
Fred Itioka: “Enquanto o machismo continuar enraizado nas culturas, a relação entre filhos LGBTs e a família continuará sendo um território de violências”
Em entrevista para O Odisseu Fred Itioka fala sobre a origem do livro “Cartas fora do armário”, livro que narra a relação entre filhos gays e seus pais.
Foto de Ricardo Soledade.
Escritor e jornalista, Fred Itioka é autor de Cartas fora do armário, livro que reúne cartas anônimas escritas por homens gays para seus pais. A ideia surgiu durante a pandemia, quando o medo de perder os pais fez o autor se deparar com a distância que existia entre ele e o próprio pai. A partir de conversas com amigos e de uma pesquisa que o levou a ouvir homens gays de diferentes partes do mundo, percebeu que aquela dificuldade de comunicação era uma experiência coletiva.
O livro também discute as particularidades culturais que atravessam essas relações.Nas cartas, aparecem homens do Brasil, Japão, Indonésia, Taiwan, Índia e Irã, mostrando como diferenças culturais podem modificar a maneira como o afeto e o conflito se manifestam, sem necessariamente eliminar a sensação de distância entre pais e filhos.
Quase dois anos depois do lançamento, Cartas fora do armário continua encontrando novos leitores, mas Fred Itioka já prepara seu próprilo livro, Cartas ALÉM do armário, continuação do projeto que amplia o olhar para lésbicas, pessoas trans, bissexuais, não binárias e intersexo.
Em entrevista para O Odisseu, ele fala sobre a origem do livro, as histórias que seus leitores compartilham, a relação entre filhos gays e seus pais, suas primeiras referências literárias e o que pretende com sua próxima obra.

“Acho que muitos meninos ou homens gays se veem um pouco representados nestes parágrafos”, diz Fred Itioka sobre Cartas fora do armário
Quando decidiu publicar Cartas fora do armário?
Cartas fora do armário surgiu de uma angústia pessoal e que mais tarde se revelou coletiva: quem somos para nossos pais e o que eles são para nós? Durante a primeira fase da pandemia, em 2020, em que as primeiras vítimas eram os idosos, fiquei com muito medo de perder meus pais. Em uma destas noites longas, falei com minha mãe pelo telefone e ela logo passou o aparelho pro meu pai. Ele sempre foi avesso a conversas telefônicas, assim como uma pessoa de poucas palavras. Mas ao final de um curto diálogo, eu terminei com uma declaração de amor inesperada para ambos e disse ‘te amo’. Ele ficou atônito e não soube disfarçar. Eu senti o meu incômodo ao desligar. Nunca fomos próximos e cresci em um mundo diferente do dele. Aliás, sempre achei que fôssemos de mundos diferentes. E sendo LGBT, o abismo era gigante, sem nenhuma ponte. A estranheza da frase ecoou durante toda a madrugada e fiquei lembrando de algumas conversas com amigos, todos homens gays, sobre a dificuldade de conexão com a figura paterna, dos ressentimentos, dores, violências, expulsões e deslocamentos geográficos que nenhuma distância física curou. E comecei a pesquisar sobre o assunto, procurar personagens e ouvir suas histórias. Fui repórter por alguns anos e esta curiosidade pelo outro, me fez ir além e procurar por histórias de homens gays de outros países e culturas.
Queria saber se o mesmo sentimento do homem gay brasileiro em relação ao pai se uniria ao de um homem gay na Rússia, ou no Japão, ou no Irã. A partir daí, foram cerca de 100 entrevistas, conversas longas, difíceis, muita desconfiança, e-mails não respondidos, silêncios, espera, desistências. Pensei em transformar estes relatos em ficção, até que um rapaz da Jordânia me disse que a vida dele não era ficção. E ele tinha razão. Tive então a ideia de desafiar alguns destes meninos e homens a escreverem uma carta anônima para o pai contando tudo que sempre tiveram vontade ou desejo, mas que nunca tiveram coragem ou oportunidade. Este processo exigiu deles e de mim uma parceria muito trabalhosa, porém emocionante: cavar traumas, transformar em palavras. Muitos nunca tinham escrito uma carta e este exercício foi segurando na mão de cada um, respeitando o tempo de cada um, a forma de expressão de cada um e nunca apontando rumos, mas sugerindo caminhos. Descobrimos juntos cada carta, cada parágrafo. Em posse de algumas delas, procurei uma editora que abraçasse a obra. Demorou, quase desisti, cheguei a pensar que o projeto não teria asas. Mas quase um ano depois conheci virtualmente o Jean Cândido, da Edições Cândido, marcamos um café em São Paulo e ele se apaixonou pelo Cartas, que nesta época não tinha título, nem corpo. Como dupla, também passamos a moldar o livro, procurando uma cara e uma forma de existir. Em 9 meses lançamos em São Paulo, logo depois no Rio e seguimos quase um ano passando por outras cidades e sendo abraçados pelo público.
