
Mayara Falcão: “No meu romance, a ideia central é refletir sobre o que acontece quando o ser humano se perde de si mesmo”
Em entrevista à revista O Odisseu, Mayara Falcão, autora de “DES SER”, fala sobre o seu romance de cunho filosófico e existencialista e suas referências da mitologia grega.
Foto: Divulgação.
O que acontece quando nos perdemos de nós mesmos? Essa pergunta, que talvez já tenha sido feita diversas vezes ao longo da história da humanidade, ganha contorno literário na obra DES SER, da pernambucana Mayara Falcão. No livro, um homem, Letar, já não encontra razões para seguir com a vida e, portanto, busca refúgio na dissosciação trazida pelo álcool. Conforme nos conta Mayara na entrevista que você confere a seguir, o personagem surgiu a partir de um exemplo real, uma pessoa de carne e osso que ela viu perder o contato com a vida “embora respirasse”.
A densidade da temática é elaborada a partir também de referências outras, como a literatura clássica da Antiguidade, e a filosofia. Nesse caso, um filósofo em questão se sobressai: Jung. Como nos contou Mayara, a psicanálise analítica de Carl Jung foi crucial para que essa desse mais profundidade para a obra. Assim, o livro propõe ao leitor um diálogo com uma realidade triste e difícil de ser vista, mas, conforme a própria autora ressalta, de fundamental importância.
Confira agora a entrevista com a autora!

“A criação dessa subjetividade é a realidade”, diz Mayara Falcão sobre o seu personagem Letar
Sua obra traz uma forte inspiração na psicologia analítica de Carl Jung. Como foi o seu contato com essa teoria da psicologia e o que ela te ofereceu enquanto referência literária?
Durante minha graduação de Letras-Espanhol na UFPE EM 2019, cursei como cadeira eletiva a disciplina de mitologia grega e um dos autores trabalhados foi o Carl Jung. Esse foi o meu primeiro contato com ele e seu universo. A avaliação era trabalhar um mito através de aspectos religiosos, filosóficos ou psicologia analítica. Meu trabalho foi sobre o mito de Ícaro e seus arquétipos.
Depois desse primeiro contato, me apaixonei pelas descobertas e Jung se tornou parte da minha jornada. Após alguns anos, iniciei a terapia e minha terapeuta, para minha sorte, também é da perspectiva Junguiana e isso só me fez entender ainda mais as questões dos arquétipos, símbolos, sonhos… Ou seja, Carl Jung realmente faz parte de quem sou, dos meus processos internos, da busca pela individuação.
Enquanto referência literária, ele me abriu um grande portal de possibilidades e encontros: comigo, com o outro, com o mundo… A partir dele, minha leitura também foi transformada, me permitindo enxergar as questões humanas por uma outra ótica. Lembro que li ‘Mulheres correm com os lobos’ uma indicação da minha terapeuta e então passei a entender e enxergar o simbólico com ainda mais força dentro da escrita.
Seu personagem, Letar, é alguém que se vê angustiado quanto ao sentido da vida e vive momentos sombrios da sua vida. Como foi para você a criação da subjetividade desse personagem?
Meu personagem surge através do meu olhar sobre alguém muito próximo. Como coloco na orelha do livro: ‘A dor do outro sentida pela gente, a dor foi tanta, que escrevi um livro’.
Letar é um personagem muito presente na minha vida. Toda sua subjetividade nasce da minha observação, da escuta, do olhar, do sentir. A literatura para mim é a extensão do autor, e o Letar foi uma tentativa minha de amenizar minha angústia, minha impotência em não conseguir salvá-lo, retirá-lo desse lugar tão sombrio e angustiante.
Ele vive como se nada fizesse mais sentido, está perdido. Nas conversas é fácil perceber sua fragmentação. Presente e passado se fundem. Futuro não há. Ele não sabe mais diferenciar. Suas palavras ecoam o fardo da culpa, do vazio, da frustração de não ter tentado um caminho diferente, de não ter se movimentado.
A criação dessa subjetividade é a realidade. O homem angustiado, explorado pelo capitalismo, desacreditado de si, perdido, frustrado, solitário, vazio, com medo, morto… embora ainda respire.
Pensando o sentido da vida e as angústias que esse questionamento pode levar, você acredita que a literatura pode nos ajudar a compreender nossas inquietações humanas?
