
Orides Fontela e os intelectuais pobres
Uma crônica sobre a poeta homenageada na Flip e o mercado editorial.
Foto: Fritz Nagib/Divulgação Hedra.
Orides Fontela nasceu em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, em 1940. É autora dos livros Transposição, Helianto, Alba, Rosácea, Trevo e Teia, atualmente publicados pela editora Hedra. Recebeu o Prêmio Jabuti na categoria poesia, em 1983, e também o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 1986. Além de escritora, foi professora, formada em Filosofia pela USP. Falecida em 1998, aos 58 anos, é a autora homenageada da Flip 2026, o que destaca a relevância de sua obra para a literatura brasileira e promove discussões acerca de sua trajetória.
Fui atrás de saber mais sobre Orides Fontela e encontrei uma entrevista concedida ao Jô Soares, no programa Jô Soares Onze e Meia, em 1996. Aqui, vou me referir a ela como “poeta”, como afirmou preferir ser chamada, justificando que “poetisa” carregava, para ela, uma conotação machista e desvalorizante. Na conversa, Orides foi majestosa ao definir o ofício: “ter um bom ouvido para a língua”. Ao se posicionar politicamente, foi aplaudida. Também foi muito engraçada, fazendo Jô Soares e o público rirem, e a mim, trinta anos depois.
Em determinado momento, a conversa foi para outro lugar. Orides estava lançando um livro e sendo entrevistada por um dos maiores apresentadores do país e, ainda assim, enfrentava grandes dificuldades financeiras. A poeta comentou sobre o assunto com muita clareza, situando sua experiência em um problema mais amplo: afirmava tratar-se de realidade comum no Brasil entre as professoras primárias e os escritores. Na ocasião, pensava em suplementar a aposentadoria, refletindo sobre possibilidades profissionais em meio ao que chamou de o dilema dos intelectuais pobres.
É na parte mais dura da entrevista que quero me deter. Não chega a ser novidade que educadores e artistas não são valorizados no Brasil. No nosso país, deixar de fazer educação e cultura é um projeto que está há anos em execução.
Aqui, faço mais um recorte e passo a falar do ofício que tenho em comum com Orides Fontela, o de escritor, ou, mais precisamente, de intelectual pobre.
Em termos diretos, literatura não dá dinheiro. O mercado editorial brasileiro funciona de um jeito concentrado e nada transparente. As grandes redes de livrarias disputam espaço com plataformas gigantes do comércio digital, que operam em escala e com margens agressivas, como a Amazon e o Mercado Livre e ditam as regras do jogo. No meio disso tudo, o autor costuma ficar com 10% do preço de capa.
“A ideia de que o artista precisa passar por dificuldades acabou sendo tratada como algo normal, como se fosse esperado aceitar instabilidade, ganhar pouco e trabalhar de graça em nome da vocação” – Kaio Phelipe
Em algumas editoras independentes, a situação pode ser ainda mais frágil. São comuns relatos de autores que sofrem com a ausência de clareza contratual ou por não serem remunerados pelos direitos autorais. Editoras independentes publicam livros belíssimos e de gente muito talentosa, mas, muitas vezes, não possuem investimento real para que esses títulos circulem. Vale dizer, também, que o financiamento coletivo é uma estratégia frequente de grande parte dessas editoras. O livro se paga na pré-venda e, ainda assim, o acompanhamento no mercado fica em segundo plano ou não acontece. Quase não há informação organizada sobre isso na internet, mas também não chega a ser um segredo: por conta da falta de clareza em alguns contratos, há várias editoras independentes sendo processadas, principalmente por não arcarem com os direitos autorais. Apesar disso, muitas continuam publicando e vendendo enquanto deixam autores sem receber.
No fim, o peso sempre recai sobre quem escreve. É comum escritores independentes relatarem que se conformaram com a falta de pagamento ou que acabaram submetidos a outros tipos de precarização. Não é raro que escritores, como outros trabalhadores da cultura, precisem ter mais de um emprego para conseguir viver. A ideia de que o artista precisa passar por dificuldades acabou sendo tratada como algo normal, como se fosse esperado aceitar instabilidade, ganhar pouco e trabalhar de graça em nome da vocação. Frequentemente, quando alguém chama atenção para essa realidade, aparecem respostas que minimizam o problema, dizem que já é um privilégio trabalhar com o que se gosta, que é irresponsável querer viver de escrita e que o artista deveria se contentar com as poucas condições que tem. Trabalhadores da área cultural dificilmente encontrarão apoio de outros setores ao reivindicar melhores condições para o seu trabalho.
Se artistas não conseguem sustentar suas vidas a partir daquilo que produzem, uma grande parte irá desistir, e isso empobrece a cultura como um todo. Destaco aqui um trecho do texto “Problemas de concordância: escrever e ganhar dinheiro”, escrito por Aline Valek, disponível nesse link.
Para mim, no entanto, é importante defender que o trabalho da escrita […] seja bem remunerado porque esse discurso do artista sofredor, do artista que deve ganhar pouco por sua arte porque, afinal, faz o que ama, serve principalmente à manutenção da literatura e da arte como um espaço elitista. Faz quem já tem condições. Os filhos da classe trabalhadora que não inventem de fazer arte. Isso vocês não bancam.
Muito se fala sobre diversidade, mas ainda se joga para segundo plano aquilo que de fato a tornaria viável. Ter vozes mais diversas na literatura é muito mais do que uma questão de boa vontade do público, de bom mocismo das editoras ou de uma cultura com mais empatia, gentileza, empoderamento ou seja lá qual for a palavra de ordem do momento. É questão de dinheiro.
Assistindo à entrevista da Orides Fontela e fazendo algumas pesquisas para escrever este texto, fiquei me perguntando como garantir a sobrevivência de uma arte e de um artista que não são guiados apenas pelas demandas comerciais. Não cheguei a uma resposta definitiva e não pretendo esgotar o assunto.
No entanto, entendo que é preciso parar de tratar trabalhadores independentes como amadores, e é urgente reconhecer a produção artística e literária como trabalho, não como privilégio. Mais do que isso, é preciso recuperar a dimensão pública da arte: ela educa, provoca, transforma, amplia horizontes, sensibiliza e imagina outros mundos possíveis.
Sem apoio estrutural aos criadores, essas funções acabam concentradas nas mãos de quem já detém poder econômico e simbólico. Ou seja, quando a dificuldade de viver da arte é tratada como uma falha individual, perde-se de vista a dimensão coletiva do problema. Afinal, ainda persiste a ideia de que fazer arte é um luxo e, por isso, a reivindicação por pagamento justo soa, para muita gente, como excesso.

