
Entre o caos e a permanência: a ficção de Sandro Veronesi
Ler Sandro Veronesi é ser convidado a revisitar nossas próprias perdas, a interrogar nossos afetos e a repensar a ideia de futuro.
Foto: Divulgação.
Há escritores que parecem retornar sempre ao mesmo tema, não por mera redundância, mas por fidelidade a uma espécie de obsessão. O escritor italiano Sandro Veronesi é um deles. Em seus romances, a vida costuma ser transpassada por acontecimentos que desorganizam tudo: uma morte inesperada, uma tragédia familiar, uma perda amorosa, um abalo capaz de dividir a existência entre um antes e um depois. A partir desse ponto de ruptura, seus personagens não seguem simplesmente adiante. Eles permanecem em gerúndio: resistindo, hesitando, escutando, tentando compreender aquilo que talvez jamais possa ser inteiramente compreendido.
É por isso que a republicação de Caos calmo, no Brasil, dessa vez pela Autêntica Contemporânea (2026), permite ao leitor brasileiro reencontrar um dos nomes mais importantes da literatura italiana contemporânea em um de seus romances centrais. Escrevo “reencontrar” porque o autor já havia sido traduzido no Brasil no início dos anos 2000, mas não causou o mesmo impacto que na atualidade.
Vencedor do Prêmio Strega em 2006, Caos calmo antecipa muitas das questões que Veronesi retomaria, anos depois, em O colibri (Autêntica, 2024), romance que lhe renderia o mesmo prêmio e que, de longe, permanece como meu livro preferido do autor. Ao lado de Setembro Negro (Autêntica, 2025), essas três obras compõem o que eu poderia chamar de tríade da perda e das formas possíveis de não desistir depois que algo se rompe.
Em Caos calmo, tudo começa com uma cena intensa e muito tumultuada. Pietro Paladini e seu irmão salvam, cada um, uma mulher que se afogava no mar: dois irmãos, tão diferentes entre si, mas ambos apaixonados pelo surf, se reencontram durante o verão europeu, compartilham alguns momentos de distração e, de repente, se veem diante da morte, salvando, simultaneamente, duas mulheres prestes a desaparecer sob águas agitadas. Enquanto Pietro, o narrador-protagonista, decide segurar pelas costas a mulher que tenta resgatar e que não para de se debater, num desespero típico de quem está se afogando, ele percebe, contra a própria vontade, uma ereção inesperada.
A cena é desconcertante porque Veronesi não suaviza as contradições do corpo, da vida e da morte. Ao contrário, ele as coloca no centro da narrativa. Há ali uma simultaneidade brutal -e até risível-entre desejo e ameaça, impulso vital e proximidade do fim. No entanto, assim que a cena termina, e ainda estamos nos recuperando dos detalhes desse evento, o narrador, ao voltar para casa, depara-se com uma grande perda; E Pietro, em vez de se desesperar, trava. Em vez de reagir como se espera de alguém em luto, ou seja, cumprir o roteiro social da dor, faz uma escolha inusitada: decide parar.
Todos os dias, ele se senta num banco de praça em frente à escola da filha, Claudia, e espera por ela. Essa atitude nasce de uma promessa feita à menina no primeiro dia de aula após a morte da mãe. Embora, de início, pareça uma tentativa de preocupação com o bem-estar da filha, aos poucos compreendemos que esse gesto foi para acolher a si mesmo. É a presença da menina, sua saída da escola, a repetição desse pequeno ritual diário que impede Pietro de desaparecer dentro do próprio abismo no qual reluta em admitir que se encontra absorvido.
Com o passar das semanas, o banco de praça deixa de ser apenas um lugar de espera. Torna-se uma espécie de divã a céu aberto, um confessionário improvisado, um lugar de suspensão no meio da cidade. Em vez de ser consolado, Pietro passa a consolar. As pessoas vão até ele, sentam-se, falam de suas angústias, seus fracassos, seus desejos, suas culpas. Em certas passagens, pensei nesse narrador como um psicanalista; em outras, ele se doava tanto à escuta que mais parecia um padre ouvindo seus fiéis.
Sandro Veronesi compreende que o luto nem sempre se apresenta como desespero visível. Às vezes, ele aparece como paralisia, ou como a decisão aparentemente simples de permanecer sentado no mesmo lugar todos os dias.
Mas há algo ambíguo nessa conduta. Ao se dedicar às dores alheias, Pietro se distancia do verdadeiro caos do próprio luto. Ao escutar e observar o mundo à sua volta, blinda-se de olhar para si mesmo. Sentado naquele banco, ele se transforma numa figura paradoxal e escuta os outros justamente para adiar a escuta de si. Há, nisso, algo psicanalítico, tema de interesse do escritor em todos os seus livros – a dor deslocada, a fala que contorna o trauma, a tentativa de elaborar a perda por vias indiretas. Como se, antes de poder tocar no próprio luto, Pietro precisasse escutar o luto dos outros.