Concebo a literatura como extensão da humanidade, retrato da realidade, e extensão do autor. Tudo que escrevemos parte das experiências, vivências e contextos. Ao escrever esse romance, deixo como pergunta: Quantos ‘Letar’ não existem na sociedade? Pessoas depressivas; pessoas que entraram no alcoolismo para tentar continuar, ao menos, existindo; Trabalhadores explorados até chegarem aos seus limites.
“Os olhos abertos sem luz, como se fossem uma vela que tivessem assoprado, sobrando só a parafina, sem o fogo, sem a luz, sem a vida… olhos cansados, exaustos, imersos no vazio. O vazio olhando de volta e fazendo a simbiose. A simbiose do eco. O eco de uma vida cheia de tentativas incompletas. Como se fossem panos rasgados, e os fiapos soltos se juntassem e dessem um nó. Um nó que ficava na garganta. Preso… como o silêncio que grita e ele já não mais escutava. Só percebia que algo acontecia, mas vivia inerte em sua apatia como alguém sem memória que nada conhecia e nada mais alegrava” (DES SER, p.13)
DES SER é um romance denso, reflexivo e questionador e, traz como pergunta: O que acontece quando nos perdemos de nós mesmos?
Outro tema que você desenvolve em sua narrativa é a questão do alcoolismo para aqueles que estão em fuga de seus próprios sentimentos. Por que e como você decidiu incluir neste livro também a problemática em torno do uso de drogas?
Como Letar é a representação de alguém muito próximo, o álcool em sua vida sempre foi sua rota de fuga. “— Um rio do esquecimento… não havia pensado na bebida dessa forma. Um rio do esquecimento: das lembranças, dos desejos, de si! Porque não estar consciente é também não existir. Um corpo no mundo, sem piloto e sem direção.” (DES SER, p.69)
O álcool é uma droga que afeta muitas famílias, mas que não recebe a devida atenção. Quantos lares já não foram destruídos por essa substância? Laços desfeitos, corpos ausentes, famílias falidas… “ A droga tomada sem dor e sem intermédio. Virada como se fosse festa, folia, celebração. Porém, para alguém que não sente, que só quer não existir, é através da bebida que Letar desaparece. Vira fumaça que evapora e voa. Some, perde-se de si e de suas dores e traumas que lhe perseguem, como a culpa, assim como os arrependimentos e tristezas! Fica só o corpo sem consciência” (DES SER, p.51-51)
A bebida não é prejudicial só para quem a consome, mas para todos que estão em volta. A gente consegue ver as pessoas se destruindo e destruindo tudo ao redor. “Condenam a maconha, mas liberam o álcool que é tão danoso. Este por ser legalizado, está por toda parte e é consumido para ‘felicidade’, até que se chega ao ponto da tristeza trocar de lugar e este transformar-se em água: líquido necessário à vida. Vira vício e o corpo não deixa ficar sem. Todo dia, necessitava de um gole, depois de uma garrafa, quando percebe, foi-se um fardo e o corpo já não atende mais os chamados” (DES SER, p.50)
Há também referências da literatura clássica, sobretudo a grega clássica, em seus livros. Como se dá o seu encontro com essa literatura e como ela reverbera em sua escrita?
Durante minha graduação, tive contato com a literatura clássica principalmente por meio do estudo do latim. Dentro dessa disciplina, conheci alguns mitos, e também cursei Mitologia Grega como cadeira eletiva, o que me encantou profundamente pelas histórias, mensagens e reflexões que essas narrativas carregam.
A partir desse encontro, comecei a elaborar um universo simbólico para o meu romance psicológico e existencialista, inspirado especialmente na mitologia grega. Mitos como Sísifo, Narciso, Teseu e o Minotauro, Odisseu e Perséfone não aparecem como referências diretas, mas como base simbólica da construção do universo da obra.
Essa estrutura dialoga com a base psicológica do romance, que é inspirada em Carl Jung, especialmente nos conceitos de arquétipos e inconsciente coletivo, nos quais esses mitos funcionam como formas universais da experiência humana.
Segue trecho do diálogo entre o Letar e sua solidão.
“— A saudade é uma grande amiga minha, tem me acompanhado bastante e sempre nos esbarramos pela vida ou não vida. Não sabia que viria. O passado morto é um peso e fede mesmo. Talvez para reforçar a ideia de não pertencimento, do não retorno, do esquecimento. Deixemos essa mala para abrirmos quando formos dar um passeio. Como anda a vida? Tem andado ou você continua estagnado?
