Crítica

Entre o absurdo e a política: o Brasil vermelho de Luiza Conde

Em tempos de polaridade política, Luiza Conde alia realismo fantástico e humor ácido em narrativa provocadora sobre discursos distópicos e inimigos imaginários.

Por Ana Luiza Rigueto.

Foto de Charles Pereira.


“Um dia tudo amanheceu vermelho no Brasil.” Assim começa Vermelho (Urutau, 2026), o mais recente livro de ficção da escritora carioca Luiza Conde. Nele, a literatura fantástica se transforma em uma lente de aumento para observar as tensões da sociedade brasileira contemporânea. 

Em uma narrativa curta, ágil e marcada por humor ácido, a autora constrói um país em que tudo e todos se tornam vermelhos. Assim, dá contorno ficcional a discursos ideológicos que transformam a cor vermelha, e o que ela simbolicamente representaria, em ameaça absoluta. Ao exagerar esse temor até o limite do absurdo, a obra expõe as contradições daqueles que combatem um mal inventado, sem ao menos compreendê-lo.

Ao dialogar com uma tradição de autores latino-americanos, tais como Gabriel García Márquez e César Aira, que utilizam o fantástico para reinterpretar conflitos sociais e políticos, Vermelho consegue transformar o insólito em ferramenta crítica. 

Através de situações que chegam a ser cômicas, Vermelho, de Luiza Conde propõe reflexões sobre os mecanismos de manipulação política

A ausência de nomes próprios para os personagens, recurso literário que já havia sido marcante em sua publicação anterior, Relógios Partidos (Litteralux, 2024), reforça ainda mais o caráter alegórico do texto. A obsessão pelo combate ao vermelho contamina todas as esferas da vida, criando um retrato simultaneamente absurdo e reconhecível de uma sociedade atravessada pelo medo, pela desinformação e pela polarização. 

Através de situações que chegam a ser cômicas, o livro propõe reflexões sobre os mecanismos de manipulação política, os discursos de massa e a facilidade com que símbolos podem ser transformados em inimigos. O resultado é uma narrativa breve, provocadora e atual, que reafirma a capacidade da literatura fantástica de lançar novas luzes sobre os impasses do presente e imaginar um futuro modificado. 

Ou, como lemos em dada altura da narrativa: “O tempo foi levando embora o desespero de que os patriotas se alimentavam e a certeza nas suas promessas. O vermelho foi deixando de ser doença para virar hábito, costume. As pessoas começaram até a enxergar alguma beleza em tantos tons de escarlate, bordô, vinho e carmesim.” 

Vermelho, de Luiza Conde
Editora Urutau (Hecatombe), 2026
20 pp.

Ana Luiza Rigueto é poeta e jornalista, doutoranda em Literatura (UFRJ), crítica literária, criadora da Trampolim e autora das plaquetes TeatrinhoBodybuilder e Maria & Maria.