
“A boca gosmenta de tanta cerveja morna”: Sobre ‘Só fumo quando bebo’, de Marcelo Henrique Silva
Em Só fumo quando bebo, Marcelo Henrique Silva escreve histórias que deixam um gosto amargo na boca, ora de cigarro, ora de cerveja.
Foto: Rafael Sandim e Catarina Paulino.
I
Lembro, como se fosse hoje, de quando li um dos contos de Caio Fernando Abreu: “Terça-feira gorda”, contido no livro Morangos mofados. No texto em questão, acompanhamos dois homens se conhecendo e a explosão de tesão – comparada a um figo – do encontro daqueles corpos disruptivos no meio do carnaval. Samba, pelos, suor e volumes na sunga criam uma atmosfera erótica e sedutora, que se contrapõe às violências verbalizadas pelo povo ao redor e ao final trágico da narrativa, um jogo entre real e alucinação causada pela ingestão de drogas sintéticas das quais o casal protagonista faz uso.
Mas, nesse conto, algumas coisas me chamam a atenção: o encadeamento de fatos narrativos cria um ápice. Há, naquele espaço curto de tempo, uma construção em que os acontecimentos estão interligados e constroem a relação do casal gay. Logo, o desfecho não seria o mesmo se, por acaso, o casal não se encontrasse e o desejo não aflorasse. Outro elemento que me chama a atenção é que, mesmo falando de festa, de desejo e corpo, Caio F. não deixa de abordar temas importantes para a comunidade, como o discurso homofóbico, além de fazer uma crítica interessante sobre o carnaval e sua permissividade: a festa que acaba em tragédia, com imagens e gostos suscitados em todo o conto.
Esses elementos dos contos de Caio F. reverberaram em mim quando comecei a ler o mais novo livro de Marcelo Henrique Silva, Só fumo quando bebo (Tusquets, 2026). O autor mineiro, médico e vencedor do Prêmio Jabuti de 2025 com Sangue neon na categoria Escritor Estreante de Romance, se aventura, desta vez, pelas narrativas curtas. O livro, constituído de dez contos, aborda cenários distintos e temas diferentes que fazem parte da vivência de pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil, não deixando de lado as discussões sociais, nem as especificidades de cada sujeito que compõem a pluralidade da sigla. Há personagens gays idosos marcados pela solidão, lésbicas, travestis e narrativas sobre a construção do mundo e a pré-história, todos com esse recorte voltado para as questões de gênero e sexualidade.

Só fumo quando bebo é um livro que incomoda
II
O título do livro, que consta num dos contos, na minha leitura, organiza a estrutura das relações entre os fatos. Há uma dependência direta entre o presente narrativo e o passado das personagens. Assim, em muitos momentos, Marcelo Henrique Silva vai ofertando doses homeopáticas do passado atrelado ao presente, por vezes por meio de uma rememoração marcada pela interferência direta das personagens sobre os fatos ou, na forma mais clássica, por meio de flashbacks.
Marcelo Henrique Silva escreve histórias que deixam um gosto amargo na boca, ora de cigarro, ora de cerveja. Nada nos textos é tranquilo ou passível de uma leitura plana, sem estranhamentos. Só fumo quando bebo incomoda. A criança que vê os pais transando, a sombra pré-histórica, a solidão do gay enfermo, as travestis que morrem no Carandiru. Senti o gosto amargo da cerveja.
Esses procedimentos de idas e vindas que conectam tempos e, por vezes, aproximam leitor e personagens ficam evidentes, por exemplo, no primeiro conto da obra, “Natureza-morta”. Aqui, o leitor acompanha um tema muito caro para a comunidade gay, o envelhecimento e a solidão pungente que o acompanha. Afinal, quanto mais velho o homem gay fica, mais difícil é manter relações afetivas duradouras. Nesse momento em que se encontra no leito de morte, o protagonista pensa no seu passado, em como deixou um grande amor ir embora. O vazio da sala de hospital está associado ao vazio que ele sente por não ter um companheiro e à solidão que o fim da vida carrega.
