
Diário de bordo: sobre francos devaneios, a dobradinha CC e prêmios achocolatados
É curioso como estamos sempre visitando e apreciando um lugar do qual alguém desejou fugir um dia.
Por Vítor Kappel.
Fotos de Vítor Kappel.
Viajo determinado a narrar um pouco dessa jornada, já incinerando a lição número um da escola de escrita: escreva sobre o que sabe. Mas o que é uma viagem senão um portal para o desconhecido? A jornada eu já explico melhor, mas envolve passar um tempinho em meio a livros, comendo chocolates (assim eu espero) entre montanhas e lagos potáveis.
Não posso dizer que sou completamente neófito em relação a esse país. Por algum motivo, a bandeira vermelha e branca, cujas cores e cruz branca de braços iguais inspiraram a Cruz Vermelha, insiste em palmilhar meus passos. O batismo da Suíça já chegou de cara, logo na origem: me desloco ao país que deu origem, sob a benção do esperto Dom João VI, à cidade onde nasci. Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro, cunhada como a “Suíça brasileira” (viva o poder dos slogans), foi colonizada por 2.000 imigrantes do pequeno país da Europa central e lembra um pouco a filha rebelde que decide se emancipar antes de entender que precisa descobrir um meio para se tornar realmente independente.
Vale a pena mencionar a primeira visita da nação que elevou o patamar da queijaria-escola. Ciência. Esse foi o mote. Conhecer “o país mais inovador do mundo”. Não sou tão pretensioso para conceder à Suíça esse slogan cheio de brilho, mas o GII (em bom português, o Índice Global de Inovação) é e lhe concedeu tal distinção. Para quem é mais curioso, poupo a busca: o Brasil ocupa a tímida 52ª posição no mesmo índice. O primeiro mergulho no país começou estranho, antes mesmo de chegar lá. Logo no avião, um rapaz disse um olá cordial e, pressupondo que estávamos na mesma delegação, perguntou:
— Você está tenso?
Subentendi que ele se referia a “andar de avião” e agradeci ao português por permitir expressões assim. Ele prosseguiu:
— Meu amigo não teve coragem de vir. Eu mesmo quase desisti. É barra pesada, né?
— Barra pesada?
Imaginei que tinha perdido algum acontecimento apocalíptico importante nas notícias sobre os alpes. Não é difícil acreditar que a neutralidade do país traga consequência uma hora.
— Muito. Confesso que estou bolado…
Foram mais três minutos de um diálogo sem sentido, eu tentando entender o que havia ocorrido de tão errado na diplomacia por lá, ele, de lábios azeitados, lamuriando ainda mais pela decisão de aceitar o convite recebido como se eu um bom terapeuta fosse; era bonito vê-lo abrir o coração em resposta a interjeições desajeitadas. Volto a me concentrar nos traços do seu rosto, até que chegamos à mais satisfatória das conclusões: eu me dirigia a coisas como o acelerador de prótons do Instituto Paul Scherrer (PSI), ele faria uma conexão para coisas como Dachau e Auschwitz. Delegações diferentes. Propósitos diferentes. Conversa de louco.
Pois bem. Desembarco, pela segunda vez, no lugar onde os bem-aventurados e escolhidos por Deus para um teste sobre paz, tenacidade, e um pouquinho de tédio foram jogados. A razão da viagem, dessa vez, é bem diferente. Diz respeito à louca decisão de escrever. Não essa tentativa de ensaio. Mas um romance. “Sob o céu de Isaías” é minha incursão na escrita e traz um garoto de 17 anos, muito gentil se considerarmos o que a idade exige dos adolescentes. Trata-se de um Bildungsroman brasileiro, ao bordar ao longo de um ano o amadurecimento tragicômico do personagem tentando a todo custo sair de sua cidade em meio a uma rede criminosa, a disfuncionalidade dos pais (e do país), e a descoberta do primeiro amor. Recomendo, sou obrigado.
Por causa de Isaías, recebi um convite. Um convite-chamado. Um chamado-convocação. Afinal, é difícil dizer não a uma viagem, que inclui na premissa a participação no Salão do Livro em Genebra. A verdade é que, sendo um escritor iniciante (onde poucas oportunidades surgem espontaneamente), é difícil dizer não ao fluxo por onde o livro vai escoando. Tem algo de instigante em descobrir em que abismo ele cairá.