Durante três meses, ele não permite que a saudade ou a dor da perda o atravessem por completo. Recusa, inclusive, o conselho da cunhada, que lhe oferece o contato de um psicanalista. Mas talvez seja justamente aí que o romance encontre sua força: Veronesi compreende que o luto nem sempre se apresenta como desespero visível. Às vezes, ele aparece como paralisia, ou como a decisão aparentemente simples de permanecer sentado no mesmo lugar todos os dias.
Contudo, para que a leitura flua, é preciso que o leitor entre no jogo da ficção proposto por Veronesi, porque há momentos em que realidade e fantasia se confundem e nos confundem. O que é verdade? O que é ilusão? E até que ponto a ilusão ajuda na hora da dor? Talvez, em certos momentos do luto, a fantasia funcione como uma ponte provisória, um abrigo necessário até o dia em que seja possível sair das sombras e voltar a desejar viver a própria vida.
Aliás, preciso contar que durante a leitura, foi impossível não me deixar contagiar também pela trilha sonora proposta pelo romance. Passei a ler suas páginas ao som de Radiohead, como se eu mesma estivesse dentro daquele carro com Pietro Paladini e admito: também tive vontade de me confessar, de falar sem pressa diante de alguém que, justamente por estar suspenso da própria vida, torna-se capaz de escutar a vida dos outros com generosidade.
Inclusive, essa tensão entre paralisia e continuidade, entre trauma e sobrevivência, aparece de maneira ainda mais comovente no romance O colibri. O título remete ao pequeno pássaro cuja permanência no ar exige esforço contínuo. Marco Carrera, o protagonista-narrador, é justamente esse homem que permanece. Oftalmologista, pai, avô, amante silencioso e sobrevivente de sucessivas perdas, ele atravessa a vida como quem sustenta um movimento quase invisível, mas vital. O colibri não está parado, embora pareça. Ele bate as asas numa velocidade quase imperceptível para conseguir permanecer no ar. Marco também.
Veronesi desafia as convenções de uma narrativa linear para mergulhar na complexidade da memória e, sobretudo, da condição humana diante da perda.
Há, nesse romance, uma palavra que ilumina toda a leitura: emméno, verbo grego que significa “persevero”. Foi exatamente essa a sensação que tive ao ler O colibri. Precisei perseverar. Algumas passagens eram dolorosas demais e me arremessaram para memórias sombrias das quais eu preferia me manter afastada. Ainda assim, fiz bem em sustentar a leitura. Veronesi desafia as convenções de uma narrativa linear para mergulhar na complexidade da memória e, sobretudo, da condição humana diante da perda. O realismo emocional se sobrepõe à cronologia, e o essencial muitas vezes se revela nos silêncios que cercam as experiências mais devastadoras da vida.
Nesse sentido, o escritor italiano trabalha de maneira muito potente com o tempo psicológico. Em seus romances, o tempo não avança apenas pela sucessão dos acontecimentos, mas se expande ou se contrai, conforme os sentimentos das personagens convocam. Há momentos em que uma lembrança ou um detalhe aparentemente mínimo parecem suspender a narrativa inteira, como se a experiência interior dos personagens tivesse mais força do que a cronologia externa. Essa dilatação do tempo, sobretudo em O colibri e Caos calmo, aproxima-se da escrita proustiana- como em Em busca do tempo perdido, o passado não aparece como algo encerrado, mas como matéria viva, capaz de invadir o presente e reorganizar a percepção da vida. Em suas obras, Veronesi escolhe esticar o tempo da narrativa porque compreende que a dor, a memória e o luto não obedecem ao relógio; eles têm uma duração própria, ainda que muitas vezes desmedida.
Diante das inúmeras tragédias que atravessam sua vida, Marco, narrador de O colibri, não sucumbe. Ele permanece. Permanece porque Miraijin, sua neta, ainda precisa dele, e é nela que se concentra um dos gestos éticos mais bonitos do livro: a escolha de cuidar, mesmo em meio à ruína. Miraijin, nomeada como “o homem do futuro”, desloca a expectativa do próprio futuro. Quando se revela que esse “homem” será uma mulher, Veronesi nos convida a pensar se, talvez, o futuro só possa existir sob outra lógica, outra sensibilidade. O feminino, aqui, não aparece apenas como gênero biológico, mas como paradigma de cuidado, escuta e reinvenção do humano.
