
Poética Lazarenta em ‘Três Vezes Lázaro’, de Natasha Felix
Em ‘Três Vezes Lázaro’, de Natasha Felix, Lázaro é uma figura ampla e múltipla – um corpo sonoro, que reivindica justiça, e que também é evocado como força de cura.
Foto: gabe ferreira (divulgação).
I
Sou um pesquisador que se interessa pela figura daquele que morre e retorna. Estudo a morte e, nos últimos quatro anos, para a minha tese de doutorado, analisei a figura do ancestral – símbolo importante, com funções mesmo após a morte nas religiões de matriz africana – em romances escritos por autores/as negro/as da literatura negro-brasileira contemporânea. Então, foi uma grande surpresa me deparar com um livro de poemas que gira em torno da figura mais emblemática das narrativas de ressurreição: Lázaro.
Eu já acompanhava algumas postagens da escritora Natasha Felix no Instagram. Comecei a segui-la após o lançamento de Inferninho (Círculo de Poemas. 2024), obra que estava na minha lista de “melhores livros nacionais de 2024”, publicada na revista O Odisseu. A partir disso, continuei acompanhando sua produção e, quando Três vezes Lázaro (Círculo de Poemas, 2026) foi lançado, assisti (e revi, para escrever este texto) aos vídeos em que a escritora comenta um pouco sobre seu processo criativo. Tudo surge a partir da indagação sobre o retorno de Lázaro após a morte, sendo este o último grande milagre de Jesus antes da crucificação. O que mobiliza a autora é pensar como se daria esse retorno, considerando que o morto não pediu para voltar do mundo dos mortos.
II
O que leva a autora a escrever sobre Lázaro é interessantíssimo; em seguida, vem um mapeamento desse processo por meio das etapas de produção do livro – algumas delas realizadas em residências artísticas na América Latina – e experimentos performáticos envolvendo os poemas.
Percebe-se, assim, que estamos diante de uma escritora que não apenas se senta e escreve, mas vivencia o conceito, performa e testa os poemas diante do público. Esse modus operandi de construção literária é muito próprio da autora paulistana, nascida em 1996. Natasha Felix compõe antologias de poemas e, como autora solo, publicou três livros: Use o alicate agora (Macondo, 2018), Inferninho (Círculo de Poemas, 2024), que concorreu ao Prêmio Oceanos no ano de 2025, e Três vezes Lázaro (Círculo de Poemas, 2026).
Assim, a figura daquele que morre e retorna é atualizada e inserida no campo de batalha da contemporaneidade. Como a própria Natasha Felix afirma nas “Notas da autora”, o livro “foi pensado nas noções de retorno, de fuga e de fronteiras” (p. 69), instâncias importantes para compreender a travessia de Lázaro entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos. É sobre transpassar fronteiras, pensar retornos em transformação, uma vez que se trata de uma ida que, no ciclo natural das coisas, não pressupõe retorno na materialidade do corpo, ao passo que, na história bíblica, há a possibilidade de uma segunda chance.
No livro de Natasha Felix, somos apresentados a um Lázaro acompanhado de fungos que nascem em seu corpo em decomposição, pois já se passaram quatro dias desde sua morte, e que conversam com esse sujeito que retorna. Além disso, surgem outras figuras, como o Fiscal de Imigração, que barra a travessia das fronteiras entre países, e a Dramaturga, que escreve sobre essa personagem que dá nome ao livro enquanto reflete e explica sobre o próprio processo de escrita diante de uma figura tão estranha. Tão Lazarenta. E, soma-se ainda a figura da Velha, vinculada ao mundo dos mortos.