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Normalmente não associo frio à felicidade, mas estou disposto a mudar de opinião. Fazer 40 anos nessa exata semana ajuda: permitir-se a coisas novas parece ser a máxima para combater o sentimento de envelhecimento precoce. Para tanto, antes do compromisso editorial, me permito conhecer as montanhas nevoentas para uma aula de ski. Aprendo logo que há uma forma de frear o tombo do corpo (onde está a ciência nessa hora para evitar o mesmo em relação às células eucariontes?). Chama-se “pizza” (também conhecida como snowplow ou V) e se refere à técnica básica para iniciantes. O Brasil parece conhecê-la bem, e eu luto para não ficar muito atrás. A neve cai pela primeira vez em minha cabeça, quase como se eu tivesse capacidade de fazê-la acontecer para realizar um sonho, em um ritmo poético e anacrônico. Isso porque há algo aqui de desaceleração, de retidão, um senso de inconformidade com o mundo hipervoltaico à nossa volta. O sublime está aqui, neste pequeno instante, neste pequeno gesto do universo. Reflito sobre isso segurando dois troços metálicos na mão e logo vem a fatalidade do sublime. O primeiro tombo é inevitável. Engulo uma massaroca fofa de gelo.
Genebra. 20.03.26.
Em termos de geografia, a Suíça é dividida em 26 cantões. O cantão de Genebra é bem cercado pela França, uma camisa de força no torso suíço, eu diria. Os cantões são como estados, mas têm bastante autonomia, cada um tem sua própria constituição, governo e até diferenças em leis, idioma e impostos. Aprendo que eles gostam de votar e que a suposta confusão do modelo pode dar certo. Por causa disso, já ocorreram referendos sobre quase tudo: de limite para construção de minaretes de mesquitas, até proposta para garantir que animais maltratados tivessem representação legal em tribunal.
O simpático guia, doutor da UFRJ, revela que trabalha no CERN: o maior acelerador de partículas do mundo. Ali nasceu uma invenção que mudou a dinâmica da vida. Em 1989, o cientista britânico Tim Berners-Lee criou o conceito para facilitar o compartilhamento de documentos entre pesquisadores.

O resultado todos conhecemos como World Wide Web (WWW). Como se não fosse suficiente, foi ali que em 2012 cientistas confirmaram a existência do bóson de Higgs, a tal partícula de Deus, que um dia se mostrará mais útil. Por enquanto, aprendo que ela serve para ser citada como partícula elementar e invisível em papos pseudo-filosóficos. O Higgs abre portas para perguntas ainda maiores. Ela se conecta, por exemplo, à matéria escura? Identifico-me com a pobre coitada.
O doutor, que resolveu trocar anos atrás o duvidoso (goteiras na UFRJ!) pelo certo aponta um dos símbolos da cidade. O Jet d’Eau. A foz de Iguaçu deles. Às avessas. Um bidê. O belo bidê cuja ponta jorra litros de água no ar forma belas cores do arco-íris em contato com a luz solar. É impossível não se sentir bem acolhido.
Andamos mais. Admiro por um instante um país onde todos têm condições de comprar canetas emagrecedoras e, portanto, piratear se faz desnecessário. Turistas comem raclete, locais comem salmão e eu como folhas de alface de um supermercado qualquer. Genebra grita para mim que esqueci de algo. Que faltei com um dever básico. Afinal, o franco foi feito para nos lembrar da dor eterna do 7×1. Pobre existência. A chegada aos 40 anos exige reflexões: meu maior mérito foi chegar nessa etapa da vida podendo colocar despesas no cartão de crédito e sonhando que um bug os apagará. Passo por caminhos cheios de obra sem cara de obras pois não há caos, não há poeira, não há gritos, quase proponho que os operários falem mais alto para não serem confundidos com diplomatas. O transporte público é o ápice da beleza do deslocamento físico e cerebral: extremamente funcional e gratuito.