— Parece que agora a ignição travou de vez, não há mais movimento. Tento, tento e nada. Me sinto no mito de Sísifo, empurrando a pedra/vida montanha acima e vendo rolar montanha abaixo. É tão cansativo. Ando cansado demais, amargurado demais. Me esforçando para não sei o quê e isso é o pior: a ilusão que desperta a minha esperança trancada no calabouço… tenho pena dela e de mim. A esperança é boa, mas machuca quando se percebe a inutilidade… assim que se apresenta para mim: inútil. Esperança para quê? Estou condenado ao esquecimento, à não existência, ao vazio. Empurrar a pedra e esperá-la descer morro abaixo.”
Você define o seu livro como um “romance existencial”, algo que também já foi definido para livros de Dostoiévski, Camus e Kafka, obras que tentam construir sentido para a vida. Como foi para você conciliar a filosofia com a literatura?
Filosofia e literatura sempre fizeram parte da minha vida. As leituras que mais me chamam atenção vêm desse lugar. Tenho essas disciplinas como processos que caminham juntos. A prática na teoria, a prática documentada, a vida existindo com seus questionamentos.
Meu livro inicia trazendo o homem perdido do período barroco, para mostrar que mesmo com muito desenvolvimento, as angústias do passado se estenderam até o presente, e aprofundo essas causas existências.
Obras como de Kafka, Camus e Sartre fazem parte da minha bagagem literária. Li ‘O existencialismo é um humanismo’ e esse é um dos primeiros livros que me fizeram morada. Sartre sempre esteve muito presente na minha escrita, em relação ao questionamento e vazio. Inclusive, no Letar.
Ainda sobre o romance existencial e a literatura que dialoga com a filosofia, obras como “O Estrangeiro”, de Camus, ou “A náusea”, de Jean-Paul Sartre são apresentadas como livros com uma tese. Ou seja, os autores escrevem para defender um ponto de vista sobre o mundo. Esse seria o seu caso? E qual seria o seu ponto de vista sobre o mundo?
No meu romance, a ideia central é refletir sobre o que acontece quando o ser humano se perde de si mesmo. Eu construo a trajetória do personagem Letar em um contexto de exploração laboral, escassez e desgaste existencial, para mostrar como certas condições sociais e emocionais podem desencadear angústias profundas e mecanismos de fuga, como o alcoolismo.
O álcool, na narrativa, não é apenas um vício, mas também uma tentativa desesperada de sobrevivência psíquica, uma forma de dissociação e apagamento de si. A partir disso, o personagem atravessa um processo de ruptura com a própria identidade, chegando a um estado de quase dissolução do ser.
Minha obra dialoga com temas como saúde mental, vícios, desigualdade e a falta de autoconhecimento na sociedade contemporânea. Apesar dos avanços tecnológicos e sociais, ainda existe uma dificuldade humana muito profunda em lidar com emoções como culpa, frustração e vazio existencial, assim como em compreender processos internos como a sombra e a individuação.
Enquanto autora, escrever sobre questões tão densas e filosóficas também te ajudou a compreender o mundo?
Eu sempre me interessei muito por temáticas densas, sociais, reais e filosóficas. Os meus poemas, embora alguns sobre amor, a grande maioria se encontra nesse contexto, justamente porque muitos deles surgem das minhas leituras, das minhas reflexões e experiências. A escrita a partir desse contexto surge justamente como tentativa de me compreender ao mesmo tempo que tento compreender o mundo. E para além disso, essa escrita surge como uma tentativa de sanar uma grande dor que me aflige. O ato da escrita é também uma ferramenta de expressão com resultados muito significativos. Foi tentando me salvar da dor sentida ao ver o outro que elaborei minha obra.
“Percebeu o ciclo, conseguia ver a doença e suas consequências, conseguia enxergar, inclusive sua “fuga”. Era triste demais a observação. Doía, por isso não conseguia manter tanta proximidade. Em todas as visitas que fazia, sentia o aperto no peito, a dor. Escrevia para suavizar o que sentia. Escrever é colocar em linhas o que rasga o peito, no caso dela, a alma. Só queria que seu pai voltasse ao normal, que existisse…” (DES SER,p.87)
Após esse projeto, você já está escrevendo algo novo? Pode nos adiantar algo?
Sim. Pretendo retomar meu primeiro projeto de livro iniciado em 2020. Este já possui algumas páginas. Meu objetivo é revisitá-lo, modificá-lo e tentar terminá-lo. Além disso, estou participando dos concursos literários com a minha obra, assim como concursos de poesias nacionais e internacionais.