[…] Hoje tudo o que eu mais quero é cagar. Sexo não há mais, não há muito tempo. Depois dos meus sessenta, tentei aproveitar toda oportunidade que me aparecia. Mas parece que a gente já morre antes de falecer nesse mundo gay. Quando se é jovem e bonito, você consegue viver de tudo. Depois que começa a ficar decadente, ninguém mais quer saber de você. (p. 13)
Silva não deixa de lado as demandas históricas da comunidade LGBTQIAPN+. No livro anterior, o foco foi a epidemia de AIDS no Brasil. Agora, em alguns contos o autor volta a revisitar o passado da comunidade. No conto “Rua das Flores”, o foco narrativo é o Carandiru, narrado por um personagem que conta sobre a estadia no presídio, que culminou numa chacina que vitimou 111 pessoas. A rememoração é sobre esse corredor que abrigava travestis que estavam presas, muitas das quais morreram no massacre. O narrador não deixa de contar o cotidiano naquele lugar, as transações com outras partes do presídio e os modos de sobrevivência e a pulsão de vida que essas mulheres organizam para se manterem vivas naquele local.
Se eu dissesse para você, irmão, que passei casto por lá, vou estar mentindo. Porque, como disse, havia verdadeiras princesas no Pavilhão 5. Me envolvi com algumas delas. Me apaixonei e fui trocado, parti corações e sempre prazeres. Eu vivi na Rua das Flores com toda a intensidade que se podia viver. Era essa a questão, parceiro, viver. Minha pele voltou a ter cor, meus dias voltaram a significar. Sempre havia festas, desfiles, brincadeiras, concursos. Claro que havia violência e drogas, claro que havia doença e morte. A gente estava dentro do cu, lembra? (p. 52-53)
Esse olhar atento às subjetividades das personagens e às demandas da comunidade está presente também no romance, sem deixar de ter cuidado com a linguagem. Neste livro de contos, a edição e a narrativa são mais polidas e podem ser ágeis, o que contribui para o leitor entender que os acontecimentos são importantes para alinhavar os textos, conceitualmente falando. Logo, é um livro em que o texto está centralizado na página, com parágrafos marcados por uma linguagem direta e sem muitas descrições, diferente do empreendimento feito no livro anterior.
Em alguns momentos, o autor sai do tempo presente cognoscível e retorna a um passado remoto, pré-histórico, como no conto “Tem alguém lá fora”, para abordar um relacionamento gay marcado pela fuga de uma sombra que ameaça o casal. Para mim, esse é um dos melhores contos do livro, pois aqui o olhar sobre o passado está atrelado a imagens que reverberam no presente: a sombra que ameaça o casal, a simbiose com a natureza, metáforas e demandas que estão em voga hoje em dia.
A coisa apagava o que restava do fogo com seu hálito de gelo. O ser lá fora os chamava, convidando a um contato direto. Era como se fosse um espectro de outros tempos, um prenúncio de um futuro, uma mensagem que ecoava feito seus gritos pelos vales e cânions, mas de forma reversa, do tempo adiante, do tempo dos homens e suas sociedades, do tempo de um novo mundo, retrocedendo pelas eras e revoluções, civilizações e odisseias, até ali, até os dias. Aquela aparição era a sina de homens como eles. (p. 105-106)
Ao retornar às relações contemporâneas, se no primeiro conto o autor aborda a solidão de um homem gay, em outros momentos há uma travesti narrando sua relação com um homem mais novo. Também aparecem as relações rápidas provenientes de aplicativos e a forma como homens gays se mostram cansados dessa dinâmica e buscam outros modos de se relacionar. O conto “hoje vou sair”, todo escrito em minúscula, que reitera o oposto do título, e com frases curtas separadas por pontos, acompanha o protagonista decidindo sair, se arrumar e, no final, desistindo, tudo por causa da estafa provocada pela rotina em que as performances afetivas se repetem no dia a dia: “preciso fazer alguma coisa. do jeito que está não pode continuar” (p. 147).
Para além disso, há o erótico, o sedutor, o imaginativo. O livro possui um tom de urgência ao atrelar demandas tão necessárias sobre a experiência contemporânea de sujeitos de sexualidades e gêneros dissidentes. Marcelo Henrique Silva mostra ao leitor que o Prêmio Jabuti não foi em vão, com uma linguagem direta e muito dinâmica. Como no livro anterior, as personagens continuam bem construídas e marcantes, o que transforma Só fumo quando bebo num livro de contos sem contos ruins. Pelo contrário, é tudo muito inventivo e coerente com a comunidade LGBTQIAPN+ e suas especificidades.