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Genebra tem uma das maiores proporções de estrangeiros do mundo, onde a fila do aeroporto para diplomatas não deve representar uma grande vantagem. Vejo o prédio da ONU sendo varrido. Literalmente. Nada melhor para traduzir os dias atuais. Só que vejo também um laboratório cultural da linguagem, no qual uma profusão de crianças se aproxima. Traços e sotaques diferentes convivem harmoniosamente. Línguas se entrelaçam e compõem uma bela obra de arte intangível, mas que dá vontade de abraçar. Um belo bóson de Higgs da fraternidade. Não é isso o que o mundo deveria ser? Vou ao banheiro público. É tão limpo que testes laboratoriais poderiam ser feitos aqui sem ônus aos resultados. No olhar dos transeuntes, uma cumplicidade e confiança na riqueza de todos.
Cogito xingar alguém. Pois falta uma sensação de baixaria, uma somente, que fosse cutucar esse povo tão neutro, tão indiferente a muita coisa importante. É maquiavélico, eu sei. É Hobbes na veia, concordo. É errado, tá bom. E ainda assim, o cérebro apita coisas assim.
Uma frase famosa entre diplomatas diz: “Se você quer ouvir diplomacia, vá a Genebra. Se quer ouvir segredos, sente-se na mesa ao lado.” Então, após 20 km andando com uma ferida na perna, fruto do ato tresloucado de esquiar (todo escritor também é um masoquista!), ajo da forma mais sensata: busco uma cadeira e um chocolate quente. No caso, em um lugar bastante especial. Transformada em centro cultural/museu, a casa onde nasceu Rousseau, em 1972, conta com seis andares e é dedicada à sua vida e obra. É mais uma lição aos brasileiros sobre a residência atual de Machado de Assis, no Cosme Velho, no Rio de Janeiro – inexistente. Um prédio a engoliu.
Nesse momento, me atrevo a pensar mais nesse homem de multidões, conforme descrito pelo sagaz escritor Eric Weiner: “filósofo, novelista, compositor, ensaísta, botânico, autodidata, fugitivo, teórico político, masoquista” (puro alívio ao ler essa última parte). Sei um pouco de sua história, mas é bom relembrar. Ele tinha dezesseis anos, e se sentia inquieto, desconectado de tudo e de si mesmo. Um típico jovem de dezesseis anos. Um Isaías medieval, sob o céu nublado suíço. Que nasceu em Genebra e que fez da caminhada o vetor de sua vida. Rousseau decidiu se tornar nômade. Pergunto a uma amada amiga que arrastei nessa viagem: se fosse nos dias de hoje, ele seria o maior dos influenciadores do nomadismo digital ou rejeitaria de cara o cargo, a fim de provar sua natureza de contracorrente?

Relendo “Os Devaneios do Caminhante Solitário”, compreendo que Rousseau fez pela caminhada o que Fernanda Torres fez pelas curtidas no Instagram do Oscar. Ele dizia que só conseguia pensar bem quando caminhava. Parado, sentia dificuldade de organizar as ideias; em movimento, a mente fluía de modo livre. Ele tinha razão para isso. Se existe uma vantagem em morar na Europa, está ainda aí: sinto que é possível colocar um pé na frente do outro, sequencialmente, sem pensar no ato, e sem considerar os elementos ao redor, repito, sem que a mente esteja paranoica para se proteger de um ataque iminente. É possível pensar nas coisas bobas da vida. Desejos, aspirações, princípios. O filósofo Alan Watts disse: “Se eu desenhar um círculo, a maioria das pessoas, quando perguntadas o que eu desenhei, dirá que desenhei um círculo, um disco ou uma bola. Bem poucas pessoas dirão que desenhei um buraco na parede, porque a maioria pensa primeiro no interior, em vez de pensar no exterior. Mas, na verdade, esses dois lados andam juntos. Você não pode ter o que está ‘aqui dentro’ sem ter o que está ‘lá fora’.” Em outras palavras, o lugar onde estamos é vital para quem somos. Sendo assim, o nômade quer ser o mundo. E sendo assim, se as calçadas da Europa fazem filósofos, as do Brasil fazem sobreviventes. Mas não é só no solado brasileiro que a coisa tá feia. Olho o celular e penso neste mesmo homem, em Rousseau novamente, e no homem bom, genuinamente bom, em que ele tanto disse acreditar. Na tela, o mundo cada vez mais perto de uma terceira guerra (os alemães desta vez parecem isentos). O homem bom está tendo o mundo que merece.
