido, decide ajudá-lo a se vingar. Para isso, posiciona-o na direção da vila onde a esposa vive, e ele solta um peido de tal intensidade que vira uma grande tempestade, matando não só a mulher, mas destruindo toda a vila.
“O peido atingiu o vilarejo como um furacão. Kuomba caiu morta no mesmo instante, junto com todos que estavam perto dela. As casas pegaram fogo e o vento arrasou o que sobrou.
Dizem que por sete anos, o peido de Mademba continuou girando sobre as ruínas, como um redemoinho sobrenatural.
Depois disso, subiu para o céu e desapareceu.” (p. 99)
Assim, o conto – e todos os que compõem o livro – são acompanhados de tópicos de discussão, como a seção “Para pensar”. Algumas narrativas apresentam questões que geram reflexões, como a que acompanha a história mencionada: “Se você tivesse um poder incontrolável, o que faria para não colocar os outros em perigo?” (p. 101). Então, evidencia-se o cuidado editorial da obra, que considera seus usos e aplicabilidades por mediadores de leitura, tanto em clubes do livro quanto em salas de aula.
Por apresentarem um teor pedagógico, os contos podem ser utilizados em práticas de ensino que contemplem a implementação das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, inclusive de modo interdisciplinar.
Outro ponto importante da edição diz respeito às iconografias contidas ao longo do livro. Essas reproduções evidenciam características dos povos apresentados e, para além das narrativas orais transcritas e traduzidas, indicam o cuidado em valorizar outras formas de produção de conhecimento e de narração, afinal, as imagens também contam histórias e falam da coletividade à qual estão inseridas.
Além disso, não tem como não ressaltar a tradução cuidadosa e atenta de César Sobrinho. Em primeiro lugar, destaco o trabalho de pesquisa para compilar as narrativas – ao final de cada conto, são apresentadas as informações sobre quem o narrou e o ano em que isso ocorreu. Soma-se a isso a tradução e a construção de notas. Trata-se de um livro pensado em sua aplicabilidade, com pontos de discussão e questões que acompanham as histórias. Sendo assim, a tradução demarca a agilidade da narrativa oral, com seus ganchos e estruturas dinâmicas, e recorre a uma linguagem acessível, sem ser muito rebuscada, o que favorece uma leitura fluida para todos os públicos e idades.
Assim, César Sobrinho realiza um trabalho cuidadoso de tradução ao apresentar ao leitor a multiplicidade de culturas da África Ocidental e seus diálogos com o Brasil. Ao longo da obra, é possível reconhecer estruturas narrativas que remetem a histórias que ouvimos dos mais velhos, ressignificadas pela/na diáspora. Conto Popular Africano: Contos Bambara, Mandiga, Fula, Uolofe e Hauçá é um livro necessário, que merece ampla circulação e ganhar o mundo, especialmente as salas de aula de todo o Brasil.


