
Mateus Baldi: “Quis trazer para ‘Os anos de vidro’ essa embocadura dupla da palavra gênero em português”
Em entrevista para O Odisseu, Mateus Baldi, autora confirmada na FLIP 2026, fala sobre a paixão pelos contos, a emoção de receber o Prêmio APCA por Os anos de vidro, o Rio de Janeiro e Caetano Veloso.
Foto: Divulgação.
Autora de Os anos de vidro (Nós, 2025) e Formigas no paraíso (Faria e Silva, 2022) e organizadora da antologia Vivo muito vivo: 15 contos inspirados nas canções de Caetano Veloso (José Olympio, 2022), Mateus Baldi renova a tradição do conto brasileiro e se consolida como uma das vozes mais relevantes de sua geração.
Seu livro Os anos de vidro, vencedor do Prêmio APCA na categoria Contos, combina elementos dos romances policiais com um apuro poético, apresentando personagens marcados pela inquietação e pela precariedade dos vínculos. Na obra, o Rio de Janeiro aparece como um personagem vivo e hostil, capaz de tensionar os deslocamentos cotidianos, as violências e a luta de classes.
Mateus Baldi integrará a programação oficial da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o maior festival literário da América Latina. Sua participação acontece em um momento de grande reconhecimento de sua produção e também às vésperas do lançamento de um novo livro Caetano Veloso: Transa (Cobogó), inspirado no disco Transa, de Caetano Veloso.
Em entrevista para O Odisseu, a autora fala sobre a paixão pelos contos, a emoção de receber o Prêmio APCA por Os anos de vidro, a influência do Rio de Janeiro em sua escrita, a literatura produzida por pessoas trans, os desafios do mercado editorial, sua próxima obra e as expectativas para participar da Flip.

“Fui criada lendo literatura policial”, diz Mateus Baldi, autora confirmada no programa principal da FLIP 2026
Como começou sua relação com os contos?
Sempre gostei muito de ler contos. O estalo maior veio na adolescência, quando a escola passou uma leitura de Rubem Fonseca. Ali entendi a força das histórias curtas e não parei mais de lê-las. Acho fundamental a leitura de contos, e o Brasil tem uma enorme tradição, nomes que adoro, como Machado de Assis, Lygia Fagundes Telles, Marques Rebelo, Wander Piroli…
Como foi ganhar o prêmio da APCA?
Uma alegria indescritível. Acompanho a premiação da APCA há vários anos e ganhar na mesma categoria de autores que admiro me deu um baita estímulo. Fiquei muito feliz por ser premiada com Os anos de vidro.
O Rio de Janeiro está muito presente na sua literatura. Para você, qual é a importância de escrever sobre a cidade?
A cidade é fundamental para mim, não só na literatura como no dia a dia. Gosto de caminhar pelas ruas, de me perder no labirinto urbano e ver a vida acontecendo. Frequentemente encontro inspiração para novos contos observando cenas do cotidiano, muitas vezes algo minúsculo que me chama a atenção e me deixa hipnotizada. Respiro a cidade, preciso da cidade. A sua presença na minha literatura é uma consequência natural desse encantamento.
Os anos de vidro apresenta uma fragmentação característica das narrativas policiais. Esse recurso acontece de forma intencional?
Totalmente. Fui criada lendo literatura policial, pesquiso literatura policial, e quis trazer para Os anos de vidro essa embocadura dupla da palavra gênero em português — tanto gender, no caso da transição, como genre, no caso do gênero policial, que é uma referência e estrutura as narrativas, divididas entre o processo de transição de uma jovem e um roubo no sábado de carnaval — em algum momento esses dois feixes se encontram.
Quando foi seu primeiro contato com autorias trans?
Embora eu tenha lido Paul Preciado na faculdade, a leitura de ficção trans foi mais tarde do que eu gostaria, mas não paro mais de ler. Adoro nomes como Amara Moira e be rgb, e acho que pouquíssimo foi falado a respeito de Chuva dourada sobre mim, da argentina Naty Menstrual, traduzido pela própria Amara Moira em bajubá, que é um belo livro de contos publicado pela Diadorim.
O mercado literário acolhe da mesma forma autorias cis e trans?
Acho que nos últimos anos tem havido uma maior inserção de pessoas trans nas diversas etapas da cadeia editorial, mas penso que sempre há espaço para mais livros escritos por pessoas trans serem publicados, e principalmente lidos.
Você participou da antologia Vivo muito vivo: 15 contos inspirados nas canções de Caetano Veloso e seu próximo livro é baseado no disco Transa. Para você, o que significa a obra do Caetano Veloso?
É uma obra monumental. Entrar em contato com ela é uma chance de tomar conhecimento de um Brasil, de um projeto de Brasil. Estou muito feliz de lançar o livro sobre Transa e acho sempre positiva a discussão sobre música popular e o Brasil.
Quais são as expectativas ao estar na programação oficial da Flip?
Estou muito animada, mesmo. Acho uma ótima oportunidade para falar de Caetano, Transa, cidade… as expectativas são as melhores possíveis.