21.03.26. É um mar de Lindt. Tem que ser. Assim imagino o salão do livro de Genebra. Eles precisam se diferenciar de alguma forma. Meus pensamentos, contudo, mudam de direção. Pivotam ao encontrar na exposição a prensa de Gutenberg. A expansão da cultura impressa levou a jornais, panfletos. As ideias iluministas circularam amplamente graças ao crescimento do mercado editorial europeu. Entre 1700 e 1750, o mundo viu o nascimento das ideias democráticas modernas, avanços científicos decisivos e florescimento cultural na música e literatura. Talvez eu esteja aqui por conta dessa brilhante geringonça. Sim, aqui estou eu, reduzido a uma comunicação limitada e inofensiva em francês, e aplaudindo uma máquina já obsoleta. O Iluminismo se foi, chegou a era da inteligência invisível, das nuvens, a inteligência cloudicante (a piada é infame, eu sei, mas o projeto do humano também é!)
Descubro que a feira e eu temos algo em comum. Ela também celebra o quadragésimo aniversário. Ambos nascemos no ano do desastre de Chernobyl, da explosão do ônibus espacial Challenger, sem falar na Argentina campeã. Busco, portanto, sinais de flacidez, deterioração, cansaço, mas o que vejo, graças aos deuses pertinentes que ainda desconheço, é uma efusiva orgia. Corpos por todos os lados debruçam-se pelo orgasmo da leitura. Um bom sinal. Inspiro. Dispenso chamar uma ambulância.

Em um estande promovido pela editora suíço-brasileira Helvetia Éditions, de onde surgiu o convite, exponho o livro. Descubro com mais calma um belo trabalho de fomento à literatura lusófona, um esforço para estabelecer pontes, conexões, intercâmbios. Superar fronteiras. Genebra, essa Babel supostamente corrigida, é o lugar ideal para isso. Nesse contexto, conheço a responsável, Jannini Rosa, e entendo que ela é uma “pontista” de ponta. Cavoucando, lavrando terras estrangeiras. Inovando. Que tenhamos mais Janninis no globo terrestre em prol do fomento à nossa cultura.
Olho para o estande ao lado. Livros sobre ciência. Sorrio. Mais uma vez, a combinação CC me persegue. A dobradinha espirituosa. A que dá espírito às coisas, de fato. A sigla lida em português não soa bem, mas é tempo de ressignificá-la. Ciência e cultura numa cerimônia de casamento feliz. A razão pela qual visito duas vezes essa terra. O alvo escolhido por mentes mequetrefes em tempos covidianos, que insistem em não se extinguir por completo. Quase canto para celebrar. Mas um segredo sobre mim: não existe tal coisa em minha laringe, ela é um rastilho de bruma para notas musicais. Tudo que sai, sai em forma esquisita de ópera. Não há inteligência musical no meu repertório. Acho bom. É feito para deixar o ego escrachado, sempre em temperatura negativa.
Forço-me a pensar, copiando o rebelde e astuto Rousseau. Ando sozinho no belo salão. São 100.000 m² de quintal. Converso comigo. Busco correlações. Estruturo hipóteses. Busco o banal. Convenço-me de que o que é interessante é o que não está visível, os micróbios.
Testo ideias para novas obras. Questiono-as. Obrigo-me a interagir com meus pés. Pauling, o renomado químico e duas vezes ganhador do Prêmio Nobel, uma vez foi perguntado por um aluno como ter boas ideias. “É fácil”, respondeu Pauling. “Você tem um monte de ideias e joga fora as ruins.”
Cérebro. Pés. Cérebro. Pés cinéticos. Cérebro cansado. Estresse exemplar. Curto-circuito. Rezo, então, pelas borboletas divinas, com uma mensagem preciosa para mim, do jeitinho que acontecia com o maior dos andarilhos europeus.