Como foi a experiência de ler as cartas conforme elas chegavam? Tem alguma que te marcou mais?
Durante o processo de entrevista, algumas online, outras presenciais, fui acessando lugares que não fizeram parte de mim. E assim, com muito respeito, entrando na casa de muita gente. Casa em todos os sentidos: moradas, espaços mentais, afetivos, lugares escuros, trancados. O que muita gente não sabe é que após as conversas, algumas duraram meses e até anos, muitos desistiram antes mesmo da escrita. Revisitar passados e traumas foi um peso que nem todos suportaram. Fiquei muito frustrado quando um dos meninos desistiu. Neste dia decidi escrever uma carta ao meu pai, que inicialmente não estava no projeto. E aí senti na pele a dificuldade de encarar uma página em branco e sentimentos orbitando. Esse auto exercício me fez ter outro olhar para o coletivo e entender o tempo de cada um. Quando as cartas começaram a chegar, fiquei muito impactado com a coragem. Todos foram muito corajosos em compartilhar dores que nunca cicatrizaram, palavras nunca ditas, tristezas e decepções nunca externadas, principalmente com um desconhecido. Chorei muito com várias delas porque carregam um pouco de cada um de nós, acho que muitos meninos ou homens gays se veem um pouco representados nestes parágrafos. Seja de que cidade ou país ou cultura. A dor do rapaz da Índia pode ser a mesma do garoto da Zona Leste de São Paulo. A falta do abraço sentido pelo homem japonês de Tóquio pode ser a mesma do homem 60+ de Salvador.
Todas as cartas me impactaram de alguma forma: a do menino iraniano que ainda hoje deseja que o pai o ame, mesmo sob a rigidez da religião muçulmana e do Estado que criminaliza os LGBTs. Aqui no Brasil, do menino periférico cujo pai abandonou a família por preconceito e LGBTfobia, que na época da nossa conversa não se enxergava como alguém digno de amor e respeito, mas que depois da carta passou a se valorizar como sempre deveria ter sido. Carrego por todos eles uma imensa admiração, mas um xodó por estes dois meninos brilhantes.
“Temos mais acesso à informação, ao debate, mas estamos ouvindo o outro e acessando as dores do outro?”
Como você avalia a relação entre filhos gays e pais heterossexuais? Esses filhos e pais estão dispostos a resolver suas relações?
Ao mesmo tempo que ampliamos nosso lugar no mundo através da luta diária e muito do trabalho dos nossos mais velhos, sinto que o lugar do afeto ainda não alcançou o mesmo patamar. Temos mais acesso à informação, ao debate, mas estamos ouvindo o outro e acessando as dores do outro? A nuvem conservadora que paira sobre o mundo, especialmente no Brasil, vai se dissipar? As religiões vão continuar impondo regras dentro das famílias? Enquanto o machismo continuar enraizado nas culturas, a relação entre filhos LGBTs e a família continuará sendo um território de violências. Nas conversas com os leitores e o público nos lançamentos, clubes de leitura e encontros, sinto que a dificuldade de diálogo e afetividade ainda permanece, não apenas com a figura paterna, mas inclusive com outros membros da família. Homens gays continuam sendo expulsos de casa e não estamos falando das décadas de 60 e 70, mas 2025, 2026. Meninos de 14, 15, 20 anos me escrevem relatando histórias horríveis com o pai, de desrespeito e violência física em capitais como São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. Homens e meninos que ainda precisam esconder sua sexualidade no interior do país.
