
Por uma nova paternidade
Porque não há igualdade de gênero possível enquanto insistirmos em acreditar que o cuidado pertence naturalmente às mulheres.
Arte: “The Betrothal: Lessons: The Shipwreck, after ‘Marriage a la Mode’ by Hogarth” (O Noivado: Lições: O Naufrágio, após ‘O Casamento à Moda’ de Hogarth), da artista luso-britânica Paula Rego, 1999. Tate Museum. Reprodução.
Esse é o meu desejo para esse Dia dos Pais. O modelo milenar, sabemos, está ultrapassado simplesmente porque as mulheres estão exaustas e os meninos precisam crescer sob novos paradigmas paternos. E, pensando nisso, gosto de receber boas dicas de leitura e, quando o escritor e professor Julian Fuks faz uma sugestão, costumo segui-la porque sei que encontrarei uma especial, capaz de ampliar não apenas meu repertório literário, mas também meu modo de olhar para o mundo. Foi assim que me vi mergulhada nas páginas de Literatura infantil: Cartas ao filho (Companhia das Letras, 2023), do escritor chileno Alejandro Zambra.
No livro, o narrador acompanha o crescimento do filho, registra episódios do cotidiano para preservar lembranças que a criança inevitavelmente esquecerá e, ao mesmo tempo, interroga, com enorme delicadeza, o universo masculino, sobretudo a paternidade. Um dos trechos mais poderosos está logo na página 8, quando escreve: “Enquanto as mulheres transmitiam às suas filhas o imperativo asfixiante da maternidade, nós crescemos mimados e incautos e até cantarolando ‘Billie Jean’. Nossos pais tentaram, à sua maneira, nos ensinar a ser homens, mas não nos ensinaram a ser pais. Os pais deles tampouco lhes ensinaram isso. E assim por diante.”
Fechei o livro, mas permaneci presa àquela página. Pensei no meu pai e no pai dele. Depois, no meu marido e no pai dele. Sem perceber, desenhava uma espécie de árvore genealógica da paternidade, tentando entender de onde vinha esse modelo de homem que atravessou gerações.
Cresci numa casa onde os homens eram servidos. Minha avó materna mimava meu pai como se ele fosse mais um filho. O cuidado da casa, das filhas e da rotina nunca parecia dizer respeito a ele. Meu pai era convocado apenas quando eu fazia alguma peraltice. Bastava minha mãe dizer: “Vou contar para o seu pai” para que meu corpo enrijecesse e meus olhos se arregalassem diante do medo do castigo, às vezes por ter demorado para tomar banho ou por ter comido escondida um pacote de bolachas recheadas.
Também me lembro do meu avô paterno terminando o almoço enquanto minha avó nos advertia, a nós, netos, que brincássemos em silêncio porque ele iria cochilar e não gostava de ser incomodado. Meu avô materno sequer participou da minha infância. Desquitou-se da minha avó quando minha mãe tinha quinze anos. Cresci ouvindo histórias sobre sua rigidez e o medo que despertava nos filhos. Eram homens diferentes, mas pertencentes à mesma tradição: a de pais respeitados, temidos, provedores, porém distantes do cuidado cotidiano.
“Não existe um interruptor acionado no nascimento de um filho, nem um instinto naturalmente reservado às mulheres. Existe uma aprendizagem construída no vínculo, na presença e na repetição dos gestos de cuidado”. Myriam Scotti
Quando me casei, levei comigo uma receita pronta do que significava ser uma “boa esposa”. Só não sabia que aquela receita também previa um marido parecido com meu pai e meus avôs. Foi o nascimento do nosso primeiro filho que tornou impossível continuar representando aquele papel. Ou reformulávamos as regras da nossa família, ou não daríamos certo.
Eu não queria que meu marido fosse alguém apenas com presença marcada pelos horários de chegada e saída, como um hóspede da própria casa. Desejava um pai presente nas noites mal dormidas, nas fraldas, nas consultas médicas, nos deveres da escola, nos abraços sem motivo. Enfim, um pai que cuidasse.
