
‘Não queria fazer mais uma peça de pessoas negras discutindo racismo’, diz Mônica Santana que atua e assina a dramaturgia do excelente espetáculo ‘Ana e Tadeu’
Em depoimento para a O Odisseu, Mônica Santana fala que ‘Ana e Tadeu’ surgiu do interesse em falar da subjetividade da pessoa negra atravessada pela violência.
Publicado originalmente em 9 de julho de 2025.
Fotos de Caio Lírio.
No fim de maio, fui assistir ao espetáculo “Ana e Tadeu”, na época em cartaz no Teatro do Goethe-Institut. A peça tem direção de Diego Araúja (Holocauto Brasileiro: Prontuário da Razão Degenerada, Prêmio Braskem de Teatro 2019) e traz no elenco, além de Mônica Santana (Isto não é uma mulata, Prêmio Braskem 2015), Antonio Marcelo (Gotas de Sol e Memórias do mar aberto: Medeia conta sua história).
Desde antes de ver a peça, já tinha interesse em conversar com Mônica sobre a produção, já que o plot me chamou bastante atenção: em “Ana e Tadeu”, temos um diálogo de casal em ruptura, um desencontro entre um músico e uma socióloga em processo de separação. Isso não é, precisamente, novo no mundo da arte. Mas já na apresentação da peça, falava-se como a dramaturga iria trazer essa discussão para o viés da relação afro-centrada, perspectivando questões de afeto, desilusão e luto em pessoas negras. Ao mesmo tempo em que estava curioso, estava também confiante de que, sendo um projeto que reúne Santana, Araúja e Marcelo, não tinha como ser ruim.
De fato, não foi. Em um cenário “maleável”, com um chão de madeira montado de modo a reverberar cada um dos passos dos autores, em um efeito semelhante a uma cama elástica, as personagens em cena tentam se equilibrar enquanto discutem um mundo que está prestes a desabar (se é que já não desabou). A movimentação em cena, sempre trazendo essa sensação de que a qualquer momento os atores vão cair no balanço do palco, consegue ilustrar bem o que o texto apresenta enquanto concepção: um mundo incerto após uma grande tragédia e no qual é preciso muito esforço para se equilibrar.
Em cena, Tadeu volta à casa da esposa, Ana, para pegar seus pertences quando é surpreendido por traficantes de uma facção. Com uma arma na cabeça, ele é informado que não se pode mais passar naquela área a partir daquele horário e ele só é salvo porque uma vizinha diz que o conhece. Essa é uma realidade dos bairros periféricos de Salvador, hoje dominados por diferentes facções responsáveis por cercear a liberdade de quem literalmente construiu uma vida naquelas regiões.
Ao conversar com Mônica, ela me contou que a ideia da peça veio justamente com depoimentos de amigos que viveram essa situação.
Eu recebi relatos de pessoas próximas de algumas situações que são citadas na peça, como estar chegando na rua que sempre morou e ser abordado por causa do celular, por causa de facções em ruas. Pessoas que tiveram que deixar suas casas próprias, nas quais viviam há mais de 30 anos, por causa de facções, tiveram que alugar casas em outros pontos do bairro e abandonar tudo o que construiu. Esses relatos começaram a se tornar frequentes, inclusive de pessoas de uma “classe média” da periferia.
Não cheguei a relatar a Mônica, mas eu também cheguei a ouvir e conhecer famílias que precisaram sair de onde moravam pelo mesmo motivo. Inclusive, conheci negócios bem-sucedidos que tiveram de fechar por conta dessa relação de domínio que facções externas à comunidade trouxeram para a vida dessas pessoas. Essas são pessoas que Mônica chama de “classe média periférica”, até porque pessoas muito pobres geralmente ficam reféns dessa situação sem ter para onde ir.
Há várias dimensões do periférico e há uma classe média periférica. São pessoas que ascenderam por meio das políticas de cotas, um conjunto de pessoas que têm uma vida estabelecida, que têm pequenos negócios, negócios. Eu queria e acho que eu consegui trazer isto: falar de periféricos que não estão, necessariamente, em uma condição de extrema vulnerabilidade social.
Mas, como já dizia Milton Santos, um corpo negro é um corpo negro em qualquer lugar do mundo. O atravessamento pela violência é muito semelhante, uma vez que, agora trazendo Carla Akotirene, raça antecede classe num país tão letal para pessoas negras. Com uma boa situação financeira ou não, pessoas negras são punidas por uma dinâmica de crueldade que é fruto de uma sociedade que nasceu sob o signo do racismo (para fechar o momento de citações com Abdias do Nascimento).