Resolver essa questão é um caminho longo que precisa de uma ampla frente na sociedade e que envolve educação. Tendo a acreditar que ninguém queira existir no hiato, nem pais e nem filhos. Que todo mundo deseja existir com alegria e leveza e que juntos podemos enfrentar melhor as desigualdades com justiça. Mas a relação de cada um, de cada núcleo, de cada família é tecida de camadas complexas e mistérios. Espero sinceramente que todo mundo consiga viver uma vida digna.
As questões culturais de origem asiática aliviam ou agravam essa relação?
Sendo asiático, não tinha como não incluir esta representatividade no livro. Ser asiático no Brasil é uma questão pouco falada fora do círculo ‘amarelo’ e menosprezada por parte da sociedade que pratica racismo recreativo e xenofobia sem nomear como tal. Ser asiático é viver em um limbo existencial: no Brasil você não é visto como brasileiro, mas como “japonês, coreano ou chinês”. Nos demais países asiáticos, somos lidos e tratados como estrangeiros. Tudo se agrava quando se é asiático LGBT, quando somos reduzidos a objetos de curiosidade sexual ou desprezados por não sermos brancos. A cultura asiática é costurada no silêncio e respeito aos mais velhos e a vida privada é um assunto delicado. Os gestos de afeto também são mais sutis e até incompreensíveis ao olhar dos não-asiáticos. Na minha casa não tinha abraço, contato físico e nem palavras mais acolhedoras. Não tinha declaração de amor, nem palavras carinhosas, mas tapinha nas costas. Demorei a entender que amor e afeto, para algumas famílias asiáticas, não eram como das demais famílias que eu conhecia, vizinhos, de amigos da escola. Esta falta explícita do gestual me fez acreditar que faltava amor. Como gay e amarelo, nascido na década de 70, em plena Ditadura Militar, não havia nenhuma abertura para diálogo em casa. A descoberta da sexualidade e a entrada nela foram no escuro, sem apoio ou espelho. Na adolescência não conheci nenhum outro asiático gay, o que me fazia acreditar que eu era o único, portanto, com “defeito, anormal, com problemas” como algumas tias falavam. Para piorar, muitas famílias asiáticas reproduzem e perpetuam a cultura machista e o patriarcado, até mesmo nos dias de hoje.
No Cartas fora do armário têm correspondências de homens gays do Japão, Indonésia, Taiwan, Índia e Irã, todos países cujo machismo dita ainda o comportamento na sociedade, nas famílias e relações de trabalho. Mesmo em Taiwan que foi o primeiro país asiático a reconhecer a união entre pessoas do mesmo sexo e que têm politicas públicas para LGBTs, existe ainda um buraco entre o que diz a lei e o que acontece em casa. A carta de um dos homens japoneses é a mais curta de todas, quase um bilhete. Quando conversamos, ele me disse que nunca havia falado com o pai sobre sua sexualidade, mas que nunca tinham falado sobre quase nada. O silêncio era parte da relação e cultura deles.
Como tem sido o retorno dos leitores?
Quase 2 anos após o lançamento, o livro tem seguido seu caminho. O que mais tem me surpreendido é que ele tem sido abraçado também por 2 categorias: psicólogos e educadores, o que me deixa profundamente feliz. Também serviu de fonte para uma pesquisa universitária e tema de debate entre jovens de bibliotecas comunitárias na periferia de SP. Estar presente neste encontro e ouvir destes meninos e meninas sobre como estas cartas têm atravessado as suas descobertas e vivências me emocionou muito. Nestas horas sinto que o projeto ainda vai cruzar muitas fronteiras. No ano passado fui surpreendido com o convite de participantes de um clube de leitura de homens gays 60+. A lição de casa deles para o encontro era escrever uma carta para o pai como exercício literário e de autoconhecimento. Cada participante leu sua carta e naquela noite me senti agradecido por poder dividirmos juntos a experiência de sobreviver a tantas violências e celebrarmos, também juntos, as novas possibilidades de amor. Saí feliz, porém um pouco destruído, com enxaqueca de tanto chorar. Nunca contei isso pra eles.