Assim, temos poemas que, numa primeira leitura, podem parecer não ter divisão temática, mas se organizam a partir de idas e vindas, movimentos próprios de um corpo na liminaridade, tendo Lázaro como símbolo dessa transição entre planos. O leitor se depara, então, com representações diversas dessa figura, em poemas em verso e textos em prosa que abordam suas andanças, encontros e registros. Entre esses textos, surgem aforismos que remetem a um refrão musical: “Eternamente Lázaro e um punhado de agulhas nas suas chagas” (p. 13) ou “No escuro do escuro de mim a noite atravessa (5x)” (p. 38).
Um corpo sonoro, que reivindica justiça, e que também é evocado como força de cura
III
Compreendendo essa estrutura, Lázaro retorna e circula diante de impedimentos fronteiriços. Mas é importante contextualizar: quem é Lázaro? Por que “três vezes” Lázaro?
Na Bíblia, Lázaro é o morto ressuscitado por Jesus pouco antes de sua crucificação. É uma figura próxima ao Filho de Deus, que confiava estar diante do Messias, e cuja fé se torna catalisadora para a operação do milagre, pois é acreditando que o milagre se opera e Jesus pode trazê-lo de volta. Conforme a tradução de Frederico Lourenço da Bíblia (Companhia das Letras, 2017), “ao ressuscitar o amigo, Jesus dá a sua própria vida por ele” (p. 372).
Lázaro volta do mundo dos mortos, mas o retorno, em várias instâncias, é proibido para muitos sujeitos no contemporâneo. Assim, o sujeito lírico se transforma num deportado nessa volta feita nos dias atuais, pois um corpo que retorna dos mortos é também um corpo estrangeiro:
Você vai passar pelo raio-X
leva a respiração mormaço visível estranho
na pele mineral talo firma vê lá
passaporte lambido de suor e seiva
o fiscal da imigração não se aguenta quer brincar
pensa o gramado baixo torcida em êxtase
os dois pés em cima da sua cabeça
rolando rápido longe da fronteira
quer brincar. (p. 31)
Sendo assim, Lázaro não é o mesmo de antes. Transforma-se num corpo em putrefação após quatro dias enterrado e esse corpo abjeto é ecoado nos poemas do livro; o sujeito lírico seria, então, “lazarento”, aquele que causa repulsa.
Se a narrativa mais conhecida é invocada, Natasha Felix não esquece de mobilizar outras duas. O corpo transformado e abjeto dialoga com outra personagem bíblica, inserida em tom pedagógico e também vinculada a Jesus: o Lázaro da Parábola do Rico e o Lázaro.
Essa segunda invocação apresenta Lázaro como um corpo cheio de feridas e lambido por cães, o que demarca sua vulnerabilidade e sua iminente morte, ao mesmo tempo em que aponta para a intervenção divina que ameniza seus sofrimentos. Ao se prostrar diante da casa de um homem rico e não receber alimento, esse Lázaro, carcomido por doenças, morre e alcança o paraíso, diferentemente do rico, que jaz no Inferno.
Esse Lázaro, que deságua na iconografia de São Lázaro, é invocado nos poemas de Natasha Felix, inclusive sob a forma de oração:
Lázaro quando te chamo de leão de chácara é para atravessar
em paz a portaria do céu
Lázaro se te digo Lázaro ainda não aprendi a amar
as coisas perdidas é porque
me barram mais uma vez Lázaro
me leva até o limite da cidade faz da minha boca o bidê
dourado Lázaro quero Lázaro dourado escorrendo
pelas cáries atrás de um caminhão velho longe
das câmeras bem perto
do coração do mundo
um lugar tão bonito que me ferisse
te digo de novo
meu terror ninguém rouba de mim (p. 18)
O padroeiro dos doentes e necessitados, que cura as feridas físicas e espirituais, retorna dialogando com aqueles corpos que são vistos como máculas na sociedade. O santo, a quem se recorre para a cura de doenças – até mesmo aquelas que deixam marcas no corpo, como a hanseníase –, adquire um aparato político e é evocado para denunciar as violências, os desamparos e a falta de justiça:
Uma cabeça de cavalo em Lázaro
relinchando de quatro no que agora são escombros
poeira, farpas, a casa que te obriga a sair
aqueles que perseguem o nosso crime ainda impunes
Lázaro no interior do interior do golpe
dando coices. (p. 23)
A terceira invocação está sorrateira, sob as palhas e em silêncio por todo o texto, sendo representada por um corpo coberto de fungos. Por vezes, essa forma vegetal se expande por todo o corpo e cobre Lázaro, o que remete ao diálogo com a terra e à ligação com outras possibilidades de vozes. O fungo, que nasce da terra, comunica-se de forma subterrânea e desempenha papel importante na decomposição dos corpos. Ao estar nesse corpo e, por vezes, vestir a figura central do poema, remete às roupas litúrgicas de divindades de matriz africana – na orelha do livro, a escritora equatoriana Yuliana Ortiz Ruano associa São Lázaro a Babalú Ayé. No Brasil, a associação sincrética do orixá da terra e do silêncio, da cura e da doença, ocorre entre São Lázaro e Omolu.