Se em Caos calmo, Pietro permanece sentado diante da escola da filha para não desabar, em O colibri Marco permanece em movimento para não cair. Um parece imóvel; o outro parece atravessar continuamente perdas, amores e tempos. Mas ambos encarnam a mesma pergunta: o que fazemos quando a vida nos tira aquilo que nos sustentava? Em Veronesi, a resposta nunca é simples. Não há superação fácil, há permanência e cuidado amalgamados num esforço, muitas vezes silencioso, de continuar respirando.
Já em Setembro Negro, Veronesi retorna à infância e à memória para investigar como uma tragédia pode reorganizar uma vida inteira. O romance parte justamente desse ponto de inflexão: quando somos atravessados por uma tragédia, raramente voltamos a ser quem éramos. Arrisco dizer: quase nunca. O autor não revela de imediato o acontecimento que transforma a vida do protagonista. Com isso, mantém o leitor num estado de suspensão e expectativa, enquanto reconstrói, com delicadeza, os fragmentos de uma infância luminosa abruptamente interrompida por uma tragédia familiar.
Veronesi escreve com a ternura de quem se aproxima da própria história com cautela, como se a criança daquele tempo ainda sobrevivesse nele e precisasse ser acolhida.
Diferente de O colibri, em que a memória flui em espirais, Setembro Negro opta por uma linearidade mais firme, quase como se o narrador precisasse ordenar o passado para suportar o presente. Essa contenção não diminui o impacto da narrativa. Ao contrário, confere ao romance uma potência quase documental. Veronesi escreve com a ternura de quem se aproxima da própria história com cautela, como se a criança daquele tempo ainda sobrevivesse nele e precisasse ser acolhida.
Ao longo do romance, somos conduzidos por cenas que evocam a Itália dos anos 1970: as Olimpíadas, os jogos de futebol, as corridas de Fórmula 1, as canções que formavam a trilha sonora daquela juventude. Essas referências não funcionam como saudosismo fácil. Elas compõem um tempo em que as relações humanas pareciam mais tangíveis, menos mediadas por telas e distrações, um tempo em que o presente talvez ainda pudesse ser vivido com mais inteireza. Mas essa luminosidade é atravessada por uma sombra. Em Setembro Negro, a infância aparece como território de encantamento e perda, de descoberta e ameaça. O passado, quando o revisitamos, nunca volta intacto.
Ao aproximar as obras Caos calmo, O colibri e Setembro Negro, percebo que Veronesi escreve obsessivamente sobre aquilo que permanece depois do abalo. Pietro permanece no banco da praça; Marco permanece como o colibri, sustentando-se no ar, apesar das perdas; Gigio permanece ligado à infância interrompida, tentando ordenar a memória para compreender o que ainda dói. Em todos eles, a tragédia não é apenas um acontecimento. É uma força que reorganiza a linguagem, o tempo, o corpo e a relação com os outros.
Não à toa, penso que Sandro Veronesi se inscreve numa linhagem primorosa da literatura italiana contemporânea, ao lado de autores como Elena Ferrante e Domenico Starnone, com quem compartilha o interesse pelas fissuras familiares, pelos silêncios, pelas zonas de sombra dos afetos. Como eles, não teme parecer sentimental ao tratar daquilo que se rompe dentro de uma família. Mas, diferentemente de Starnone, cujo estilo tende a ser mais seco, objetivo e cortante, Veronesi se entrega a uma escrita densa, verborrágica, colérica, muitas vezes excessiva.
Ele descreve detalhes que outros escritores talvez deixassem de lado. Prolonga cenas, acumula pensamentos, esmiúça gestos mínimos, insiste em aspectos aparentemente secundários. Confesso que, em alguns momentos, esse excesso me incomodou. Houve trechos em que me perguntei sobre a necessidade de alongar tanto certas passagens. Mas compreendo que esse é também o estilo do autor, e talvez seja justamente isso que torna seus livros tão únicos e belos. Veronesi não escreve para simplificar a experiência humana. Ele escreve para mostrar sua desordem.
Seus romances são belos porque aceitam o excesso da vida: o constrangimento do corpo, a irracionalidade do desejo, a violência da perda, a persistência da memória, o peso dos vínculos familiares, a necessidade de cuidar mesmo quando tudo parece arruinado. Em suas páginas, o caos nunca é apenas destruição. Às vezes, é também a forma mais honesta de nomear aquilo que ainda não conseguimos compreender.
Portanto, ler Sandro Veronesi é ser convidado a revisitar nossas próprias perdas, a interrogar nossos afetos e a repensar a ideia de futuro. É aceitar permanecer algum tempo diante da dor sem tentar resolvê-la depressa demais. É sentar-se ao lado de seus personagens e escutar suas hesitações. É reconhecer que, diante das tragédias que nos atravessam e às vezes nos perfuram, talvez não exista uma saída imediata, mas apenas um gesto mínimo e ao mesmo tempo radical: continuar ali e tentar respirar, esperar e talvez encarar o maior desafio: perseverar.