Essa inquietação não nasceu sozinha. Foi alimentada pelas leituras de tantas mulheres feministas. Curiosamente, eu não tinha mulheres feministas por perto para ouvir ou observar. Foi a literatura que me despertou. Foram os livros que me ofereceram palavras para nomear um incômodo que eu carregava há muito tempo.
Giovanni poderia ter recusado meus questionamentos. Poderia ter respondido que sempre fora assim. Em vez disso, decidiu caminhar comigo por um processo longo (e muitas vezes doloroso) de desaprender. Desconstruir um modelo de masculinidade aprendido desde a infância talvez seja uma das tarefas mais difíceis da vida adulta.
Mas eu também precisava olhar para os meus dois meninos. De que adiantaria defender os direitos das mulheres, escrever sobre desigualdade e continuar educando meus filhos para reproduzirem o mesmo modelo masculino que eu criticava? Nunca gostei da incoerência. Escrever uma coisa e viver outra nunca foi uma possibilidade para mim.
Ainda caminhamos a passos de formiga, mas já encontro homens que me enchem de esperança. Homens que não têm medo de abandonar uma masculinidade violenta, insensível e autoritária para se tornarem pais amorosos, afetuosos e cuidadores. Porque não há igualdade de gênero possível enquanto insistirmos em acreditar que o cuidado pertence naturalmente às mulheres.
A ciência, aliás, desmonta essa ideia. Em O mito do instinto materno (Companhia das Letras, 2022), a jornalista especializada em saúde e ciências, Chelsea Conaboy, reúne pesquisas impressionantes que mostram o quanto a parentalidade remodela profundamente o cérebro de quem cuida. Como escreve a autora, “as pesquisas sugerem a remodelação do cérebro parental, o qual vai muito além de uma reacomodação da mobília para dar lugar a mais um papel numa vida atarefada. A entrada na parentalidade move paredes de sustentação, modifica a planta baixa, altera o modo como muita luz entra nos ambientes”. E essa transformação acontece independentemente do gênero. Aliás, acontece independentemente se quem cuida é pai, mãe, avós, cuidadores etc.; basta se aproximar e cuidar para que todo o cérebro se reprograme, pois “pesquisadores descobriram que o cérebro parental muda de modos adequados precisamente a esse propósito. Os circuitos envolvidos na cognição social – como lemos, interpretamos e respondemos a sinais das pessoas à nossa volta e das que estão em um contexto social mais amplo – parecem se fortalecer e se tornar acentuadamente responsivos ao dilúvio de sinais que um bebê fornece”. (p. 131).
Em outro momento do livro, Conaboy afirma que tornar-se mãe ou pai é um processo. Não existe um interruptor acionado no nascimento de um filho, nem um instinto naturalmente reservado às mulheres. Existe uma aprendizagem construída no vínculo, na presença e na repetição dos gestos de cuidado.
Talvez seja justamente isso que tenha faltado aos homens das gerações anteriores: não um instinto que nunca existiu, mas a oportunidade e o incentivo para viver plenamente esse processo. Se, como escreve Alejandro Zambra, nossos pais aprenderam a ser homens, mas não aprenderam a ser pais, talvez a tarefa da nossa geração seja interromper essa herança. Ensinar aos nossos filhos que o cuidado não é ajuda, favor ou exceção. É uma responsabilidade compartilhada, uma forma de amar e também de aprender. Porque uma nova paternidade não nasce pronta. Ela se constrói no dia a dia, na convivência e no cuidado com essas crianças a quem os homens costumam chamar de suas, mesmo que as vejam esporadicamente e não façam ideia do número do calçado, quanto pesam, a altura, o desenho de que mais gostam de assistir ou o nome da professora.
E, para quem quiser continuar essa conversa depois de finalizar este texto, deixo uma última recomendação: o podcast O pai tá onde?, de Gregório Duvivier. Ao ouvir pais que tentam reinventar a maneira de exercer a paternidade, encontramos homens dispostos a abandonar uma masculinidade baseada na dureza, na invulnerabilidade e no silêncio emocional para descobrir que cuidar, demonstrar afeto e acolher as próprias fragilidades também são formas de coragem. Talvez seja justamente aí que comece a nova paternidade que desejo para os meus filhos e, especialmente, para os homens que eles se tornarão.