Assim, o leitor encontra pistas dessa terceira aparição da figura de Lázaro nos seguintes versos: “vestindo suas lâminas de folhas” (p. 40) e “Uma voz ligeiramente translúcida. Com fibras/ todas expostas aos líquidos do humor […]” (p. 64), o que remete à vestimenta azê do orixá da terra. O assobio, característico desse orixá, também é representado no trecho “deus te chama de volta assobiando” (p.67).
Para além das três aparições que surgem no decorrer do livro, na própria Bíblia, Lázaro é o terceiro sujeito que Jesus traz do mundo dos mortos. As outras duas ressurreições são de crianças, presentes em livros bíblicos distintos: a filha do chefe da sinagoga, no Livro de Marcos, e o filho da viúva de Naim, no Livro de Lucas – enquanto a mais conhecida está no Livro de João. Todos retornam quando Jesus diz: “Levanta-te”.
Por estar inserido num contexto de segregação e de ódio ao estrangeiro, latente em diversas regiões do mundo – inclusive em países da América Latina, onde sujeitos migram para outros países –, somado às pressões Trumpistas e Imperialistas contemporâneas, a ressuscitação ganha ares xamânicos. Nesse cenário, a Dramaturga tem voz e produz escritos sobre a figura lazarenta, que adquire contornos coletivos quando associada às demandas atuais: “O mesmo grito por minutos. Rasga mortalha. Sete corpos no chão. Até o grito ser maior do que as hélices. Até o grito ser maior que as hélices” (p. 56).
“As possibilidades (ou impedimentos) de retorno num mundo em ebulição”
O tom metaliterário é um ponto importante para compreender o que está em voga no retorno de Lázaro, com temas que ressurgem de forma explícita nessa saída do mundo dos mortos para o mundo dos vivos, além dos diálogos com outros autores que compõem esse “sudário de fungos” que veste o morto – como Nicanor Parra, Saidiya Hartman e Merlin Sheldrake. Afinal, a Dramaturga está em contato com Lázaro e escreve esse percurso de tentativas de retorno, sendo uma voz lírica que invoca e, ao mesmo tempo, explica a invocação: “um castigo tão terrível apostar no que a escrita convoca” (p. 63).
Natasha Felix realiza um trabalho belíssimo e primoroso: coloca a linguagem em movimento “lazarento”, apontando fissuras, feridas e as dificuldades de se locomover, bem como as mil nuances, cores e odores de um corpo em decomposição. Lázaro é uma figura ampla e múltipla na escrita poética da autora – um corpo sonoro, que reivindica justiça, e que também é evocado como força de cura.
Três vezes Lázaro é um trabalho robusto, que mostra as especificidades do contexto atual e as possibilidades (ou impedimentos) de retorno num mundo em ebulição. É se deparar com o assombro e escutar aquele que retorna.
Invocamos: Lázaro. Lázaro. Lázaro.