Canso. Busco algumas referências no celular. Um estudo conduzido pelo King’s College London mostra que observar obras de arte em museus reduziu o hormônio do estresse (cortisol) em cerca de 22%. Prometo-me encarar quadros de Matisse. Os participantes também apresentaram redução de marcadores inflamatórios associados a doenças crônicas. Para a ciência, arte não é apenas estética ou entretenimento — é um fenômeno cognitivo, biológico e social complexo. Em outras palavras, a arte é um instrumento de coesão social, domando assimetrias, dobrando densidades e transformando texturas diferentes em um único fluído. Nesse sentido, onde estão os mecenas atuais (alô!, se algum estiver lendo, basta me contactar na rede social), de modo a apoiar mais coesão em um mundo cada vez mais estratificado e estraçalhado?
A arte é subjetiva. Andar não. Um moço me cumprimenta, um que parece sempre olhar de soslaio e comentar algo irônico para uma câmera escondida. Vejo que tenho uma fita de papel higiênico colado no tênis, uma serpentina me perseguindo por metros. Paro. Entendo que vale questionar um pouco menos. E apreciar mais.
De Gênova, Rousseau foi embora. É curioso como estamos sempre visitando e apreciando um lugar do qual alguém desejou fugir um dia. A paisagem interna é a maior das bestas ou santidades. Busco um chocolate no bolso, formidável em açúcar para o meu eu interior!
Ainda há uma cereja no bolo, descubro. Um prêmio. A novos talentos selecionados pela curadoria da editora suíço-brasileira. O evento ocorre num lugar como a maioria, muito mais sofisticado do que eu, a International School of Geneva (Ecolint), a primeira escola internacional do mundo, fundada em 1924, promovendo desde então uma educação com visão global e pacifista. Meu nome é chamado. Por incompetência cognitiva, levo segundos para entendê-lo. Não é o melhor momento, mas a notícia me faz ponderar sobre reconhecimento platônico, sobre a natureza e utilidade de prêmios, da arte – a profunda impressão de ser útil é um belo blefe, uma bela miragem, gritaria Oscar Wilde -, e novamente de envelhecimento precoce. Sorrio com timidez. Estou suíço. Isso também significa que sou obrigado a renunciar ao direito ao silêncio. Seguro o troféu. Agradeço. Falo algumas palavras graciosas enquanto meu braço, alongado, não sabe o que fazer. O contrato social pode ser, às vezes, gentil: a plateia preenche o espaço com palmas. Um público de novos amigos, novos colegas, sonhadores. Coquetel. Agora que suíços e brasileiros dão abraços, posso me ausentar. Busco queijos. Não pergunto, mas alguém diz que há estoques de queijos para bunkers no país em caso de dramas alheios à neutralidade. Planejamento. Apocalipse. Fumaça. O maior dos prêmios suíços: sobrevida gourmet. Neocolonização pacífica. Novos bebês Rousseau. Fronteiras virtuais. Mamadeiras achocolatadas.
Em seguida, viro novamente uma partícula invisível, quântica, eu diria. Ao mesmo tempo, 0 e 1. Celebrando e interrogando. Observação fundamental: não é justo receber prêmios sem entender o drama da injustiça. No coração dos escritores, quero crer, toca uma música feliz e triste ao mesmo tempo, porém mais questionadora do que feliz e triste quando o assunto é prêmio. Quem de fato o merece? Tampouco é fácil recusá-lo, quando significa validação para a continuidade de uma trajetória em que há amor envolvido e na maior parte do tempo rejeição. Sobrevida gourmet. Os prêmios são como flores: agradam, mas murcham, disse Jean-Paul Sartre. Eles podem ser uma ponta afiada dos melhores canivetes. Basta acreditar neles. Pois assim é minha tese: todo mundo merece um prêmio! Porque não há nada mais revelador do que achar uma veste para o ego.
Um destino não é onde pisamos no final. É a marca suntuosa que nos deixa quando regressamos. Tenho um prêmio na estante e um provável nome no SPC. Segundo Schopenhauer, nunca há satisfação duradoura. Como forma de diminuir um ciclo infinito de desejo e tédio, ele propõe a própria arte, a contemplação estética. Busco novamente por telas de Matisse. E mecenas.

Vítor Kappel nasceu em Nova Friburgo em 1986. Formado em engenharia, trabalhou na última década com apoio a projetos audiovisuais, pesquisa e inovação no país. Mais recentemente, dedica-se a escrever suas obras de ficção. Sob o céu de Isaías é seu romance de estreia.