Muitos leitores me escrevem por redes sociais compartilhando suas histórias e segredos, às vezes por áudio. Uns pedem ajuda de como lidar com a situação e é difícil não pensar em cada uma destas pessoas. Carrego em mim um pouco de cada uma delas, mesmo sem as conhecer pessoalmente.
Quando foi seu primeiro contato com narrativas literárias sobre a comunidade LGBTQIA+?
Minha adolescência foi marcada pela solidão e homofobia diária durante as aulas com anuência dos professores. Meus amigos da escola passaram a me abandonar quando perceberam que minha masculinidade não performava com o que se esperava dos meninos. Eu não gostava de futebol, era péssimo. Não participava das ‘brincadeiras’ violentas e machistas com as meninas. Até minha letra toda redondinha era vista como de “menina”. Como não era mais chamado para as festas de aniversário e demais atividades sociais, encontrei na literatura uma parceira inseparável e que dura até hoje. Fugindo das perseguições e ataques, passava o recreio na biblioteca da escola, que mesmo pública, tinha um acervo considerável. Foi lá que conheci Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados. Demorei a compreender o que a obra me dizia, mas senti uma identificação imensa com os sentimentos. Caio escreveu este livro aos 34 anos, eu li com 14. Mas ao final da leitura parecia que não havia barreira de idade.
Também me recordo do impacto ao ler O Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, e de ter perdido o sono imaginando aquela história de amor e tristeza, escrita ainda em tempos tão proibitivos e como pôde chegar até as minhas mãos adolescentes em plena ditadura! Viva os professores que souberam driblar a repressão e nos indicar esta obra.
Na biblioteca descobri Dorian Gray, que li duas vezes. Jamais vou esquecer da funcionária dizendo que talvez não fosse pra minha idade, que eu não entenderia. Foi um dos livros mais marcantes daquela fase e ainda é até hoje.
Ainda na adolescência li 2 livros que não têm exatamente uma temática LGBT, mas que traziam uma imagem de amizade masculina que eu sonhava e idealizava ter: Vidas sem rumo, de Susan Eloise Hinton, e Menino Pássaro, de William Wharton. O primeiro virou filme com o título Outsiders, com direção de Francis Ford Coppola, e com um elenco desconhecido: Tom Cruise, Ralph Macchio, Patrick Swayze. O segundo também teve versão no cinema como Birdy, Asas da Liberdade, com Matthew Modine e Nicolas Cage. O rapaz que, traumatizado com a guerra, passa a achar que é um pássaro. Bem significativo, né? Todos estes livros continuam na minha estante até hoje e reli cada um deles com outra interpretação e dimensão, mas a mesma emoção.
Está trabalhando em algum livro atualmente?
Estamos agora na fase final de edição e revisão do próximo livro ‘Cartas ALÉM do armário’, que dá seguimento ao projeto e que nasceu de uma inquietação minha em relação às lésbicas, pessoas trans, bissexuais, não-bináries, intersexo, além dos homens gays, claro, e suas famílias. O empurrão final veio através de uma conversa no camarim com a cantora Daniela Mercury. Ela folheou o Cartas fora do armário, elogiou e perguntou: ‘Não tem carta de mulher?’. Temos e muitas! Desde o lançamento do Cartas, nunca parei de entrevistar e conhecer gente. Desta vez, o foco é na população LGBT brasileira, ainda invisível pro IBGE, mas que está ai: ao seu lado no trabalho, na escola, seu vizinho, vizinha, no transporte público, na luta pelos direitos e sendo vítima de ataques diários em todo o país. Tem cartas de travestis da região sul, indígenas, homens gays 70+, lésbicas periféricas, egressa do sistema prisional, homens e mulheres bissexuais julgados pelo preconceito familiar, refugiados que encontraram um lar aqui no Brasil. Cartas Além do Armário, de certa forma, é minha forma de dizer: nós existimos para além das pesquisas e estatísticas. Temos nomes e CPFs, somos eleitores e pagamos impostos.
A escolha do “ALÉM” tem a ver com a nossa caminhada após a saída do armário, que já marca a ruptura de um ciclo difícil. Ir além depois deste movimento é continuar a enfrentar a sociedade todos os dias, desde a hora que levantamos da cama e colocamos a cara na rua.