‘Há um novo tipo de colonização nas periferias do Nordeste’, diz Mônica Santana que assina a dramaturgia de ‘Ana e Tadeu’

A ideia de território é muito cara para pessoas racializadas e para qualquer comunidade que consiga fugir dessa dinâmica imposta pelo neoliberalismo, uma dinâmica de território enquanto construção de uma funcionalidade na estrutura capitalista. As periferias, os quilombos, os povoados indígenas, são territórios que conseguem fugir, mesmo que minimamente, daquilo que a agenda neoliberal apresenta enquanto um conceito de espaço. Não por acaso são lugares sempre alvo de conflitos. E a entrada de grupos do tráfico é apenas um desdobramento desse conflito que envolve terra e que envolve poder. Mônica conseguiu trazer isso muito bem em um texto que apresenta a vida dessas pessoas na periferia que são alcançadas por uma dupla via de violência, a das operações policiais, mas também o dessas facções. São dois algozes, mas também dois lados de uma mesma moeda. Em nossa conversa, Mônica resgata uma fala do professor Dr. Jorge Augusto para falar de colonização:
Essa paisagem começou a me interessar. Esse conflito, no contexto de invasão que está acontecendo aqui no Nordeste. Nós tivemos um bate papo com o professor e poeta Jorge Augusto, no qual ele utilizou a palavra “colonização”. E eu acho que se aplica. É um outro tipo de colonização que está acontecendo nas periferias. Não uma colonização de estrangeiros, mas uma colonização de grupos externos que chegam e impõem uma nova ordem, uma nova opressão nas comunidades. Isso faz com que as pessoas precisem lidar com outros tipos de contextos e conflitos, diferentes até do que eles já viviam. E eu estou falando de bairros, que são bairros de amigos próximos, muito próximos das regiões centrais, inclusive. Salvador é uma cidade que tem um pouco disso: a periferia não é, necessariamente, o lugar mais distante. Às vezes você tem um bairro de classe média alta ao lado de um bairro que é considerado de mais periférico, como Engenho Velho da Federação, Boca do Rio, que é na orla, Nordeste de Amaralina, que é do lado do Rio Vermelho, da Pituba, que são bairros de classe média, classe média alta.
Para falar do caos trazido por esses grupos armados, a autora não foge das operações policiais. Em determinado momento da peça, deixarei em sigilo porque quero que vocês assistam, há essa intersecção. Esses corpos são duplamente atravessados pelo ódio e pela violência. Da janela, a personagem Ana grita: vocês estão iguais ou piores que os policiais, tendo como interlocutor um desses criminosos. Achei corajoso trazer isso porque é um ponto pouco falado. Quem já viveu na periferia sabe como o dia a dia numa região comandada por uma facção pode ser insuportável. Os sons dos tiros, constantes, aterrorizam as vidas que vivem em estado de guerra. Quem mora em favelas hoje vive como quem vive em Gaza, a depender da região, mas não se fala disso. Acostuma-se com isso.
E, ao mesmo tempo, essa constância de casos de crianças e adolescentes mortos. Nós temos índices recentes que são estarrecedores de crianças e adolescentes que foram mortos em operações policiais. Esse caldo foi me interessando. Contou Mônica Santana.
‘Não queria mais uma peça temática, queria falar da dimensão do íntimo’, conta Mônica Santana à revista O Odisseu

Bom, até aqui sabemos que Mônica tem um tema, mas o modo como ela vai trazer esse texto em cena é o que é mais interessante. Ao conversar comigo, ela contou como tem acompanhado as novas produções de artistas negros e como o assunto da violência e do racismo vem chegando aos palcos. Isso porque o aspecto da denúncia, que é muito presente nessas produções, por vezes tendem a tirar um requinte estético e da técnica. Sem falar que é também um cerceamento do artista negro, como se estivesse apenas ali para escrever sobre um único tema e sob o mesmo viés. Para contrastar com essa realidade, ela mergulha na dimensão do íntimo.
Abro um parênteses para destacar o impressionante trabalho de atuação tanto de Mônica quanto de Antonio, embora, sabemos, o grande desafio de Antonio seja contracenar com uma atriz como Mônica Santana. No palco, ela domina, é hipnotizante. É um trabalho que passa pela dimensão do corpo, numa atuação que se entrega de corpo e alma. Outro ator poderia simplesmente sumir ao lado dela, mas Antonio Marcelo também brilha em momentos emocionantes. Isso só é possível porque o texto convoca esse quebrantamento, afastando os personagens de uma superficialidade previsível e colocando-os como seres complexos diante do público. Esse é o grande mérito do espetáculo como um todo, aliás.
