Reportagem

Ninguém no Mundo: Um romance a muitas mãos e essencialmente polifônico

Escrito por 13 autores, Ninguém no mundo é um romance que nasceu a partir da relação de admiração e cumplicidade mútua entre membros de uma turma de escrita criativa.

Foto: Autores do romance ‘Ninguém no Mundo’ durante o lançamento: da esquerda para a direita: Gabriela Machado, Luciana Nogueira, Anne Benevides, Raimundo Fernandes, Sílvio Luiz, Wellington de Melo (editor), Danilo de Oliveira, Raul Bradley da Cunha, Natália Câmara, Emanuely Lima, Camila Cursino e Larissa Barbosa. Charlene Valéria e Clarisse Telles também são autoras, mas não puderam estar presentes no lançamento.


A oportunidade de se reunir em um curso de especialização pode ser, de fato,  única. Para esses 13 escritores, tornou-se mais que uma oportunidade, mas um romance! Ninguém no mundo, livro que sai pela Ateliê Livre, não é um trabalho de conclusão de curso, mas sim o resultado de uma sintonia entre diferentes vozes, um projeto que nasce justamente do desejo de eternizar uma aprendizagem conjunta. 

Nós já vínhamos estudando juntos sobre o fazer literário há um ano e meio, na Especialização em Escrita Criativa da Cesar School, com bastante entrosamento, de maneira que já conhecíamos as características da escrita de cada um. A gente sabia que podia confiar na entrega: ninguém ia decepcionar, ficar aquém ou não se comprometer com a proposta. Claro que a limitação para a escrita (acesso apenas à leitura do capítulo anterior) inicialmente levou a narrativa para caminhos conflitantes, excessos de detalhes em algumas situações ou o oposto. Foi muito interessante quando o arquivo de todos os capítulos (cada um escrito por um autor) ficou liberado, era de enlouquecer. Ali estava UM livro conectado e, ao mesmo tempo, pareciam vários! Natália Câmera, uma das autoras de Ninguém no Mundo, para a revista O Odisseu. 

Se um romance escrito por um único escritor pode ser um desafio, imagine um a partir de 26 mãos!? Conversando com alguns dos autores, notei que eles concordam que a sintonia do grupo foi um dos principais aspectos a contribuir para o projeto final. Danilo de Oliveira, um dos autores, conta que o grupo já se conhecia há pelo menos 1 ano — o período da especialização — quando decidiram escrever a obra. Para  a O Odisseu, Danilo conta que tudo foi construído coletivamente. Uma das primeiras decisões foi a de que não seria uma coleção de contos, mas sim um romance. Tudo aconteceu on-line e, após a escrita, foi preciso unir os pontos e tapar os possíveis buracos. 

Após cada um produzir seu retalho para a colcha, lembrando que cada capítulo foi escrito somente com a leitura do diretamente anterior, nos deparamos com uma criatura Shelleyana. Tivemos mais reuniões para saber o que mantinha e o que saía, todos sempre focados em ter uma obra de boa qualidade. Já sabíamos que certas ideias iriam cair e não houve um autor que fizesse questão que o capítulo escrito ficasse incólume. Mesmo quando surgiram opiniões diferentes, tudo foi tratado com respeito e honestidade. Digo que essa harmonia só foi possível por causa do tempo de aula compartilhado e do amor pela escrita. – Danilo de Oliveira, um dos autores de Ninguém no Mundo, para a revista O Odisseu. 

Raul Bradley da Cunha, também um dos autores do livro, concorda, mas também destaca que “a sorte de sermos todos democratas convictos talvez tenha ajudado a resolver todas as pendências em votação”. Para a O Odisseu, ele conta:

Nunca imaginei que um grupo que se conheceu on-line e praticamente só conviveu on-line, pudesse ter tanta sinergia. A escolha por um trabalho coletivo que, de certa maneira, esconde os autores, fez com que houvesse uma tentativa de, ao mesmo tempo, respeitar os estilos e características que conhecíamos uns dos outros ao analisar seus textos, enquanto, de certa maneira, abrimos mão do que há de mais pessoal no nosso estilo em favor do texto comum.

“Ninguém no Mundo”: Um álbum de família

Ok, já sabemos que se trata de uma história construída a muitas mãos, o que já foi definido como uma “Colcha de Retalhos” e uma “criatura Shelleyana” à lá Frankenstein, mas do que se trata o livro? A proposta é a de contar a história de uma família. Cada capítulo traz uma perspectiva a respeito das relações interpessoais e a partir do ponto de vista de uma pessoa dessa árvore familiar. 

Lembro que sugeri ser sobre uma família que se reencontra após um dos parentes ficar doente, mas depois alguém falou sobre o álbum de família ser um objeto central na trama e assim foi. E falar sobre família, tema tão explorado, poderia cair em um enorme clichê, mas tendo todo mundo nascido de uma, rende muito pano pra manga também. Nesse sentido, acho que conseguimos construir uma narrativa envolvente, inteligível, sem cair na previsibilidade do dramalhão sem sentido ou história que se explica muito e deixa o leitor sem espaço para imaginação.  – Gabriela Machado, uma das autoras de Ninguém no Mundo, em depoimento para a revista O Odisseu. 

Apesar do tema central ser decidido em conjunto, não houve uma decisão em torno de um arco narrativo. Na verdade, como conta Natália Câmara, a decisão foi a de, justamente, “não haver predefinição”. Houve um sorteio para decidir a ordem dos escritores e, a partir daquele momento, o resto foi construído a partir de um cronograma (cada um teria cerca de uma semana para escrever seu capítulo), mas o interessante era que ninguém teria o domínio ou iria sugerir o que o outro colega iria escrever. 

A própria forma do livro, na presença das diferentes vozes autorais, facilmente se conecta a uma ideia de memória fragmentada, que remete a um álbum de fotografia. Pensei, enquanto pensávamos sobre o projeto, e trouxe para discussão numa das primeiras reuniões de alinhamento. Nas trocas, entendemos que a relação familiar cabia muito bem nesse enquadramento, recortes de memória que partem de diferentes pontos de vista e espaços no tempo. – Emanuely Lima, uma das autoras de Ninguém no Mundo, em depoimento para a revista O Odisseu. 

Muitas vozes, um único livro

Gostaria também de destacar que este é um grande feito para escritores. O desafio lançado não é nada fácil e, se por um lado, a cumplicidade contribuiu para o feito, o talento desses autores para conseguir costurar essa história é o que possibilitou que ela acontecesse:

Para mim, o grande triunfo do livro é a construção de personagens tão multidimensionais. Uma hora você está torcendo para um e, de repente, ele faz uma besteira daquelas e o leitor  vê-se obrigado a encarar as incoerências que os humanizam e, sendo assim, os aproximam de nós. Fora que o título é certeiro e convida a refletir sobre uma sensação que acredito que seja universal: Quem nunca se sentiu como ninguém no mundo? E de que maneira isso é tratado na história? leia e descubra! – Contou Gabriela Machado para a O Odisseu. 

Ela está corretíssima. O desenvolvimento dos personagens, a multiplicidade de vozes e o modo como o livro se sustenta essencialmente como um romance, mesmo com diferentes perspectivas, deixa claro que estamos diante de ficcionistas talentosos. Para Emanuely Lima, o livro não apenas já nasce vitorioso, como aponta para um futuro certo:

Quantos escritores podem dizer que escreveram um romance nesses moldes? A gente brinca que o tempo dará a Ninguém no Mundo a marca de obra cult.

Ninguém no mundo, vários autores/ Ateliê Livre/ 128 pp.