Evento

Feirinha Literária de Santa Rita chega à sua terceira edição deslocando a geografia livresca do Rio de Janeiro e ocupando o Centro com cultura

Projeto de Henrique Rodrigues e Raphael Vidal, a Feirinha Literária de Santa Rita celebra o Centro do Rio de Janeiro como lugar de encontros e literatura.

Fotos: Divulgação.


Mês passado, no segundo sábado de abril, fui ao Largo de Santa Rita, trecho que antecede o famoso Beco das Sardinhas, visitar a Feirinha Literária de Santa Rita. O projeto é assinado por Raphael Vidal, empresário do ramo de gastronomia e proprietário do restaurante Capiau, e Henrique Rodrigues, escritor, curador e diretor do Instituto Caminhos da Palavra. Naquele dia, tive a oportunidade de conversar um pouco com Henrique sobre o projeto, que me interessou sobretudo pela presença da cultura no centro da cidade, região que, atualmente, está um tanto esvaziada do seu importantíssimo valor cultural e histórico. Semanas depois, chamei Henrique para uma entrevista e pude aprofundar, como queria, a questão de levar um evento de literatura para o Centro do Rio. 

Feirinha Literária de Santa Rita leva literatura para o Centro do Rio

“O Centro do Rio vive um esvaziamento muito por conta da pandemia, pois muitos dos comércios que fecharam durante a pandemia não voltaram ou não voltaram com a mesma força. Além disso, é um local que causa a constante sensação de insegurança”, me contou Henrique em entrevista. De todo modo, a Feirinha, como eu pude perceber durante a minha passagem por lá, conseguiu mobilizar o público em torno da literatura e criar um espaço que, mesmo por aquele instante, causava uma sensação de pertencimento e segurança. 

Além da programação literária, com mesas de debate, comuns em qualquer festa literária, a Feirinha também abriga expositores, editoras que levam os seus livros para vender naquele espaço, além de culinária e venda de produtos diversos (bonés, camisetas) relacionados à literatura. Para Henrique, o maior diferencial da Feirinha de Santa Rita em relação às demais festas literárias é justamente a sua constância. Para ele, projetos como esse, sem apelo de espetáculo ou de mídia, mas que possuem uma constância, têm maior possibilidade de formar leitores.

“As Festas Literárias são muito importantes como celebração do livro e da literatura, mas elas passam. Uma pessoa que vai a um evento a cada dois anos, como a Bienal do Livro, dificilmente se tornará uma pessoa leitura, mas sim alguém que consome livros para aquele evento. Nesse sentido, a Feirinha surge como uma alternativa, algo que dura”. 

Leitoras na Feirinha Literária de Santa Rita. Foto: Divulgação.

Se por um lado, a durabilidade possibilita o incentivo constante à literatura, por outro lado, também invoca desafios que as demais festas literárias não possuem. Durante a entrevista, Henrique brincou: “Faz uma matéria com a chamada: ‘Como fazer um evento literário sem um puto’”. Sem um patrocínio robusto, a Feirinha conta com a mobilização de autores e amantes da literatura que se dispõem a participar de uma programação gratuita e que não fornece, como contrapartida, uma super visibilidade midiática. 

Leitora na Feirinha Literária de Santa Rita. Foto: Divulgação.

Uma festa que desloca a geografia livresca da cidade

Desde o projeto “Leituras no Centro”, Henrique vem provocando o público leitor do Rio de Janeiro a olhar para este espaço que, cada vez mais, fica vazio. Isso demonstra a precisão da percepção de Rodrigues que aponta uma “geografia livresca” na capital fluminense que denuncia a desigualdade na cidade. 

“No Rio, nós temos os eventos literários em livrarias que, em sua maioria, estão na parte rica da cidade. A geografia livresca do Rio é uma geografia que também reproduz a nossa desigualdade. Além disso, sempre que os eventos acontecem fora da Zona Sul, eles acontecem com o estigma da favela. Bom, nada contra as favelas, mas é uma estereotipação dizer que fora da Zona Sul só há favela. Então veio a ideia de fazer alguma coisa que representasse a cidade em sua diversidade, sem excluir a literatura da Zona Sul, mas dando espaço para a diversidade da cidade”. 

Para isso, não poderia ter escolhido um lugar mais simbólico. O Largo de Santa Rita, um lugar histórico para o Rio de Janeiro, foi construído sobre o Cemitério dos Pretos Novos, onde mais de 20 mil escravizados foram enterrados. 

“Na primeira edição, a gente pediu a licença para aquelas mais de 20 mil almas de escravizados. E o nosso desejo é justamente o de dar mais voz e liberdade à população carioca, inclusive honrando essas almas que não tiveram voz, que não tiveram liberdade”. 

A próxima edição da Feirinha de Santa Rita acontece neste sábado, 9 de maio, à partir das 10h da manhã, com a presença do escritor Braulio Tavares, do historiador Thiago Gomide e da autora sul-africana Zukiswa Wanner.