Eu não queria fazer mais uma peça temática. Mais uma peça de pessoas negras discutindo racismo. Não que isso não seja importante, mas acho que isso está sendo explorado demais. Eu estava querendo falar de uma dimensão íntima. Que é uma intimidade que está sendo povoada pela violência, por temor, por tiros. Eu moro num bairro que é considerado de classe média, mas eu ouço tiros regularmente.
Fugir dessa previsibilidade e do lugar comum em produções que têm um viés antirracista parece ser o grande desafio dessa nova geração de artistas negros. Mas fico feliz ao perceber que nomes como Mônica Santana e Diego Araúja (no teatro) e Márcio Junqueira Tatiana Nascimento (na literatura) estão apresentando uma produção que é de excelência, que tem reivindicações, mas que foge dos estereótipos que outras obras insistem em entregar a sujeitos racializados.
Acho que a gente tem várias periferias. E há um modo que às vezes é um pouco estereotipado de construir sujeitos periféricos. E há várias formas de construir personagens periféricos. Em Salvador, você tem a região do Pelourinho, do Centro Histórico, que são centros, mas que são centros periféricos. Como a [Ladeira da] Preguiça, a Gamboa, que está ao lado dos prédios mais caros da cidade, mas é um centro periférico. Primeiro, precisamos construir uma ideia de periferia na cidade. A gente não nomeia o bairro em que Ana e Tadeu mora, mas a gente tem bairros periféricos em que um músico e uma socióloga podem viver. Eu conheço artistas bem estabelecidos na cena cultural, mas que moram em bairros que sofrem operações policiais, que têm problemas de entrar com um uber no lugar em que moram. Pessoas com mestrado e doutorado, mas que estão nesses espaços. Por isso, quis criar personagens que tivessem acesso à informação e formação acadêmica e de desenvolvimento profissional, mas que não estão realocados em outros espaços da cidade.
‘Não estou interessada em maniqueísmo’

“Ana e Tadeu” volta ao palco do Teatro do Goethe Institut para duas novas apresentações no dia 10 e 11 de julho no Festival Melanina Acentuada que, a propósito, está com uma programação incrível de peças, mas também de debates e oficinas de criação. Uma bela ocasião para quem deseja ver uma peça que apresenta múltiplas versões de um personagem racializado e que vai provocar incômodos pertinentes. Para finalizar, trago mais um trecho da minha conversa com Mônica e que diz muito dessa dimensão de profundidade na construção dos personagens.
Acho que tem muitas peças e obras que falam de operações policiais nos bairros, mas existe outra mudança drástica acontecendo paralelamente, nos últimos 10 anos, e que eu acho importante abordar e que, eu percebo, não é algo exclusivo nosso, é algo que é acontece no Nordeste todo. E também falar de como isso reverbera em nossa subjetividade, porque a pessoa negra não é só a violência. A violência nos atravessa, mas não é só isso. Tudo está misturado: a decepção, o luto. Na peça nós temos dois personagens lidando com o luto de modo distintos, tanto que eles vão entrar em conflito por causa disso. Eles se traem, eles têm culpa, eles falharam de modo diferente, eles têm suas mágoas que são legítimas e que entra a questão de gênero, mas sem maniqueísmo. Não estou interessada em maniqueísmo, estou interessada em mostrar essa complexidade desses universos e mostrar que existe amor, muito embora o amor não resolva tudo. Não queria colocar, mais uma vez, pessoas negras dizendo “luto é luta”, embora eu entenda a importância de dizer isso.
“Ana e Tadeu” é um espetáculo para este tempo. Assistam!
Ficha Técnica
Idealização e Texto | Mônica Santana
Direção | Diego Araúja
Atriz | Mônica Santana
Ator | Antonio Marcelo
Assistência de Direção | Neemias Santana e Quemuel Costa
Direção Coreográfica | Neemias Santana
Cenografia | Diego Araúja e Erick Saboya
Cenotecnia | Felipe Cipriani (Oxe Arte)
Trilha Sonora e Direção Musical | Andrea Martins e Ronei Jorge
DJ e Operação de Som | Nai Kiese
Técnica de Som | Acelino Costa e Nai Kiese
Desenho de Luz | Caboclo de Cobre
Operação de Luz | Caboclo de Cobre e Almir Gaiato
Técnico de Luz | Almir Gaiato
Figurino | Alexandre Guimarães
Costura | Maria de Lourdes
Dreadmaker | Daniel Tulipeno (Vixevixi)
Produção | Fabiana Marques
Assistente de Produção | Lucas Oliveira
Gestão Administrativa e Financeira | Thayná Mallmann
Comunicação | Mônica Santana
Identidade Visual e Design Gráfico | Duna (Lia Cunha e Isabella Coretti)
Fotografias (Design Gráfico) | Priscila Fulô, Caio Lírio
Fotografias (Imprensa/Divulgação) | Caio Lírio
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